Entrevista a Raphael Bruno, que aos 38 anos tem 109 livros publicados

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Manuel Matola

Aos 38 anos, o brasileiro Raphael Bruno já publicou 109 livros e escreveu sobre quase tudo. Num só dia redigiu dois livros. Hoje é elogiado quer dentro do país como já ganhou leitores fiéis na diáspora.
Natural do sul do Rio de Janeiro, o comediante, jornalista e escritor Raphael Bruno esteve à conversa com o jornal É@GORA para recordar o início de carreira, fazer uma análise do percurso profissional, comentar a situação pandémica entre outras coisas.
“A arte para mim é a prioridade, nasci para ser artista”, diz o jovem eclético.

Vamos falar da sua obra. É comediante, jornalista, escritor e tem 109 livros publicados. Como é que chegou ao livro 109?
A internet começou a avançar aqui [Brasil] no ano final dos anos 2000, quando eu pude ter acesso à informação. Eu queria ser artista e estava a precisar de um ‘empurrão’. Já tinha o hábito de escrever. A sacola estava cheia de coisas escritas e passar aquilo para o computador dava muito trabalho. Numa sessão de terapia contra a ansiedade, a psicóloga disse “Escreve”. E aí comecei a escrever para tratar da minha ansiedade. Depois eu encontrei uma plataforma de autopublicação. Comecei o
meu primeiro livro que foi “Música e Poesia” em que escrevi trechos em espanhol. Só num ano escrevi sessenta livros, eram muitas ideias que estavam dentro de mim que vieram cá para fora. Eu escrevi livros de humor, sobre conhecimentos que eu tenho na área administrativa, matemática, logística, contabilidade. A partir dai fui tendo mais ideias. Comecei a escrever contos e a transformá-los em livros e até mesmo em roteiros para o meu canal de Youtube.

Quando é que começa a escrever?
Eu criei a minha primeira poesia num concurso em 2016 no qual fui finalista, mas antes eu já tinha o hábito de escrever. Eu escrevi a minha primeira poesia aos 16 anos. Primeiro por ansiedade, depois comecei a escrever poemas românticos. E o meu primeiro livro saiu em 2018.

Em média, quantas páginas têm os seus livros para conseguir reunir sessenta livros em doze meses?
Varia. Há livros com setenta, cem, oitenta, trinta, quinze.

Qual é a média?
Setenta páginas.

Quais são os temas principais dos 109 livros?
Sou muito eclético porque eu gosto de dominar vários assuntos. Recentemente eu escrevi “A Vida de Jeca” que é um livro que tem poucas páginas. Era um roteiro, de um personagem meu e pensei “Por que não falar de um personagem que eu criei?”. Tenho um outro livro que ‘fala’ da arte da sedução, onde ensinei como lidar com as mulheres. Porque há muitos homens que sofrem, não sabem ‘chegar’ à mulher. Como eu não consigo ajudar toda a gente achei que o livro era viável. É o terceiro livro de sedução que eu escrevo. Também gosto de escrever humor, escrevi “O Homem Que Virou Galinha”, “O Rato Que Virou Gato”. O livro mais vendido na Amazon é o livro “Matemática Para Concursos”. Já vendi livros no Japão, Austrália, Portugal, Estados Unidos da América, Inglaterra, Alemanha, Índia. O livro “Prostituta Virgem” também foi vendido em França.

Tem tido uma boa receção dos livros vendidos em Portugal?
Eu recebi vários elogios. Até descobri que há sites no Egito, Itália, Espanha e Portugal que falam dos meus livros. Eu disponibilizei algumas obras em Portugal porque Brasil e Portugal andam juntos, tipo pai e filho.

A maioria das pessoas com quem tem contactado em Portugal são imigrantes brasileiros?
Sim, são imigrantes brasileiros e também conheci alguns portugueses através desses imigrantes. Achei legal porque eles são muito recetivos. Na altura de conversar e de fazer amizades eu divulgo o meu trabalho para eles, e acho muito importante passar em Portugal. Eu fiz parte do programa ‘Jacaré’, um programa gravado no Brasil e emitido para Portugal através da TV Europa. A minha origem é de Portugal, então acho muito
importante divulgar em Portugal. É aí que está a minha origem.

Já conhece Portugal?
Eu nunca estive em Portugal, mas antes da pandemia estava a pensar em ir. Já tinha tudo pronto, mas não pude viajar por questão da pandemia. A minha mãe é (pessoa) de risco e resolvi não ir com medo de ficar infetado e infetar a minha mãe.

Esses sessenta livros foram escritos em 2020?
Foi em 2017.

Estamos em pandemia há mais de um ano, como tem sido a produção de livros?
Durante a pandemia consumi mais programas de tv e de rádio. Escrevi dois livros de sedução de como aprender a lidar com as mulheres, livro de piadas e poesias, “A Vida de Jeca” e anedotas. O que é muito bem visto porque as pessoas gostam de piadas.

Num dia escreveu dois livros?
Sim, foi em 2017. Escrevi um livro sobre conhecimento geral e o outro foi “O Gato
Vegetariano”. Passei o dia todo a escrever, de manhã até madrugada.

Nesta altura com a pandemia, a indústria dos livros tem sido rentável?
Consigo vender os meus livros. Seja ‘boca-a-boca’, seja numa plataforma de
autopublicação. Ficam lá [plataforma de autopublicação] porque os meus livros são todos independentes. O livro mais vendido foi “O Sonho Não Acabou”, que é uma forma se satirizar a crise económica no Brasil. A Amazon dá-me uma parte dos livros que eu vendo e, infelizmente, o povo brasileiro não tem o hábito de ler. Então dificulta um pouco.

Os livros estão traduzidos para outras línguas?
Não foram traduzidos para outras línguas, mas escrevi algumas frases em alemão, poesias em inglês, português, espanhol e catalão. O que mais gostei de escrever foi o espanhol, é uma língua muito bonita.

Quem são as figuras literárias que o inspiram?
Eu gosto muito de Mazzaropi, que foi um comediante brasileiro, senão o maior
comediante brasileiro na minha humilde opinião. Dai veio a minha inspiração. Também há um escritor que gosto muito, o Dias Gomes. Admirava ver as suas novelas, foi o autor da novela “Mandala”, “Roque Santeiro”. É um roteirista diferenciado e achava muito
bonita a forma dele escrever. Então para mim é o meu escritor favorito.

“Somos nós que fazemos o tempo”

Enquanto escritor e com esta versatilidade de profissões e artes, como é que olha para a situação dos migrantes que querem voltar para o Brasil por causa da Covid-19, diante de um país que está num ‘aperto’ devido à pandemia?
Primeiramente, eu só saio de casa por emergência ou necessidade. Por exemplo: se eu tiver que ir a Portugal em trabalho e não conseguir adiar eu ia porque não tinha como não ir. Mas na questão da Covid-19 não temos sítio para nos esconder. Só a vacina é que é capaz de curar as pessoas, e isso leva tempo. Há bilhões de pessoas no mundo e dar a
vacina a todos não é da noite para o dia. Há muitos estudos. Se forem tomadas as medidas de precaução, álcool gel e máscara acho que dava para arriscar. Se for urgente, “Se não posso ficar mais em Portugal e tenho de voltar para o Brasil”, aí não há outra maneira. Temos de tomar as devidas precauções e arriscar, caso tenha voo. Há muitas restrições de voos que não estão a aceitar brasileiros. É um momento muito triste, mas também de reflexão. A pandemia está a mostrar que todos são iguais, e todos temos fragilidades por
isso a pandemia ensinou muita coisa. Para quem soube aproveitar, a pandemia foi boa. Agora para quem não soube…. Mesmo que o fator seja negativo ou positivo adiciona sempre alguma coisa. Se a pandemia existe é por causa de algum motivo. Eu acho que podia ter sido evitada pela China. Como não dá para voltar atrás no tempo temos de cumprir as medidas de precaução para que possamos vencer esta pandemia. Acho que
todos vamos sair melhores da pandemia, não seremos mais os mesmos.

Voltando à escrita. Onde pensa chegar depois do 109º livro?
É um segredo que tinha guardado dentro de mim, mas o que eu quero é criar uma série de televisão. Eu quero fazer carreira na televisão. O meu mestre, o meu ídolo, seguiu carreira no cinema, e eu estou a pensar seguir televisão. Porque aqui no Brasil, o artista é mais valorizado quando está na televisão. E eu vejo uma ascensão muito rápida. Assim como o Roberto Bolanõs da série ‘Chaves’, o Chico Anísio um grande mestre multifacetado da arte brasileira, pretendo ter o meu programa de tv ou fazer uma novela. Porque eu entendo que a arte é uma só. Eu sou escritor, sou jornalista, radialista, faço teatro de bonecos, roteirista, dramaturgo, também estou a entrar na área da produção. O meu objetivo é fazer carreira numa grande emissora aqui no Brasil.

Para além do trabalho, como é que divide o seu tempo?
A pandemia foi boa nisso porque eu tive mais tempo. Pude ter mais tempo para escrever, gravar vídeos, fazer produções e diretos nas redes sociais. Somos nós que fazemos o tempo. E quando queremos alguma coisa arranjamos tempo. É isso que tenho usado como prioridade. A arte para mim é a prioridade, nasci para ser artista. Nem que durma 2/3 horas, mas vou fazer o meu trabalho da melhor maneira.

Está a escrever algum livro neste momento?
Agora parei, mas estou a pensar escrever um livro de drama. Como já escrevi antes, como “A Cura”, “O Recomeço”, “À Procura Da Justiça”.

O ato de escrever tem a ver com a ansiedade, se resolver o problema da ansiedade o ritmo de escrita será o mesmo?
Com certeza, porque para além da minha ansiedade existe a minha força de vontade. A vontade de querer dar o melhor. Tenho muita vontade de ser artista, tenho esse desejo ardente. É um desejo que não sei explicar, já vem comigo desde o berço. Eu já acabei com
a ansiedade e a minha vontade continua a mesma. A ansiedade pode acabar, mas a força de vontade e a determinação nunca. (MM)

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