Ensino à distância: um imperativo em tempo da Covid-19

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FOTO: Fizkes - stock.adobe.com ©

João Muteteca Nauege, Docente da Universidade Lueji A´Nkonde, Angola
A COVID-19 tem demonstrado que todos os países foram apanhados despreparados para a enfrentar, as economias estagnaram, ninguém sabe quando e como voltarão ao normal, o tal normal já vem sendo chamado “novo normal”. As escolas fecharam, os hospitais estão sobrelotados, até as grandes potências do mundo dizem que a situação é insustentável, ao invés de confinamento de tudo para que o Coronavirus passe, nada assim o garante. Procura-se por um desconfinamento mais cauto para que as pessoas não morram por falta dos serviços básicos, por isso, se vai optando por teletrabalho e saídas quando se justifica para actividades produtivas.

Em face dessa nova realidade, as Universidades são chamadas a pensar e a repensar como lidar com a COVID-19, não devem estagnar, delas o mundo espera a verdadeira resposta para mitigar, controlar ou mesmo acabar com a Pandemia do Coronavirus. Em todo o mundo há um sem-número de Universidades, que lançaram a mão para a descoberta de uma vacina que trave a maldita COVID-19.

Então, se a Covid-19 é um entrave a aglomerações, todas as manifestações colectivas ou grupais estão condenadas ao fracasso, as escolas, as Universidades, as manifestações culturais, etc. E o Ensino é uma das grandes vítimas da COVID-19. Parar o Ensino Superior, parar as investigações é, no nosso ponto de vista, dar ordens de avanço à COVID-19. Isso não pode acontecer! Não devemos permitir que as Universidades parem, até parar ao ponto de não pensarem como pensar. Até deixarem de investigar e divulgar medidas para mitigar os efeitos da COVID-19, controlar ou sanar a maldita Pandemia. Se as Universidades não devem fechar e/ou parar, pelo menos, devem ensinar à distância, sim, é um imperativo em tempos do Coronavírus/COVID-19.

Fizemos recurso à definição clássica de Desmond Keegan (1980) de ensino à distância: é um tipo de método de instrução, em que as condutas docentes acontecem à parte das discentes, de tal maneira que a comunicação entre o professor e o aluno, se realiza mediante textos impressos, por meios electrónicos, mecânicos ou por outras técnicas.

As Universidades angolanas conseguem assegurar o ensino à distância, ou pelo menos, semi-presencial? Lá vamos! Recentemente, o MESCTI (Ministério de Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação) dirigiu um questionário às IES (Instituições de Ensino Superior), no qual procurava saber se estas estavam preparadas para a retoma das actividades lectivas após o levantamento do Estado de Emergência, dentre as questões formuladas, chamaram-nos atenção a 9ª e 11ª em que se pretendia saber se as IES conseguem assegurar aulas em regime semi-presencial, envolvendo as TIC, Computadores e Internet, ou oferecer a modalidade de ensino à distância.

As respostas variaram, umas mais politizadas outras mais realistas. Contudo, é notável a preocupação das unidades orgânicas inquiridas em transmitir, pragmaticamente, que não há condições para um ensino à distância. No nosso ponto de vista, é tempestivo o ensino à distância, é um imperativo em tempos da COVID-19. Devemos, como país, começar a pensar nesta modalidade de desenvolver, partilhar e reinventar os conhecimentos. Se quisermos que o nosso país avance e se afirme no conceito das nações, o ensino à distância deve ser no futuro breve, ou seja, já ser PENSADO, REPENSADO e PLANIFICADO, com vista à sua implementação, a começar com a criação de mecanismos legais para a implementação de instituição vocacionada para o ensino à distância, que depois poderá evoluir para uma UNIVERSIDADE ABERTA.

A respeito do palpite da criação de uma Universidade Aberta, em Angola, vocacionada apenas para o Ensino à distância, procurar-se-ia beber experiências de vários países que já contam com essa modalidade de ensino, com créditos dados, com projectos ousados de que se orgulham. Dada a proximidade histórica e as relações já seculares de amizade, Portugal poderia servir de exemplo para um palpite tão arrojado como o que chamámos à colação. Pois, já conta há quase 32 anos com uma Universidade Pública voltada para o Ensino à distância, que, também, é uma referência ao conectar milhares de formandos e formadores dos distintos pontos do mundo em busca da partilha de conhecimento, é sem dúvida exemplo de um projecto de Ensino Virtual sustentável.

Graças ao CORONAVIRUS podemos pensar longe. Não quer dizer que o Ensino à distância vá substituir o presencial, de modo algum. O ensino presencial é insubstituível pelas características que lhe são intrínsecas, envolve partilha de conhecimentos, habilidades, contactos, olhares e pensares. O ensino presencial permite o contacto sócio-afectivo que o à distância não consegue nos brindar. Mesmo assim, o Ensino à distância é um imperativo em tempos da COVID-19.

O ensino à distância pode ajudar a alavancar Angola a outros patamares, o qual exigiria um investimento sério e avultado no domínio das TIC, permitindo que o nosso país esteja no duto dos que estão na rota de neotecnologia à espreita de crescimento e desenvolvimento sustentáveis, ajudar-nos-ia a preparar docentes com base numa pedagogia e tecnologia de ensino à distância, prevenindo-nos em próximas pandemias.

O ensino à distância carrega consigo inúmeras vantagens, por exemplo, se tivermos uma instituição vocacionada para tal, o país incorporaria no sistema de Ensino Superior mais estudantes que estão fora das regiões desprovidas de uma instituição de Ensino ao nível superior, abertura da Universidade a outras castas, diminuição de custos associados ao ensino presencial, formação docente voltada ao ensino à distância, com base na realidade que privilegie planos curriculares multidisciplinares ou transdisciplinares, a revolução tecnológica interna em Angola, e sobretudo a vantagem de com essa modalidade atiçar-se o aprender a aprender, apanágio de ensino à distância. É consensual pensar-se que a resposta à COVID-19 vinda das universidades angolanas nem sequer foi imediata, talvez esteja a ser tímida.

A Universidade, em tempos de pandemia, deve criar, inovar e colocar à disposição da sociedade protótipos de ventiladores, os mais acessíveis a todos para o combate à COVID-19, criar e inventar modelos de materiais de higienização ou de bio-segurança, reaproveitar materiais de fácil acesso para soluções fáceis e oportunas, deve procurar criar redes que facilitem a testagem em massa e mais módica possível, deve sugerir medidas, trazer soluções e acima de tudo resolver problemas. Este é o escopo das Universidades. De todas as instituições afectadas pela COVID-19, por incrível que pareça, feliz ou infelizmente, a Universidade é a única instituição que não se deve confinar com o medo da COVID-19.

O ensino à distância é mesmo um imperativo nos tempos da COVID-19. Os professores angolanos na diáspora podem partilhar a sua experiência e/ou dar o seu contributo nesse sentido. (X)

4 COMENTÁRIOS

  1. Muito se gastou e ainda se gasta país que, feliz ou infelizmente, serviria para melhorar o ensino em ANGOLA. O ensino à distância, mesmo que tarde, deve ser pensado com seriedade, porquanto precisamos que as universidades angolanas sirvam, não só para garantir o nome de sua existência, mas cumprir com o objectivo universal das universidades “DAR RESPOSTA AOS PROBLEMAS DAS SOCIEDADES”. Bem haja ao Professor Muteteca!

  2. É bem verdade que o ensino à distância será benéfico, caso se for implementado com todos seus requesitos, muitos dos nossos dirigentes têm essa experiências, mas não acreditam no país.

    Ensino à distância, é um assunto que por muito tempo já se fala, tornou assunto do dia-a-dia só com o aparecimento da COVID-19, mesmo assim, ainda não há crédito para sua implentação. A sua implentação é um crédito na qualidade de um ensino e mais aberto ainda em Angola.

  3. Concordo, sem dúvidas, Muteteca PhD, que o Ensino à Distância é um gigante na educação e na ciência acordado pelo contexto actual em Angola (e não só). Porém, as minhas maiores reservas prendem-se com o facto de, ainda, a fraca habilidade no manejamento das TICs por parte da comunidade estudantil, a má qualidade e o fraco acesso à internet, a muito duvidosa qualidade do processo educativo vigente ou o descaso no investimento na educação básica constituírem o grande calcanhar de Aquiles, senão mesmo o entrave, para um sucesso imediato do recurso ao Ensino à Distância.
    É hora de, todos juntos, os académicos debaterem em busca de soluções, as quais podem começar por um projecto piloto de 5 (mais/menos) anos, para vermos os resultados.
    De todo modo, parabéns por abrir esta caixa de pandora, Doutor Nauege. Haja debates.

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