Eleição das três deputadas afrodescendentes na diáspora “demonstram valor muitas vezes escondido” na Guiné-Bissau – Carlos Lopes

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Carlos Lopes, antigo adjunto do secretário-geral da ONU


O antigo adjunto do secretário-geral da ONU, Carlos Lopes, reagiu à eleição no Parlamento português de Romualda Fernandes, Beatriz Dias e Joacine Katar Moreira, elogiando o facto de as três mulheres de origem guineense demonstrarem ao mundo “o valor que muitas vezes” a Guiné-Bissau tem escondido.

“Vocês demonstram na diáspora o valor que muitas vezes temos escondido na terra”: Guiné-Bissau, disse Carlos Lopes também é natural daquele país lusófono, assinalando o marco histórico de as três mulheres, militantes de diferentes partidos, ao terem quebrado a tradicional falta de representatividade étnico-racial naquele órgão legislativo desde que Portugal se tornou um Estado de Direito democrático.

Numa publicação nas redes sociais, em que Carlos Lopes, um dos imigrantes mais destacados da diáspora guineense, assinalou o facto de nas legislativas de domingo em Portugal as deputadas eleitas “todas de esquerda” terem conseguido esse marco “de uma vez”.

“Pela primeira vez em Portugal o eleitorado elege diretamente negros para o Parlamento. E logo três de uma vez. E logo três mulheres. E logo por três partidos diferentes. E logo todas de esquerda. E logo todas originárias da Guiné-Bissau!”, escreveu Carlos Lopes, numa mensagem que pretende que o feito das três ativistas fique “para a História”.

Nesta segunda-feira foram várias as reações de entidades singulares e coletivas à eleição de três deputadas negras ao Parlamento português, onde há mais de 10 anos só havia um deputado que representava a comunidade racializada em Portugal: o angolano Hélder Amaral.

Uma década depois de ter sido eleito, o cabeça de lista do CDS-PP pelo distrito de Viseu decidiu esta segunda-feira abandonar todos os cargos políticos a nível nacional e distrital, na sequência dos resultados eleitorais de domingo, em que o seu partido teve pior resultado de sempre.

Desde a introdução da democracia, após 25 de abril, Portugal já teve deputados oriundos de Países Africanos de Língua Portuguesa, ex-colónias portuguesas: em 1995, o Partido Socialista elegeu Celeste Correia, natural de Cabo-Verde, e o guineense Fernando Ká, enquanto o cabo-verdiano Manuel Correia foi eleito pelo Partido Comunista Português.

Para a presidente da Plataforma para o Desenvolvimento da Mulher Africana (PADEMA), Luzia Moniz, a eleição de Romualda Fernandes, Beatriz Dias e Joacine Katar Moreira “representa não só um avanço para a sociedade portuguesa, mas, sobretudo o resultado da luta dos afrodescendentes nessa sociedade”.

“Até então, o Parlamento português não refletia o que é a sociedade portuguesa”, disse ao jornal É@GORA Luzia Moniz, para quem outro grande dado dessas eleições é o aumento da representatividade feminina.

“Este Parlamento passa a ter 38% de mulheres. Ainda não é suficiente, devíamos ter muito mais, mas já é um número considerável, já é um progresso. As mulheres negras, africanas, afrodescendentes serão apenas 3,5%, mas são mulheres ativistas, da luta pelos direitos das mulheres, da luta pela igualdade étnico-racial”, assinalou.

“Por isso”, prosseguiu a dirigente da agremiação de defesa de interesse das mulheres de origem africana em Portugal, “estou segura de que farão um excelente trabalho. Contamos com elas para atender as nossas reivindicações no sentido de igualdade de oportunidade, de género, da igualdade étnico-racial. Não há democracia sem igualdade étnico-racial”.

Há anos, a candidata eleita Romualda Fernandes foi presidente da mesa da Assembleia Geral da PADEMA, enquanto Joacine Katar Moreira foi diretora do departamento para a promoção de desenvolvimento da mulher africana naquela instituição dirigida por Luzia Moniz.

“Duas delas partilharam connosco na PADEMA os nossos anseios” pelo que ter as ativistas pro-imigração como parlamentares na próxima legislatura “para nós, PADEMA, é um orgulho incomensurável”, afirmou Luzia Moniz.

A Associação cabo-verdiana também elogiou os resultados eleitorais dos Partido Socialista, Bloco de Esquerda e LIVRE por terem conseguido eleger as três ativistas ao Parlamento, pelo qe o presidente da agremiação Filipe Nascimento “vê com muito orgulho e satisfação está crescente inserção” de membros da comunidade africana em Portugal, nomeadamente na vida cívico-política.

“Orgulha-nos não só por serem membros da comunidade africana, mas vermos que são pessoas com elevada capacidade intelectual ao ponto de darem o seu contributo naquilo que é o progresso de uma qualidade da política em Portugal por estarem em pé de igualdade para conduzirem os seus trabalhos e terem desempenho na Assembleia da República, mas, de um modo em geral, por serem pessoas com uma reconhecida capacidade nas suas áreas de atuação, desde investigadores, professores e magistrados”, disse Filipe Nascimento. (MM)

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