Empresário que começou de baixo revela como um imigrante pode vencer as dificuldades em Portugal

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Empresário Ricardo Amaral Pessôa. Foto privada

Elisabeth Almeida e Manuel Matola

O empresário brasileiro Ricardo Amaral Pessôa considera que Portugal continua a ser um país para o qual “vale a pena” imigrar, mas recomenda a todo aquele que pretende (re)começar a vida fora do Brasil: deve ter “espírito de trabalho” e de “humildade” para facilmente conseguir vencer os desafios iniciais que os imigrantes enfrentam.

“É preciso ter humildade” para, numa primeira fase da imigração, aceitar o trabalho que se é oferecido, disse nesta sexta-feita o presidente da Associação brasileira no território português, que emitiu a sua opinião numa conversa sobre “como um imigrante pode vencer as dificuldades em Portugal”.

Naquela que foi a primeira de um conjunto de entrevistas que o jornal É@GORA decidiu fazer na sua página de Instagram a notáveis imigrantes, Ricardo Amaral Pessôa falou do seu percurso de quase 30 anos em Portugal onde começou de baixo até chegar a homem de sucesso, sendo hoje um dos investidores brasileiros mais influentes também a nível político em Portugal.

Ricardo Amaral Pessôa nasceu em Minas Gerais e, em 1991, largou a carreira que seguia na área de segurança no Brasil para vir morar em Portugal, após ter sido “desafiado por um grande amigo”, Rodrigo Quaresma, um cidadão português.

Mas a ideia de se transferir para as terras lusas pairou no seu imaginário logo depois do 25 de abril de 1974, quando morava em Brasília, quando conheceu uma rapariga de uma família portuguesa com quem não chegou a casar. Em 1984, Ricardo Amaral Pessôa foi trabalhar no Recife e a imigração continuou a ser um projeto a concretizar.

Persistiu.

Quando seis anos depois imigrou para Portugal começou do zero e trabalhou na construção civil como ajudante de eletricista, uma profissão sobre a qual não “sabia nada”, pelo que ao ser admitido aceitou sem reservas receber o ordenado de apenas cinco mil contos, menos de metade do valor que os demais colegas auferiam: 12 mil contos, na altura em que a moeda portuguesa era o escudo.

“Entrei como pedreiro e saí como eletricista. Aprendi uma profissão que me ajuda até hoje”, lembrou o imigrante que chegou sem contrato de trabalho e, em duas semanas, conseguiu ter dois empregos num país onde “se você procura sem escolher, as pessoas dão emprego”, bastando para tal “ser humilde”.

Também “é preciso ser polivalente”, recomendou o brasileiro que aprendeu que “o importante” é tentar “ser bom naquilo que você faz”.

“Em todas as áreas você chega e consegue, porque um profissional bom em todas as áreas é sempre preciso”. E no pós-Covid, em Portugal, “não vai haver problema de chegada de brasileiros”, aliás, a imigração “já existia e vai continuar a existir sempre”, disse.

Em conversa com o jornal É@GORA, o atual responsável pela Associação brasileira de Portugal recordou que na fase inicial da imigração dormia menos de cinco horas por dia para conseguir organizar a vida. Depois viu o resultado deste sacrifício.

“Durante seis meses arrumei a minha situação”, garantiu Ricardo Amaral Pessôa.

Anos depois, o empresário conseguiu montar uma empresa de Segurança Eletrónica, que utiliza equipamentos de alta tecnologia e conta com uma equipa de profissionais capacitados. A marca da sua companhia ostenta as iniciais do seu nome completo: RAP.

Além de empresário, o brasileiro tem trabalhado grandemente em prol dos imigrantes ao nível de voluntariado e sem auferir ordenado, especialmente, em áreas que lhe facilitam desdobrar-se nos círculos de influência política portuguesa.

Nas últimas três décadas, atuou como Conselheiro junto ao Conselho Consultivo para os Assuntos da Imigração (COCAI) e Coordenador Geral do Conselho de Cidadãs e Cidadãos, cujas reuniões são feitas na Embaixada do Brasil em Lisboa.

Recentemente, o empresário brasileiro desempenhou um papel preponderante no apoio ao regresso de imigrantes brasileiros que durante cinco dias ficaram ‘acampados’ na parte exterior do aeroporto de Lisboa. No entanto, o Consulado do Brasil em Portugal responsabilizou-o pelo caos que se assistiu no aeroporto Humberto Delgado.

“Lamentável”, reagiu Ricardo Amaral Pessôa, durante a entrevista que concedeu ao jornal É@GORA, na qual afirmou: “não havia necessidade de eles (os imigrantes) terem ficado aí” fora do aeroporto da capital portuguesa à espera de repatriamento.

Hoje, Ricardo Amaral Pessôa, que também tem uma equipa de futebol 11 em que “são todos jogadores brasileiros”, tornou-se num dos imigrantes mais destacados no universo dos 151 mil cidadãos oriundos do Brasil que residem em Portugal, onde são a maior comunidade estrangeira do país.

O contributo de Ricardo Amaral Pessôa aos brasileiros que imigraram para Portugal é extensivo aos que morrem no território português em circunstâncias em que as famílias não têm condições para transladar o corpo para o Brasil, por ser uma operação cara.

Nestas situações, “tenho feito o sepultamento aos funerais de que não tem capacidade de transladar”, assinalou, sem entrar em pormenores.

Aos 64 anos, o empresário brasileiros não só se dedica aos assuntos da imigração, mas vive isso em sua família, que é composta pelas mais diversas nacionalidades e traços culturais: o seu filho mais velho casou-se e foi viver em Luxemburgo, onde teve seus filhos e netos de Ricardo Amaral Pessôa; já sua filha é casada com um cabo-verdiano e ambos vivem nos Estados Unidos, onde também nasceram seus filhos, cidadãos norte-americanos.

O entrevistado do jornal É@GORA tem um visão clara de “pequenos detalhes” daquilo que os imigrantes “precisam observar” quando acabam de chegar e que os ajuda a vencer as dificuldades em Portugal.

“Quando chega é preciso vir com espírito de trabalho. Não ir passear para Cascais, Sintra… Espera. Portugal não vai sair daqui”, disse, apontando casos concretos de brasileiros que vêm com “mentalidade de gasto”, tais como de comprar um carro velho a preço baixo (comparando com o Brasil) sem, no entanto, calcular os custos reais desse tipo de investimento.

“Não venham com mentalidade de gasto”, mas “de poupança”, referiu, exemplificando: “O carro é barato, mas a manutenção e os custos são altos. Eu tive um carro velho que ao invés de vender ofereci”, ilustrou, contando um episódio de um jovem brasileiro que veio organizado e rapidamente ficou sem dinheiro.

“Há um que chegou com seis mil euros e gastou tudo em seis meses”, o equivalente a mil euros por mês. “Eu disse: então você é mágico”, gracejou Ricardo Amaral Pessôa, que aponta para várias formas de o imigrante procurar se integrar sem gastar os recursos em noitadas.

“É muito melhor integrar-se nas igrejas que frequentavam no Brasil do quem em copofonia”, propôs.

Mas se é necessário ter um plano para evitar gastos desnecessários, é igualmente importante saber quanto custa imigrar, até porque é preciso fazer um planeamento, frisou Ricardo Amaral Pessôa que apontou o seu exemplo pessoal.

”Não é caro. Na verdade, eu trouxe pouquíssimo dinheiro. Decidi imigrar com a decisão de fazer qualquer coisa desde que fosse honesta. Não custa caro. Nós temos é que moldar a nossa forma de vida”, olhando, por exemplo, para aquilo que era possível dar aos filhos no Brasil e o que é realístico fazer em Portugal, sobretudo, numa primeira fase da imigração, afirmou.

Por isso, o caso de Ricardo Amaral Pessôa foi no sentido de seguir o que está estipulado na lei do estrangeiro portuguesa referente ao reagrupamento familiar, ou seja, veio sozinho, organizou-se e mais tarde chamou os restantes membros da família.

“Quando se chega também se deve optar por viver nos arredores de Lisboa”, onde as rendas são relativamente mais baratas, recomendou o empresário sobre um país que “vale a pena” apostar, apesar de nos últimos dias centenas de brasileiros terem pedido para serem repatriados devido aos impactos económicos da Covid-19 nas suas vidas.

Entretanto, alguns dos repatriados já “querem voltar” a viver em Portugal e solicitaram ajuda ao empresário Ricardo Amaral Pessôa, que os adverte: “não venham antes de julho”. (MM)

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