Entrevista a escritora e psicóloga T.M. Grace sobre Covid-19: “As crianças estão mais tranquilas do que os pais”

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Escritora T. M. Grace

Manuel Matola

A escritora e psicóloga T. M. Grace, filha de emigrantes portugueses, nasceu em França, mas sempre foi vítima de “rejeição de parte a parte” dos que tanto lá como em Portugal atribuíam nacionalidade do lado contrário do espaço territorial onde residia: em França, era uma estrangeira, mas quando regressou a Portugal, paradoxalmente, também houve essa situação – era considerada imigrante.
Com um percurso duro na vida, desde muito nova a luso-descendente enfrentou problemas graves de depressão, resultante de maus tratos nas mãos dos avós maternos que ficaram a tomar conta dela e do irmão quando perdeu o pai aos seis anos e foi afastada da minha mãe dois anos depois, situação que a levou a tentar o suicídio aos 12 anos e novamente aos 18, tendo esta repercussões mais graves a nível de saúde.
Hoje é autora de quatro livros, o último dos quais intitulado “Qual o valor da Amizade”, uma obra infantil de 32 páginas que vai lançar virtualmente este sábado, dia 15, pelas 20:00 a partir de sua casa, dada às restrições que se impõe nos novos tempos da Covid-19.
“Este livro é uma edição de autor, não tenho detrás nenhuma editora porque efetivamente esse um projeto solidário cujos valores revertem a nível de instituições. E, como sabemos, a nível de editoras não é fácil gerir isso, porque o valor da editora tem que ser mesmo para eles e teria que ser um livro vendido muito mais caro e eu não achei que fosse justo, então pensei nessa edição de autor”, diz a autora T. M. Grace, de nome oficial Teresa Gonçalves que já tem um plano de produção de áudio livro; ou seja, vai ser o livro narrado para crianças. Será o primeiro livro infantil a ser lançado assim nessa fase pandémica, o mote para conversa com o Jornal É@GORA que entrevistou uma psicóloga que, de resto, possui diversas profissões que ajudaram a produzir o livro sozinha.

A T. M. Grace é filha de emigrantes portugueses, tendo nascido em França…
Estive em França até cerca de oito anos, quase nove. Estive na escola primária e a partir daí voltei para Portugal e tem sido um percurso de luta, mas cá estamos.

Profissionalmente, teve um percurso ligeiramente diferente (….)
Na altura formei-me em Administração e Secretariado, porém na altura não arranjei nada da área e entrei na área de Artes Gráficas, por acaso. Gostei tanto que acabei por me formar também na área de Design de Comunicação.

E esse por acaso significa que estava à procura de alguma coisa, ou a tentar reencontrar-se?
Alguém me arranjou porque eu não estava a conseguir trabalho na área de Administração e Secretariado. Houve um lugar que estava vago ao nível das Artes Gráficas e eu aproveitei. Era uma coisa totalmente nova, não tina conhecimento nenhum e, a partir daí, gostei da área e pronto comecei do zero. Não sabia nada, gostei da área e tentei formar-me na área de Design de Comunicação.

Sendo filha de emigrantes teve que se adaptar à realidade do país?
É assim: em França, eu era uma estrangeira, mas quando regressei a Portugal, paradoxalmente, também houve essa situação: cá em Portugal também não era portuguesa. Ou seja, as pessoas cá chamavam-me a francesa. Lá estava deslocada, mas cá acabei por também estar um bocadinho, porque as pessoas achavam que eu não era de cá, apesar de ser portuguesa, filha de pais portugueses. Quase que havia rejeição de parte a parte, digamos, rejeição lá porque não era francesa e quando regressei houve uma rejeição do meu povo, pelo menos da parte das crianças, que às vezes são cruéis em algumas situações.

Há uma necessidade de se readaptar à realidade do país para não se sentir imigrante?
Penso que sim. Mesmo na forma de vestir, eu tinha uma forma diferente das minhas amigas e colegas. Talvez por causa disso é que me chamavam estrangeira, porque realmente tive que me adaptar um bocadinho. Estamos a falar dos anos 80. Por exemplo: na minha turma, fui a primeira a usar calças de ganga. Nem os rapazes usavam. Eu levava calças de ganga. Isso na altura, se calhar, chocava um bocadinho as pessoas, mas depois acabram por ir aceitando, como é óbvio. Mas foi um bocadinho difícil a adaptação.
             
   
Acaba de lançar o livro “Ao Alcance de um Click”
Sim, em junho, foi online. Mas tenho três livros de romance: o primeiro, Atrevo-me a Amar-te (lançado em 2013); o segundo Jangada de Cartão (2016). O terceiro é este “Ao Alcance de um Click”. O livro “Qual é o Valor da Amizade” é um projeto novo que é um livro infantil que vai ser lançado sábado, hoje.

Então comecemos por aí e regressamos em termos cronológicos da mais recente publicação de cada uma das obras para mais antiga. O que leva a escrever  o livro “Qual é o Valor da Amizade”?
Este é um projeto que já tenho, pois já ambicionava escrever literatura infantil há algum tempo.

Porquê?
Os filhos já são crescidos, mas sempre gostei muito de crianças e acho que tenho um certo jeito para crianças, e por que não colocar aqui o meu know-how para desenhar, porque este livro também é ilustrado por mim. Portanto, escrevi-o e ilustrei. Era um projeto que gostaria que fosse solidário e foi nesse sentido que o criei para parte do valor deste livro reverter a favor de certas instituições aqui no país para ajudar as crianças, nomeadamente, a Associação
Acreditar, Aldeias SOS Crianças Portugal e operação Nariz vermelho. São estas três primeiras instituições, não quer dizer que mais tarde eu não direcione os valores para outras instituições, mas inicialmente era esta a minha ideia.

Qual é a essência deste livro?  
Este é um livro que fala da amizade. É a história de uma formiguinha que, de repente, vê o seu formigueiro inundado, portanto, o rio transborda e ela vê-se obrigada a sair de onde mora deixando para trás os seus amigos e suas pessoas. Pelo caminho ela começa a querer construir o seu formigueiro ajudada por uma amiga que é a Dulcineia. Neste percurso, a Dulcineia vai deixando cair  um bocadinho de mel para a formiga se alimentar e por certa altura a floresta é invadida por um enxame de vespas e a formiga, nesta altura, vê a oportunidade de ajudar a sua amiga, a Dulcineia, a esconder um bocadinho a colmeia para abastecer a sua amiga que a ajudou no momento difícil. No final, há um guia, porque acho que faz falta nos livros infantis haver um guia para pais e educadores para quando as crianças fazem determinadas perguntas da história sobre o que aconteceu numa ou noutra situação, os pais e educadores tenham aqui uma base para poderem explicar a criança. Como este livro fala um bocadinho da deslocação, de a formiguinha perder o seu lar e ter que mudar um bocadinho a sua vida, às vezes na vida real também acontece isso e os país não conseguem explicar muito bem às crianças o porquê de determinadas situações, pelo que acho muito importante nos livros de literatura infantil ter um guia para orientar os pais na explicação de algumas coisas porque é nessa fase que, portanto, se molda a personalidade da criança.

Mas isso não poderá impedir a criatividade quer das crianças, quer dos pais na forma de cada um educar o seu filho? 
Não, isso não visa educar. Visa só dar aqui uma explicação do porquê da história e não tem nada a ver com o tirar o poder parental. É mais uma forma de explicar o porquê das perdas, o como por vezes os pais têm que encaminhar certas situações, porque só quando se está nas situações é que se consegue dar a volta e explicar a crianças. E, por vezes, os pais, quando tem a ver com separação – neste caso não fala de morte, mas poderia falar, porque eventualmente é um tema que eu quero abordar no próximo livro, mas para os pais são temas muito sensíveis -, por vezes, não sabem como poderiam pegar para explicar aos filhos. Eu penso que isso é muito importante nos livros de literatura infantil: haver aqui pelo menos uma breve explicação de como os pais e educadores podem tocar em alguns pontos e explicar as crianças. Não tem nada a ver com o tirar a criatividade. Muito pelo contrário.

O que as valências que a T. M. Grace tem permite perceber face à situação que estamos a viver hoje em dia e que ajude os pais a orientarem os seus filhos?
Eu trabalho muito com a Psicologia Positiva. Ou seja, a Psicologia convencional vai tratar daquilo que, de alguma forma, já está (identificado): o problema. A Psicologia Positiva faz exatamente o contrário, ou seja, tenta de alguma forma dar aqui ferramentas para que as pessoas consigam ultrapassar as situações antes de chegarem ao ponto de terem que necessitar de outro tipo de apoios. Eu penso que o começar desde cedo quando surgem as coisas – ou seja, quando a criança está na idade dos porquês, esta fase de questionamento -, é muito importante os pais ou educadores, ou outros familiares estarem presentes e responderem o mais simples possível às crianças a partir da idade em que elas começam a fazer as questões, porque as crianças hoje em dia estão muito evoluídas, até porque têm contacto com a tecnologia desde muito cedo e há determinadas coisas que se vão perdendo porque elas estão mais focadas em brinquedos, brincadeiras, jogos online e deixam de ter contacto com a parte emocional que faz com que elas cresçam saudavelmente a nível emocional e penso que realmente os pais têm que estar aqui a dar esse apoio às crianças, colocarem também nas mãos coisas que as façam crescer e não só que as distraiam, porque a criança também precisa de se frustrar. O que falta hoje em dia às crianças é conseguirem aguentar uma frustração porque tudo lhes é dado no imediato. Por exemplo, nessa situação da Covid-19 o que acontecia, e eu vi até em algumas situações, é que como algumas crianças estavam em confinamento começaram a frustrar-se e os pais não conseguirem lidar muito bem com essa situação. Portanto, nalgumas situações em que fui consultada eu intervim na forma de realmente achar algumas brincadeiras, algumas sugestões para distrair as crianças nesta fase porque não é fácil, pois os pais não estavam habituados e as crianças também não a estarem aqui muito tempo uns com os outros, porque isso é a realidade; hoje em dia as crianças são deixadas na escola ou no infantário e os pais estão a trabalhar e depois há só aqueles horários ao final do dia. E depois essa situação apanhou toda a gente de surpresa e foi necessário aqui uma ginástica emocional para lidar com essa situação.

Do ponto de vista de escritora e psicóloga, acha que as pessoas estão certas ou erradas na forma como estão a retornar à sociedade neste desconfinamento? 
Acho que nós temos que aos poucos ir voltando à normalidade, porém com alguma reserva, alguns cuidados e responsabilidade, Isso é muito importante. Agora, a forma como se calhar as pessoas que estavam em confinamento se comportam ao sentirem-se novamente em liberdade não quer dizer que ponham aqui em causa aquilo que já se conseguiu, ou seja, tem que haver aqui responsabilidade de todos para que realmente isso corra bem senão as coisas podem descarrilar e não é isso que todos queremos.

Os pais estão com muito mais medo do que as crianças ou ainda não é possível notar isso?
É possível notar. Os pais estão com medo. É claro que os pais estão com medo.

Mais do que as crianças? 
No fundo, as crianças estão a levar isso de uma forma mais tranquila do que os pais, talvez por serem precisamente crianças porque para elas é uma situação nova mas estão a lidar com ela em tenra idade, o que faz com que elas se adaptem muito mais à situação do que os pais. Eu vejo, por exemplo, situações de crianças que automaticamente já colocam a máscara, já vão lavar e desinfetar as mãos com muita facilidade, enquanto os pais já têm outro tipo de hábitos e às vezes é mais complicado realmente adaptarem-se a essas novas realidades.

E as férias do Verão são benéficas ou prejudiciais para esta situação da Covid-19? 
As férias são sempre benéficas desde que haja aqui responsabilidade de todos, porque não é por estarmos de férias que a doença vai embora. Portanto, nós temos que ter a noção que quanto mais aglomeração de pessoas há mais sujeitos estamos a apanhar o vírus. A questão aqui é que não podemos deixar de viver, temos é que tomar isso com responsabilidade. Temos que ter a noção que estamos no Verão e vem aí o Inverno, e não é nessa mudança de estação que coisa pode piorar. As pessoas têm que realmente, a partir de agora, e já deviam estar a fazer estes cuidados mesmo a entrar na rotina diária das pessoas.

Que análises estão a ser feitas em termos de comportamentos da sociedade e que as pessoas no dia a dia estão a passar ao lado daquilo que era suposto saberem ou analisarem à semelhança de psicólogos e escritores como a T.M Grace? 
Eu lido com pessoas que até são responsáveis e que não se metem em grandes aglomerados, não fazem aquelas festas como muita gente. Agora a questão aqui é a postura emocional da pessoa, porque quem está habituado de alguma forma a viver uma vida de muita socialização é natural que nessa fase de desconfinamento fique mais limitado e se veja um pouco privada da sua liberdade. Mas a pessoa tem que pensar que não está privada da sua liberdade, tem é que fazer aqui algumas concessões. Eu acho que é isso que custa entrar um bocadinho na cabeça das pessoas: fazer aqui algumas concessões e perceber o que é importante, porque as pessoas acham, por vezes, que é mais importante saírem do que manter a sua integridade física e a sua saúde e as dos seus familiares. Quando pensam assim é claro que estão a colocar em risco a sua saúde e a dos demais. É mais como as pessoas vêem-se confinadas e acham que realmente é um atentado à liberdade delas, mas não é isso que se trata.

Há a necessidade de olharmos para “O valor da Amizade” na forma como cada um se comporta?
Também. É verdade. E eu penso que nessa situação esta doença nos vem mostrar muitas coisas. Veio mostrar-nos que para sermos amigo de alguém e nos preocuparmos por alguém não é necessário estarmos em contacto físico com a pessoa: pode-se fazer telefonema, se a pessoa precisa de ajuda pode pedir a alguém que vá ajudar. Ou seja, há muitas formas aqui de ajudar as pessoas sem se estar a colocar em risco.

FOTO: DECO ©

A T. M. Grace falou-me dos livros que acaba de lançar. fazendo a ponte com o que acaba de dizer – que as pessoas não precisam de estar em contacto físico pois pode ser virtual. O livro foi lançado virtualmente. Há alguma diferença na forma como um livro chega ao mercado sendo lançado virtualmente?
Eu acho que há diferença, até porque esta é a primeira experiência que estou a ter. Portanto, o meu livro “Ao Alcance de um Click” foi lançado virtualmente e este “O Valor da Amizade” vai ser lançado virtualmente. A primeira diferença que eu acho, claro, é que nós não estamos em contacto direto com os nossos leitores, e acho muito importante estarmos com quem nos lê, pois gosta de conhecer os autores, gosta de saber um pouco da sua vida, do seu percurso. Embora isso se possa contar a nível virtual, por vezes, o dar aquele abraço, estar aí numa palestra a ver como é que nós somos pessoalmente isso faz alguma falta no sentido em que as pessoas gostam de ter essa proximidade com o autor. Há a situação da divulgação e distribuição que eu acho que é um bocadinho mais lenta porque, lá está, depois de haver lançamento físico as coisas parece que se divulgam mais depressa. Como é a nível virtualmente parece – talvez por ser o primeiro e o segundo que vai acontecer – que as coisas estão um bocadinho lentas. Vamos ver como é que corre.

Essa pandemia mostrou que houve uma forte intervenção do Estado em várias setores. Nesta área dos livros, pela forma como estamos a viver, há alguma intervenção do Estado que deve ser diferente da convencional? O facto de estarem a lançar, por exemplo, o livro virtualmente, não poderem fazer a comercialização como foram os dois primeiros livros. Há aqui a necessidade de o Estado intervir para ajudar autores que estão a lançar virtualmente?
Não sei se o Estado seria o organismo certo, embora o Estado tenha um papel fundamental para dar ajuda a nível financeiro. Mas eu penso que deveria haver aqui outro tipo de auxílio para as associações para ajuda dos autores, mesmo as próprias editoras podiam colocar as coisas de forma diferentes, portanto, haver aqui alguma dinâmica diferente para que os autores, a leitura e a cultura fossem promovidos de outra forma. Estou a falar a nível de literatura ou de outro tipo de cultura, pois tudo é bom para a nossa evolução.     
      

Estamos numa altura em que o Ministério da Cultura está a definir os critérios como vai repartir as tranches. Para o caso, há necessidade de o Ministério da Cultura olhar para os escritores que não pararam e avançaram para o lançamento de livros, como é o seu caso?  
Sim, eu acho que era importante, porque para o meu caso, pelo menos os meus livros todos não tive ajudas nenhumas a nível financeiro de nenhum organismo. Ou seja, a ajuda que tive foi efetivamente na altura dos lançamentos nas bibliotecas, etc, mas a nível financeiro não tive ajudas e fica caro lançar um livro. As pessoas não têm essa noção, mas realmente é algo que não fica muito barato. E se não fosse uma paixão possivelmente, às tantas, se calhar, eu já tinha desistido. Eu falo por mim, não sei o que se passa com os outros autores, mas no meu caso não tive qualquer tipo de ajuda financeira. E realmente acho que um incentivo ou alguma coisa poderia existir para ajudar os autores.
    
Quando não há esse tipo de iniciativa, pelo menos daquilo que se conhece, é sinal de que tanto os cidadãos como os atores políticos devem também saber reposicionar-se dentro daquilo que é a situação da Covid-19. É essa a sua lógica de compreensão também?
É assim: se nós formos a ver, com essa situação da Covid, houve muitas áreas que foram afetadas. E é lógico, se calhar, a literatura e outro tipo de cultura não será assim tão importante como alguns setores que seguram as finanças do país. Também temos que ter essa noção. Só que eu penso que também a literatura é importante como outro tipo de cultura e tem que haver aqui um redicionamento correto das verbas que são aplicadas.

Voltemos aqui para a terceira obra, que é “Ao Alcance de um Click”, depois tivemos “Jangada de Cartão” e “Atrevo-me a Amar-te”. Em que é que diferem um do outro em termos práticos?
Basicamente eu escrevo na linha de romance, gosto de romance, porém esse “Ao Alcance de um click” é um romance baseado em acontecimentos reais da Era da tecnologia e da Internet. Como o próprio nome indica, o livro está ao alcance de um click de quem trabalha e usa a Internet no seu dia a dia. É o primeiro livro de uma saga, portanto, vai haver continuação. É um livro que começa com uma parte fictícia mas eu acho que mesmo essas personagens de ficção as pessoas vão identificar-se muito com elas, porque têm muito de real. Mesmo as próprias vidas das personagens têm a ver com a realidade de cada um. Fala de violência doméstica, de situações de bullying, de doença, morte. Depois tem aqui uma parte que é basicamente histórias verídicas que aconteceram, que tiveram como mote principal a Internet, pessoas que se conheceram a nível das redes sociais e que foram colocadas aqui na sequência da história e foram colocadas neste livro. 

É um problema que pode estar a ocorrer agora com esse contacto virtual por causa da Covid-19?
Eu acho que não é só de agora, mas desde que começou a haver a Internet. Nós agora é que temos mais conhecimento de casos, mas desde que começou a haver a Internet começou a haver pessoas a aproveitarem-se ilegitimamente dessa ferramenta. A Internet, como tudo, tem o lado bom e o lado mau. O lado bom é nós podermos pesquisar, conhecer o mundo fora da nossa caixa. Mas também tem o lado mau que é estar muito mais à mão, portanto, as pessoas utilizarem essa ferramenta para o lado mau, para situações de enganar outras pessoas para o nível sentimental, financeiro. Portanto, nós temos que ter a noção que a Internet é uma ferramenta que tanto pode ser utilizada para o bem como para o mal. Costumo dizer que uma faca tem duas funções: pode operar a uma pessoa como também pode dar uma facada e a pessoa morrer. Exatamente aqui, a função da Internet é a mesma coisa. Há muita gente que utiliza para o bem, e muito bem, mas há pessoas que utilizam para fazer mal a outras pessoas.

Vou voltar ao livro. Perguntava há pouco, em que é que difere um do outro? 
A “Jangada de Cartão” surgiu na sequência de uma catástrofe que na altura foi muito divulgada: o tsunami. Eu lembrei-me de escrever algo isso. Ou seja, o facto é verídico. Portanto, fiz um trabalho de pesquisa de quando foi o tsumani, etc, mas depois o enredo em si é fictício. Mas fala efetivamente de uma catástofe, fala de como a pessoa se viu aí no meio desta catástrofe porque perdeu os familiares, fala de como as coisas surgiram, de sequestro, ou seja, o que acontece às pessoas no meio de uma catástrofe, fala da Síndrome de Estocolmo porque a determinada altura a protagonista acaba por se envolver com o sequestrador. Portanto, foi uma situação que tem a ver mais com a parte sobrevivente porque ela a determinada alturq estava fragilizada. E é um livro que também é bastante interessante na forma de como acontece quando há uma catástrofe natural, pois demonstra que nem tudo é tão linear.     

E o “Atrevo-me a Amar-te”… 
É mais aquele romance cor de rosa, mais lamechas. Foi o meu primeiro livro. Foi um livro que esteve muito tempo na gaveta. Na altura fiz escrito à mão (e publiquei-o) graças a minha filha que apanhou esse livro, começou a ler. Foi precisamente por causa dela que tive essa aventura de editar os meus livros. Ela disse: mãe tens aqui um livro bom. Por que não editas. E foi a partir daí que começou essa aventura da escrita. Quando o editei – porque foi o livro que esteve guardado muito tempo na gaveta – já estava a escrever o livro “Jangada de Cartão”.
 

Será que essa pandemia nos deu aqui um click pelo menos para pensarmos na possibilidade de estarmos feridos emocionalmente?
 
Eu acho que todos nós, salvo raras exceções, temos um percurso a nível sentimental. Todos trazemos memória que nos podem de alguma ferir ou estarmos com um pé atrás em relação a nos envolvermos com alguém. Esta pandemia, se calhar, o que ela nos vem mostrar é que devemos dar atenção aos sentimentos e tentarmos afastar aquilo que nos faz mal, aquilo que realmente nos magoou, porque essa situação acabou por nos mostrar que a vida é muito efémera, de repente, pode levar a uma volta e amanhã podemos já não existir. Então de que adianta andarmos aqui a remoer situações que nos fizeram mal e nos causaram dor quando realmente podemos aproveitar as melhores coisas que a vida nos vai trazendo.

Mas estamos realmente mais conscientes desta situação ou achávamos que estaríamos conscientes e facilmente nos desviamos?
Cada caso é um caso. Acho que quem está consciente, ou já estava no caminho de ficar consciente, isso (a Covid-19) veio realmente abrir os olhos, veio mostrar que há aqui algumas coisas que têm mesmo de ser deixadas para trás, aliás, o livro “Jangada de Cartão” fala sobre isso: em determinada altura da nossa vida deixarmos muita coisa para trás e iniciarmos uma vida nova, porque por vezes as pessoas carregam fardos tão pesados e a determinada altura de tanto o farto ser pesado a pessoa já nem consegue andar, já nem consegue fazer mais nada. Ou seja, a pessoa tem de deixar para trás as coisas que já não acrescentam nada na sua vida para realmente abraçar o novo. Por exemplo, há pessoas que detestam o emprego que têm. Pronto, tem que pagar as contas, ter de alguma forma a sua vida a nível profissional, mas estão a arrastar uma situação que se não forem capazes de colocar mãos à obra…Eu vejo muito isso nas terapias quando as pessoas estão desanimadas com o se trabalho. Não são capazes de dizer ok, eu não gosto deste emprego, preciso continuar a trabalhar mas tenho que procurar algo que eu gosto realmente, procurarem, ou fazerem currículos. Não. As pessoas vão empurrando com a barriga e depois queixam-se que estão infelizes, que não é aquilo que elas pretendem e depois as pessoas vão se estagnando. Eu acho que o que a Covid-19 veio mostrar é que realmente a vida são dois dias e que as pessoas têm de lutar por aquilo que realmente querem e que as faz feliz.

Nós assistimos aqui no período mais crítico da pandemia muitos coach´s e várias “live” de pessoas que davam por certo a forma como cada um de nós tem que se comportar. Diante dessa situação nova como é que se pode dar uma proposta de solução eventualmente mágica? Isso estará a ajudar-nos ou a piorar a nossa situação, no geral?
É certo que quando há falta de informação, as pessoas têm que ser informadas. Têm que saber como têm que lidar com uma certa situação, portanto, a questão de usar a máscara, desinfetar as mãos, ter cuidado quando chegar a casa, descalçar o calçado. São pequenas coisas que realmente há pessoas que sabem, estão conscientes disso, mas há outras pessoas que levam isso mais de ânimo leve e que (in)conscientemente até sabem que têm que fazer isso mas estão mais distraídas. É bom as pessoas irem lembrando que as outras pessoas têm que fazer isso ou aquilo. Agora, forçar a outra pessoa a dizer que isso é que é o correto e isso que não é…Acho que cada um tem aqui que filtrar aquilo que é válido para si. A discussão, por exemplo, das máscaras sobre se têm que ser usadas as descartáveis ou as outras, cada pessoa sabe qual é a melhor máscara para si. Não acho que tem que ser alguém de fora a dizer que tens que usar isso. Não. Eu é que tenho que testar e saber qual é que é válida para mim, ou seja, ninguém é dono da verdade. Portanto, as pessoas podem eventualmente dar sugestões, mas ninguém deve estar aqui a impingir ao outro o que tem que fazer.

Eu falava nisso ao nível afetivo. A forma como estão a aparecer várias pessoas na Internet a darem orientações às outras pessoas está ou não ajudar do ponto de vista emocional? Essas terapias virtuais estão a ajudar de todo, diante de uma situação em que toda a gente desconhece a solução?
É assim: O meu problema pode-se encaixar naquilo que está a falar, mas se calhar uma outra pessoa passou por outra situação e aquilo já não pode se encaixar na sua realidade. Ou seja, isso quando é feito, quando é dito é para abranger um grande número de pessoas, porém, cada pessoa e cada caso é um caso. Há situações que realmente pode fazer sentido essas explicações e aconselhamentos que se dão, mas há outros que não. Porquê? Porque há uma pessoa que trás mágoas já muito antigas e não é uma terapia online que vai resolver essa situação. Pode ajudar, mas pode também piorar. Portanto, a pessoa tem que ver qual é realmente a sua questão e se aquilo se encaixa ou não. O grande problema é que as pessoas entram nessa onda como se aquilo fosse uma realidade absoluta e não é.

Mais no plano institucional, esta prática entre o paciente e o médico notou-se agora com a Covid-19. Pela experiência que a Teresa tem, acha que faz sentido uma pessoa ter consulta virtual com médicos quando não há toque, nem contacto?
Na parte da Psicologia, posso dizer que faz sentido porque se eu conheço o paciente ou não – pode até ser um paciente de primeira viagem – há ali uma conversa como a que estamos a ter agora (a entrevista foi virtual) e o paciente expõe-me o seu problema e a partir do seu problema há ali uma análise que pode realmente não se fazer numa só consultadoria e pode ser necessário mais. Mas efetivamente eu estou em contacto com a pessoa, com aquilo que ela me está a transmitir e, sim, é possível ajudar a paciente. Agora, por exemplo, a nível de naturopatia em que é necessário estar com o paciente, medir valores e assim é um bocadinho difícil fazer essa gestão. (MM)

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