Diáspora guineense em Portugal destaca riscos de uma eleição presidencial com efeitos num governo (in)certo

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Manuel Matola

A votação para as presidenciais na Guiné-Bissau decorreu sem sobressaltos nas sete mesas das assembleias de voto em Lisboa, mas os imigrantes guineenses ouvidos pelo jornal É@GORA lembram que o resultado das eleições deste domingo não se esgota apenas na escolha “limpa” de um novo chefe de Estado.

“Cabe a quem ganhar as eleições presidenciais decidir se realmente vai continuar com o outro governo ou se vai tomar uma posição contrária” a de José Mário Vaz, alertou Dauda Sanó, numa alusão à recente destituição do executivo de Aristides Gomes, que se recusa a sair do cargo, após a indigitação de Faustino Imbali, agora um primeiro-ministro demissionário, cujo pedido de renúncia da chefia de novo governo não mereceu nem rejeição, nem aprovação, ou qualquer pronunciamento do atual Presidente da República, que se recandidata à sua própria sucessão.

Na mesa de assembleia de voto instalada na embaixada guineense na capital portuguesa, eleitores e pessoal técnico da comissão eleitoral contactados pelo jornal É@GORA foram unânimes em afirmar que o processo de votação decorreu de forma tranquila.

Para Portugal, um dos cinco círculos eleitorais da Europa, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Guiné-Bissau montou uma estrutura encabeçada por três pessoas – um presidente, diretor de serviço e secretário – responsáveis pela supervisão de toda uma equipa ligada ao processo eleitoral.

Desde a abertura das urnas, às 07:00, até ao fecho, às 17:30, foram pelo menos três as vezes que a equipa encarregue pelo processo de votação efetuou rondas pelas sete mesas de assembleia de voto, onde os 2.203 eleitores guineenses iriam exercer o direito de eleger o seu candidato: embaixada guineense em Lisboa, Tapada das Mercês (Sintra), Amadora, Cascais, Odivelas, Sacavém (Prior Velho), Moita e/ou Vale de Amoreira.

No breve contacto como o jornal É@GORA, Duarte Nunes, responsável pelo grupo técnico que supervisionou o ato eleitoral em Portugal resumiu a forma como decorreu a verificação de todo o processo.

“Aqui em Lisboa, depois de verificarmos que na embaixada estava a correr tudo bem, saímos para percorrer as outras seis mesas de assembleia de voto. E nesses locais, estava a correr tudo bem, sem sobressaltos”, disse Duarte Nunes.

Uma conclusão defendida também pelo presidente da mesa de voto na embaixada guineense em Lisboa, Luís Lourenço Fernandes, que, três horas antes do fecho das urnas, ilustrou com números alcançados a forma como estava organizado o escrutínio.

“Está a decorrer normalmente. Temos já 194 votantes de mais de 200 inscritos”, afirmou sobre um ato elogiado também pelos representantes dos partidos políticos, alguns dos quais enviaram de propósito da Guiné-Bissau os seus militantes para monitorar a votação em Portugal, um dos círculos eleitorais onde reside a diáspora guineense tem direito de voto.

Mas, se por um lado, os 770 mil eleitores guineenses dentro e fora do país votaram ordeiramente para a escolha do próximo Presidente da República, em Lisboa, era um eventual conflito pós-eleitoral que condicionaria o futuro da Guiné-Bissau o que mais afligia os intervenientes no processo que participam numa “eleição muito disputada” entre 12 candidatos presidenciais.

“Penso que o povo guineense e os políticos estão conscientes de que não pode haver casos de violência ou de outro género depois das eleições”, disse ao jornal É@GORA Dauda Sanó, representante oficial em Cabo Verde do Partido da Renovação Social (PRS) e que foi destacado por aquela força política para fiscalizar as eleições em Portugal.

Embora se manifeste “com esperança” e esteja “muito otimista de que depois dessas eleições presidenciais o país vá ter outro rumo diferente do passado”, o alto dirigente do PRS quer ver resolvido o mais rapidamente o atual impasse político do país, até porque, lembrou, a recente “decisão do Presidente da República está baseada na Constituição, porque o Presidente é o garante da Constituição e o Governo da República é politicamente responsável perante o chefe de Estado”.

Entretanto, acautelou, mesmo que o atual chefe de Estado José Mário Vaz seja reeleito, “nesse momento, o país e o povo estão mobilizados para pôr fim a certas situações na Guiné-Bissau”.

“Penso que qualquer que seja o Presidente, nesse momento, mesmo o atual Presidente e também candidato à sua própria sucessão, José Mário Vaz, o país vai ter um rumo diferente, porque o povo guineense está cansado de certa instabilidade política e de certos acontecimentos”, sublinhou Dauda Sanó.

Aliás, um cansaço que leva a que Marisa Augusto Candé, que imigrou para Portugal “há muitos anos” olhe para o futuro da Guiné-Bissau com enorme expetativa, sobretudo, “porque há muitos anos que o país está nessa anomalia”.

“O povo guineense não tem sossego. Por acaso estamos preocupados, pois estamos a viver uma situação muito má. Eu já conheço pessoas que vivem muito mal, por isso precisamos sair dessa situação”, disse Marisa Augusto Candé.

Crispação social

Mas mais do que pessoas que estão numa condição precária quer dentro do país, ou mesmo em Portugal, há quem denuncia que o diferendo político já começa a resvalar para o campo familiar dos guineenses.

“Neste momento, há situações de irmãos que não se falam por pertencerem a partidos diferentes. São coisas que já estão a interferir muito nas famílias”, revelou João Sanca, membro de uma brigada móvel do Movimento para a Alternância Democrática (Madem-G15), um partido político que também fiscalizou as mesas de votos em Lisboa.

“A melhor saída para os guineenses seria o entendimento”, apela, por seu turno, Dauda Sanó formado em Relações Internacionais.

No entanto, esse ajustamento entre cidadãos nascidos da mesma Guiné-Bissau deve ser feito por quem está, especialmente, fora do país e que “tem um papel fundamental para o desenvolvimento de todos os setores essenciais, desde a economia à política”: os guineenses na diáspora, a quem, futuramente, o “Estado e o governo da Guiné-Bissau devem dar mais atenção”, refere Dauda Sanó.

E são várias as formas de dar essa atenção à comunidade guineense residente no estrangeiro, a começar “fundamentalmente com a mudança da atual configuração” da Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau para aumentar o número de representantes parlamentares na diáspora, sugere Dauda Sanó.

“A diáspora tem apenas dois representantes: África elege um deputado e Europa também um deputado. Penso que, noutro momento, o Estado e o governo devem pensar nisso: fazer uma nova redistribuição de mandatos para que a diáspora tenha mais representatividade no Parlamento, porque o Parlamento é a casa do povo e de leis. É lá que podemos discutir as situações que podem ser a política em prol da diáspora”.

Uma posição também defendida por João Sanca que apela ao próximo Presidente da República a patrocinar essa eventual mudança visando permitir a eleição de mais deputados na diáspora.

“Na minha modesta opinião, a diáspora merecia ter mais deputados. Até agora tem cinco países que votam – Portugal, França, Inglaterra, Luxemburgo e Espanha. Tens Alemanha que não vota, mas tem imigrantes guineenses, País de Galês, que não vota, mas tem guineenses. Neste caso seria útil termos mais deputados”, afirma João Sanca, estabelecendo de seguida uma comparação com os círculos eleitorais internos do país.

“Se formos a ver a população de um determinado círculo eleitoral na Guiné-Bissau, notamos quantos deputados são eleitos. Então, a diáspora tem condições de fazer isso. Aqui em Lisboa é só um círculo, mas tem população que chegue para fazer mais um círculo”, considera.

Para aquele eleitor guineense, “o papel da diáspora é saber interpretar melhor, mais do que os que estão lá, quando estes não tiverem a oportunidade de saber interpretar o projeto de qualquer partido político”.

“Estando nós aqui na diáspora temos outro tipo de oportunidade e análise, onde uma pessoa pode exercer um direito cívico sem troca de algo, porque tem pessoas lá que fazem voto étnico. Na diáspora é raro isso acontecer, porque temos outro tipo de mentalidade. Há pessoas que votam lá por terem recebido um saco de arroz, na diáspora isso não acontece”, conclui. (MM)

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