Elogios, surpresa e indignação da diáspora cabo-verdiana à proposta de João Miguel Tavares sobre afrodescendentes em Portugal

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Diáspora cabo-verdiana

A sugestão do presidente da comissão organizadora do 10 de Junho, João Miguel Tavares, no sentido de se dar mais oportunidades aos afrodescendentes e introduzir-se o crioulo nas escolas portuguesas está a dividir opiniões na comunidade cabo-verdiana em Portugal.

No discurso proferido nas festividades do Dia de Portugal, cujas cerimónias centrais decorreram em Cabo Verde, o jornalista João Miguel Tavares afirmou que Portugal tem uma “responsabilidade histórica” de oferecer uma “educação de qualidade” aos filhos da imigração, especialmente, de Cabo Verde.

“Aquilo que deveria ser uma preocupação genuína de Portugal – e não é; pela falta de representação dos afrodescendentes na política portuguesa – é a noção de que o nosso país tem uma responsabilidade histórica, sobretudo para com os jovens que descendem de habitantes das antigas colónias”, disse João Miguel Tavares.

Centrando a sua intervenção na relação entre Portugal e Cabo Verde, o jornalista assinalou:

“Dentro daquilo que é a responsabilidade histórica de Portugal e os laços que nos unem a Cabo Verde, considero que as autoridades portuguesas, e a sua academia, têm o dever de prestar apoio à oficialização e padronização do crioulo, enquanto instrumento primordial de integração e de sucesso escolar dos cabo-verdianos e dos seus descendentes – sobretudo daqueles que por estarem longe do mundo das elites nunca puderam usufruir de um contacto privilegiado com a língua portuguesa, seja em Cabo Verde, seja em Portugal”.

“Bravo, João Miguel Tavares. Dito por si, essas palavras valem ouro. Uma pedrada no charco e os cabo-verdianos nas ilhas e na diáspora sentem-se finalmente representados nestas festas. As suas sublimes e significativas palavras fizeram estremecer muitas vozes e abrir muitos olhos à realidade vivida para lá dos discursos protocolares e de ocasião”, reagiu na sua página de Facebook o ex-primeiro-ministro de Cabo Verde, José Maria Neves, que reside em Portugal.

Por seu turno, o presidente da direção da Associação Cabo Verdiana em Portugal, Filipe Nascimento, não só “subscreve o conteúdo dessa declaração” de João Miguel Tavares “quanto à promoção do crioulo como uma língua de ensino” em Portugal, como elogia também a defesa que o jornalista faz no sentido de se dar mais oportunidades aos afrodescendentes.

Para Filipe Nascimento, na diáspora cabo-verdiana “há cada vez mais membros conterrâneos na sociedade com um grande potencial”, mas igualmente “há cada vez mais um tendencial direcionamento desses cidadãos para trabalhos precários, que mesmo tendo qualificação não são considerados no sentido de se dar a mesma oportunidade, dai o encaminhamento para trabalhos de uma maior precariedade não só a nível salarial como também de progressão de carreira”.

Em declarações ao Jornal É@GORA Filipe Nascimento afirmou que isso “isso não se deve à falta de potencial, porque o potencial existe”, daí a Associação Cabo-Verdiana em Portugal  “subscrever as declarações de João Miguel Tavares”.

“Quanto à promoção do crioulo como uma língua, essa é uma tarefa que a Associação Cabo Verdiana não só defende como também vem ao longo de anos dentro da sua própria casa, permanentemente, a lecionar cursos dirigidos a interessados, no geral, sendo que a maior parte dos alunos são pessoas de nacionalidade e origem portuguesa. Isso no fundo para dizer que a Associação Cabo Verdiana não só vê com bons olhos a promoção da língua crioula, como ela mesma promove permanentemente essa língua”, frisou Filipe Nascimento.

Por outro lado, prossegue aquele dirigente associativo, “não obstante a promoção que vem fazendo da língua crioula cabo-verdiana, num processo de integração efetiva dos cabo-verdianos descendentes de cabo-verdianos em Portugal, entendemos que a promoção do ponto de vista pedagógico e oficial da língua materna”.

Aliás, “visto de outro prima, pode condicionar este processo de integração efetiva porque, se queremos que os cabo-verdianos descendentes integrem efetivamente e num processo progressivo e pacífico na sociedade portuguesa, esta aposta em termos linguísticos deve ser pela via institucional; deve ser com metodologias didáticas, nomeadamente, nas línguas portuguesa e estrangeiras que também são um desafio para a integração no mercado de trabalho, dou como exemplo o inglês”, defendeu.

Filipe Nascimento remeteu aos pais e avós o trabalho de promoção do crioulo, porque, disse, é “a nível doméstico” e “no dia a dia” que se deve fazer a transmissão da língua cabo-verdiana “aos filhos, netos e gerações vindouras”.

No entanto, as palavras de João Miguel Tavares também causaram surpresa e indignação não só no seio da diáspora cabo-verdiana como também na direção de uma das principais organizações ligadas àquela que é a segunda maior comunidade de imigrantes em Portugal.

“Em relação ao crioulo nas escolas, isso é a mais clara demagogia que se pode fazer numa terra onde o crioulo é a língua nacional e o português a língua oficial”, disse ao Jornal É@GORA Maria João, presidente da Associação Unidos Cabo Verde, uma organização sedeada na Amadora que desenvolveu e consolidou um Gabinete da Cidadania, hoje denominado “Gabinete Civitas”, de forma a ter capacidade de resposta para as questões ligadas à área de regularização de emigrantes em Portugal.

“Para as pessoas que há já algum tempo trabalham na área da imigração toda a gente tem noção que umas das primeiras lutas que houve foi tentar fazer com que o crioulo fosse identificado como língua materna porque as crianças chegavam e não conseguiam nem sequer entender a linguagem, de maneira que isso nem sequer entendo assim muito bem”, afirmou Maria João.

A intervenção de João Miguel Tavares, que defendeu a introdução do crioulo nas escolas portuguesas, foi descrita pela generalidade da imprensa portuguesa desta quarta-feira como tendo causado embaraço a “dois presidentes”, o cabo-verdiano Jorge Carlos Fonseca, e o português Marcelo Rebelo de Sousa.

A presidente da Associação Unidos Cabo Verde, que gere uma escola no bairro social Casal da Mira, no Concelho da Amadora, considerou que “tem que haver aqui uma transição” no sentido de “alguma facilidade na autoestima e promoção da língua crioula nos jardins de infância”.

“Mas”, prosseguiu, “tenho que reconhecer que a nível da escola primária não acho que haja assim grandes vantagens da introdução do crioulo no curriculum académico das crianças”.

Na mensagem que tinha como alvo os governos de Cabo Verde e Portugal, João Miguel Tavares defendeu “as reparações” devidas aos jovens filhos da imigração para que tenham “uma vida digna, educação de qualidade, acesso facilitado à cidadania portuguesa e o combate permanente à discriminação”.

“As verdadeiras reparações fazem-se durante o intervalo de uma vida. Não para compensar tragédias ancestrais, cujos efeitos são impossíveis de medir”, disse o jornalista.

Reagindo, a presidente da Associação Unidos Cabo Verde considerou que “há muito que falar” em relação à integração, “começando pela livre circulação de cabo-verdianos na isenção de vistos, passando pela lei da nacionalidade que lhes foi tirada em 1982”.

“Há aqui um sem números de situações que poderiam ser revertidas e que deixem de ser discursos mais ou menos demagógicos e bonitos. A Direita deve estar chocada, a Esquerda deve estar aborrecida por ter sido alguém da Direita a fazer esse discurso”, frisou Maria João num tom irónico.

A RDP-África, estação pública de rádio que cobre maioritariamente temáticas ligadas aos imigrantes africanos em Portugal, tornou o assunto no tema do dia e lançou um debate para obter reações sobre a proposta de João Miguel Tavares.

“Esse governante teve muita coragem. Está de parabéns, embora Marcelo Rebelo de Sousa não tenha nada a ver com isso porque está a fazer um bom serviço. Mas como não trabalha sozinho, tem que depender dos outros, ele teve que ´engolir o sapo´”, disse o cabo-verdiano Filomeno Manuel no programa de opinião da RDP-África.

“Acho que Portugal trata os cabo-verdianos muito bem”, disse, por seu turno, Ana Tavares na sua intervenção em que esclarece a sua defesa.

“Eu falo por mim. Não tenho razões de queixas, porque também em Cabo Verde há muitos que foram com curso já feito e não têm lugar digno para trabalhar porque não há sítios para eles trabalharem. Aqui também é assim. Há muitos com cursos e não há lugares para todos”, refere a cabo-verdiana. No texto lido nas cerimónias do 10 de junho em Cabo, o jornalista João Miguel Tavares considerou que “o problema não é haver tantos cabo-verdianos com 40 ou 50 anos de idade a limpar casas ou a construir estradas e edifícios em Portugal. A pobreza e o défice de educação têm um grande impacto em qualquer vida”.

Para o jornalista João Miguel Tavares, “o verdadeiro problema surge quando os seus filhos de 20 anos, que já foram criados em Portugal, continuam a limpar casas e a construir estradas e edifícios”.

“Todo o serviço é digno: limpar a casa, fazer estrada e ir à obra é trabalho digno. Não se pode depender de cursos, teatro e lugares para trabalhar. Eu sou bem tratada em Portugal, tanto no hospital quanto na escola, nas repartições. Em todo o sítio que eu fui, sempre fui bem tratada”, replicou Ana Tavares que, no entanto, contou a sua experiência pessoal relacionada com discussão sobre o processo de integração dos imigrantes através da educação.

“Por exemplo, o meu filho dizia que ia para escola e não frequentava a escola, quando ia passear no Colombo. A culpa é do governo?”, questionou a cabo-verdiana, dando resposta à própria pergunta: “A culpa não é de governo. Só que quando eu descobri é que obriguei o meu filho a ir para escola. Então os pais devem estar atentos nisso, porque o governo não pode resolver tudo. Portugal dá-nos o que eles podem. Agora quem não aproveita, paciência. Na nossa terra não vivíamos melhor do que aqui. Isso nós todos cabo-verdianos sabemos”, afirma. (MM)

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