Entrevista a Celso Soares sobre o projeto europeu de comunicação estratégica para ONG pro-imigrantes

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Celso Soares, presidente da direção do GIIRC`3

A Associação CulturFACE está a desenvolver um projeto piloto que pretende promover a comunicação estratégica de todas as organizações pro-imigrantes em Lisboa, e não só, uma forma de dar visibilidade e difundir de forma massiva as dinâmicas das instituições do terceiro setor que, à semelhança das empresas e do mundo, estão para já paradas devido à Covid-19.

A nível estratégico comunicacional, “nós somos o eco das organizações. Não somos porta-vozes, ou seja, (o que fazemos) é difundir mais de forma massiva, razão porque o GIIRC`3 acaba por ser um espaço de visibilidade e difusão das dinâmicas das organizações” imigrantes em Lisboa, diz Celso Soares, presidente da direção do Gabinete de Imagem Integrada e de Recursos Comunicacionais para o 3 º Sector (GIIRC`3) em entrevista dada ao jornal É@GORA, simultaneamente, com Rosário Alvarenga, responsável pela área da comunicação daquela que, garante, é a primeira instituição do género que nasceu de Lisboa para o mundo.

“A nossa ideia não é sermos uma ilha na cidade de Lisboa, é também divulgarmos tudo aquilo que acontece a nível nacional e europeu. Mas, para já, o GIIRC`3 está circunscrito à cidade de Lisboa. A associação CulturFACE é que não”, esclarece Rosário Alvarenga numa conversa que pode acompanhar a seguir.

Que projeto é esse e qual o seu propósito?

Celso Soares (CS) – O Gabinete de Imagem Integrada e de Recursos Comunicacionais para o 3 º Sector (GIIRC`3) é um projeto enquadrado no plano municipal para integração de imigrantes em Lisboa, com o propósito de inicialmente vigorar entre 2018 e 2020. É cada vez mais evidente a necessidade de inclusão. O GIIRC`3 quando aparece entre as 10 organizações que beneficiam deste Fundo Europeu surge na condição de dar resposta em termos de divulgação e imagem positiva das organizações sociais. Não só olhando par as associações mas, no seu todo, organizações do terceiro setor. Aqui estamos a falar também implicitamente de empreendedores migrantes, estamos a falar, no geral, para o setor que nos transpõe para a economia social. Nós percebemos que havia um vazio na sociedade portuguesa em termos de comunicação dirigida à população imigrante, aquilo que os imigrantes têm feito ou já fizeram, e também dar voz através das suas boas práticas, através das associações com que trabalham, e a sua contribuição também para a sociedade portuguesa. Portanto, no fundo, é fugirmos de coisas más. É dizer à sociedade portuguesa, especialmente a cidade de Lisboa, que nós estamos na cidade de Lisboa para dar o nosso contributo. Uns mais, outros menos, com aquilo que podem, com aquilo que são capazes de fazer transmitindo às novas ou futuras gerações a mensagem de que os imigrantes não vieram a Portugal apenas com o intuito de fugir dos problemas dos nossos países de origem. Nós viemos à procura de melhores condições e contribuir para que essas melhores condições aconteçam. Este é o outro lado do nosso ser-estar com atitude com que nós nos afirmamos neste projeto. E claro, não pensamos apenas em nós, decidimos juntos trabalharmos a imagem positiva das comunidades imigrantes. O GIIRC`3 é um gabinete que funciona com recursos comunicacionais numa perspetiva de Relações Públicas de e para as organizações sociais.

Portugal tem neste momento mais de 130 nacionalidades. Como é que está a ser feito este trabalho em termos linguísticos?

CS – Nós, obviamente, falamos português, porque é a língua portuguesa que nos abraça e nós não podemos descurar dela. Mas temos que ter em conta que ao falar da população imigrante há francófonos, anglófonos, há cidadãos de origem árabe, há cidadãos asiáticos. É certo que ainda não estamos com aquela habilitação linguística para difundir em várias línguas, mas seria curioso e uma vitória se um dia conseguíssemos dar essa cobertura. Claro que o caminho faz-se caminhando. E é com esse caminhar na língua portuguesa que nos acolheu que nós vamos dar os nossos primeiros passos. É óbvio que nós não podemos dar um passo maior que a perna. Temos que assegurar primeiramente a nossa casa e depois a do vizinho. Mas como hoje estamos todos no mesmo barco, não podemos nos esquecer que o vizinho também faz com que nós possamos viver. De contrário vamos viver isolados e hoje o mundo isolado não existe. Então, hoje, nós estamos a trabalhar numa perspetiva de inclusão usando a língua portuguesa, mas também olhando para as pessoas que andam à nossa volta.

Qual tem sido o nível de recetividade das associações imigrantes ao GIIRC`3?

CS – Tem sido boa. Queremos que seja mais fortalecida. É certo que os nossos trabalhos têm sido vistos por incrível que pareça por um número bastante considerável de pessoas. Algumas publicações com poucos dias nós têm conseguido (por vezes) 15 mil visualizações. E isso para nós é sinal de que as pessoas querem respostas que têm sido práticas e pragmáticas. Para nós enquanto gabinete de comunicação, aquilo que temos que fazer enquanto terceiro setor é ter linguagem inclusiva. E é isso que as pessoas estão à procura: respostas práticas. Nós ainda não temos aquela resposta imediata, mas porque nessa altura estamos mais cautelosos que mediáticos. É óbvio que o imediatismo vem a seguir, porque as coisas vão falar por elas próprias, pela sua própria existência. Portanto, o impacto tem sido bastante positivo, até porque no nosso espaço temos tido iniciativas. Nós temos tido um modo de estar na sociedade comunicacional muito diferenciado e acreditamos que com o tempo consigamos caminhar. É uma complementaridade e não duplicidade do trabalho, porque aquilo que nos faz cair no erro social é sermos repetitivos Não queremos ser repetitivos, queremos, sim, ser o eco e complementares.

Como é que pensam, de ponto de vista comunicacional, fazer essa separação de temas que estão a ser abordados, como dizia, de forma repetitiva por algumas associações ao ponto de ter uma melhor comunicação, para que as pessoas saibam o que está a acontecer com as diversas associações de imigrantes que existem em Portugal, sobretudo, em Lisboa?

CS – Nós temos tido o cuidado de olhar para os conteúdos que são publicados e perceber a reação das pessoas em relação a essa determinado conteúdo. As pessoas querem ser informadas, mas numa linguagem que elas percebam. Querem soluções imediatas. E nós o que fazemos é tentar junto de entidades parceiras, e não só, encontrar respostas mais fáceis para que as pessoas percebam. Então, a nossa comunicação tem sido um eco. Por isso digo: nós somos o eco das organizações, não somos porta-vozes, ou seja, (o que fazemos) é difundir mais de forma massiva, razão porque o GIRC acaba por ser um espaço de visibilidade e difusão das dinâmicas das organizações. É certo que cada organização tem as suas formas e meio de comunicar (inclusivamente nas redes digitais). Ora, nem toda a gente sabe lidar corretamente com as redes sociais, ou com um comunicado de imprensa, cujos termos são muito técnicos. Poucas são as organizações que trabalham um comunicado de imprensa. Por exemplo, há muitas organizações e entidade formais e informais a fazerem bons eventos, alguns até de se lhes tirar o chapéu, mas pecam na forma de comunicar os eventos. É claro que se nós tivermos a nossa sociedade mais organizada e tivermos a nossa casa com uma maior visibilidade podemos chegar longe e, daí, ao olhar dos outros essa ideia ou uma imagem negativa das ONG começa a desaparecer.
Por isso, a nossa perspetiva é sermos aqui uns autênticos “provocadores” para os grandes “Media”. É despertar interesse dos conteúdos produzidos pelas organizações sociais para que sejam também parte da “agenda setting” dos grandes “Media”.

O GIIRC`3 quer ver as ONG serem parte da “agenda setting” dos grandes “Media”

Nesta comunicação que pretendem estabelecer tocou muito os comunicados de imprensa. Qual é a abordagem que têm tido em relação às outras plataformas de “Media”?
CS – Nesta primeira fase, estamos a arrumar a casa, ao mesmo tempo atentos para o que se passa à nossa volta (questionando-nos) sobre o que é que as outras organizações têm que nós não temos: é a nossa relação com as outras organizações de uma forma geral. Essa é a primeira coisa, ou seja, pretendemos criar laços. É claro que amigos e parceiros temos todos. Mas o laço, a fonte de informação, primeiro, tem que ser cordial para ser assertiva, credível e privilegiada. Nós temos as nossas fontes de informação privilegiadas também, mas não queríamos ser apenas entre nós na nossa concha. Queremos ser uma fonte que transpõe e se disponibiliza às demais fontes.

Qual é o número de organizações com as quais estão a trabalhar?
CS – Neste momento estamos a trabalhar com 10 organizações que fazem parte do plano municipal para integração de imigrantes na cidade de Lisboa, como por exemplo, a Casa do Brasil, a LCC, SOLIM. Ou seja, são organizações que estão integradas no plano, tais como o SOS Racismo de quem também somos parceiros. Essas 10 organizações fazem parte todas do órgão consultivo da Câmara de Lisboa que trabalha em articulação com o Conselho Municipal para integração de imigrantes. Está relacionado com a cidadania, já é outro aspeto das nossas dinâmicas. Além destas há muitas outras. Estou a falar, sem exagero, de mais de 30 organizações que também fazem parte do Conselho Municipal para a Interculturalidade e Cidadania (CMIC). E dentro deste plano apenas estão 10 organizações cujos projetos foram aprovados. Uma vez tendo sido aprovados, coordenados pela Câmara de Lisboa e financiados pelo Alto Comissariado para as Migrações a quem nós prestamos as nossas contas, através da Câmara de Lisboa para chegar à União Europeia. Portanto, quando falamos do ACM estamos a falar de uma forma genérica das organizações, não só as 10 organizações.

Falou-me dos anos 2018-2020, este último que pode estar comprometido em termos de atividades. Qual é o futuro do Gabinete olhando para o impacto que o Covid-19 pode ter no geral?

CS – Neste momento, estamos a perspetivar um caminho de esperança, com passos acautelados. Estamos a perspetivar maior relação, porque o Covid-19 começa a dar sinais a toda humanidade de que devemos estar unidos. Começa a ensinar-nos que nem tudo que parecia banal é aquilo que se pensa ou se pensava que era. Então, quando nós olhamos para o GIIRC com os olhos de ver vamos perceber que o Gabinete faz sentido existir para uma sociedade como essa, portuguesa sobretudo, onde nós temos várias associações à nossa volta que muitas delas ainda desconhecem o que devem fazer, como devem atuar a nível de comunicação e, mesmo até para com os seus associados, como podem comunicar na perspetiva de comunicação interna e externa. Ainda não entramos nesse campo, porque o trabalho está a ser feito de forma paulatina, o que significa dizer que os sinais que o Covid-19 começa a dar neste período para a fase posterior – nós nunca sabemos para onde isso vai dar – é um desafio e nós temos que estar preparados para esse desafio, quer de forma física, presencial, quer de forma digital, à distância. Portanto, é uma preparação que o GIIRC deve ter de forma acautelada e também perspetivar a forma de comunicar os serviços. Aliás, nós desenvolvemos também um serviço “low-cost” para as organizações para as ajudar a dar passos futuros, uma vez que o projeto é 2018-2020 e nós ainda estamos dentro do período. Não sabemos qual é o futuro, é incerto, incógnito, mas nós não queremos viver na incógnita. Queremos viver numa perspetiva de sustentabilidade e é essa sustentabilidade que estamos a preparar para alcançar. E o Covid-19 vem dizer-nos: ´meus senhores, preparem-se que a visão vai ser outra`.

Com relação à extensão do vosso projeto, existe alguma possibilidade de estarem além de Lisboa?

Rosário Alvarenga – Para já, o projeto está circunscrito à cidade de Lisboa porque é apoiado pela Câmara Municipal de Lisboa, mas nós tentamos através da CulturFace, que é a associação que gere o projeto, divulgar outras instituições e entidades que estão fora da cidade de Lisboa, nomeadamente Odivelas, Loures. Inclusivamente estamos a estabelecer parcerias com Loures, com instituições europeias para também divulgar aquilo que existe para além de nós. Portanto, a nossa ideia não é sermos uma ilha na cidade de Lisboa, é também divulgar tudo aquilo que acontece a nível nacional e europeu. Mas para já, o GIRC está circunscrito à cidade de Lisboa. A associação CulturFACE é que não.

Relativamente ao modelo comunicacional que estão a adotar, o que é prioritário se olharmos para aquilo que são os desafios das associações imigrantes: é uma comunicação interna ou externa?

CS – Nesta fase em que nos encontramos, a comunicação prioritária é a externa, porque precisamos de dar a conhecer as organizações. Com elas também juntos trabalharmos numa perspetiva de depois entrarmos na parte de workshops que nos vai dar alguns ensinamentos relacionados com a comunicação interna das organizações. Neste momento, a comunicação externa é o ponto focal do GIIRC, porque a ideia é criar laços, relações e estabelecer a plataforma. Sendo o Gabinete de Recursos Comunicacionais, obviamente, temos essa parte da comunicação externa como referência-modelo. Ora, falando de modelo, o GIIRC já se deu a conhecer fora de Portugal. Nós já estivemos em Bruxelas, somos conhecidos em Chipre, Albânia e Estónia. Portanto, são países com que já fizemos o nosso trabalho de apresentação que, no fundo, é divulgar esse serviço de organização para organizações no sentido de promover a economia social. Isso no fundo é preparar as organizações para a sua sustentabilidade. Não há sustentabilidade nenhuma que se faça sem se comunicar. Quando se fala de sustentabilidade estamos intrinsecamente a falar de comunicação. É uma articulação entre parceiros e organizações, entre laços, homólogos e isso faz-se dentro e fora do país. Tem que haver aqui um peso que é credibilidade e nada se faz sem organização. E o que temos que fazer é organizar-nos para que nós todos enquanto imigrantes vindos dos nossos países de origem consigamos ter uma imagem positiva daquilo que nós fazemos e mudarmos o olhar das coisas sobre as coisas. É preciso criar aqui uma estratégia de comunicação para o terceiro setor e está previsto uma conferência – esperemos que essa questão do Covid-19 consiga ser ultrapassada – para discutirmos estratégias de comunicação para o terceiro setor. Este é um dos trabalho de casa que está sendo preparado e também com brochuras que vão ser lançadas de forma a promover as dinâmicas das organizações sociais em Lisboa, sobretudo, senão todo Portugal.

Com relação aos chamados jornais mainstream, qual é a dificuldade que os grandes jornais têm para não publicarem estórias das associações. É só o problema das associações ou há dificuldades dos jornais compreenderem os objetivos e a importância dessas associações?

CS – Um dos grandes problemas é que as organizações não conseguem chegar aos grande “Media” pela desorganização que apresentam. A RDP-África uma vez acabou recebendo comunicados de várias organizações a falarem do mesmo evento. Se um comunicado chega a uma rádio vindo de várias organizações, então o que vai ficar numa mesa da redação, se eu enquanto jornalista, que estou no mesmo espaço, recebo um e-mail de cinco ou seis organizações dizendo a mesma coisa de forma diferente? Há aqui a questão da chamada propriedade intelectual, que ainda não é discutida pelas organizações, sobretudo, aquelas da área cultural, os produtores, compositores, os músicos. Ou seja, o tempo já vai começar dar-nos alguns indicadores de coisas que pareciam banais que agora vai começar a ser mais séria. Depois a Justiça vai começar a apertar com as pessoas pela maneira como agem em determinadas situações. Isso de mundo digital não é só publicar porque vi, quero e vou fazer. Isso vai começar a entrar noutros campos, seja ela no audiovisual, a nível de reportagem. Tudo. Eu não posso, por exemplo, pegar numa reportagem só porque é bonita e publicar. Tenho que ter o direito salvaguardado (questionando antes) quem fez, quem escreveu. É preciso haver uma coisa que se chama consentimento (para partilhar os conteúdos). Já estamos a entrar numa matéria que requer que as nossas organizações e concidadãos migrantes precisam de conhecer (por exemplo), o que implica fazer uma partilha nas redes sociais sem saber se é verdadeira ou falsa. Ou seja, o GIRC tem um conjunto de matérias que precisa discutir com as organizações. Não eu como pessoa, mas sociedade (no seu todo). Nós temos que ter uma coisa que se chama literacia para percebermos os “Media”.

Já havia alguma data para o evento?

CS – Isso já está pensado, agora só precisamos de ter tempo para materializar. Isso é mesmo questão de tempo. E o nosso tempo é gerido em função das circunstâncias e hoje estamos perante uma circunstância. Essa circunstância mudou tudo, mas não condicionou, porque nós estamos a trabalhar de maneira diferente. Ou seja, há que haver planos A, B, C. São chamados espaços de confluência para levarmos adiante as nossas ações.

Voltando à situação da Covid-19, há algo que esteja a ser feito de concreto junto das organizações?

Rosário Alvarenga – No fundo, estamos a promover uma estratégia de comunicação diferente, porque instituições do terceiro setor, as organizações sociais, estão também paradas como estão as empresas e o mundo. (MM)

1 COMENTÁRIO

  1. Somos parceiros não apenas por compartilhar os mesmos principios mas também porque ambas as organizações (APSC African Portuguese Speaking Community Ltd by Guarantee e CulturFace) entendem a importância de apresentar um trabalho que está longe de ser mais do mesmo, mas sim apresentar o que é bastante óbvio e já de conhecimento de todos nós ” O projeto que visa conquistar a confiança e o acreditar não só da Comunidade mas também dos Órgãos de comunicação social Portuguesa através de formas eficazes e profissionais de divulgação de serviços e eventos, assim como contribuir para a mudança de um trabalho individual para o colectivo buscando apresentar a estrutura de trabalho que tanto estas organizações em Portugal precisam (Osvaldo Gomes)

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