Entrevista ao cineasta Welket Bungué e à deputada Joacine Katar Moreira, protagonista do filme “Mudança”

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FOTO: Inês Subtil ©️

Manuel Matola

O filme-dança “Mudança”, do cineasta guineense Welket Bungué, estreia segunda-feira, 28 de setembro, no site do Teatro do Bairro Alto, com a deputada Joacine Katar Moreira como protagonista da curta-metragem. ‘Mudança’ é integrado no Programa Essenciais, onde Welket Bungué e mais três artistas foram desafiados a trabalharem com os profissionais que não pararam as atividades durante a fase crítica da pandemia da Covid-19.

Em entrevista ao jornal É@GORA Welket Bungué explica que à Joacine Katar Moreira, que participa enquanto cidadã, são feitas “duas perguntas que têm a ver com aquilo que é a sua agenda política”, dado que é “uma voz ativa na contemporaneidade” quer em Portugal, onde é deputada, quer para a Guiné-Bissau, sua terra natal.

No filme vê-se “uma mulher que já é referência não só naquilo que é a vida política nacional portuguesa”, mas nas chamadas “lutas quotidianas e no pensamento pro-feminista contemporâneo” que não respeita somente as mulheres, como respeita igualmente os homens.

“Mas, mais do que ser agenda política de Joacine, é o tipo de perguntas que eu gostaria de fazer a qualquer pessoa que me aparente ser consciente tendo em conta a situação social-política deste momento no país. E isso é filmado e estará presente no filme”, diz Welket Bungué apontando o objetivo desta produção: “O filme tem como propósito invocar e resgatar referências ancestrais daquilo que considero ser a herança sensorial dos povos bijagó da Guiné-Bissau”, uma das mais importantes etnias guineenses com uma rica herança cultural.

Na mesma conversa, o jornal É@GORA falou também com a deputada Joacine Katar Moreira que justificou porque razão aceitou o convite, mesmo estando “há um ano a evitar e a rejeitar convites de documentários” para falar sobre a sua vida.

Após decidir avançar para o desafio, a questão que a deputada ainda colocava era se estaria à altura de integrar um filme em que se usa o dispositivo teatral, filmado, e há mistura de interpretações de textos com situações de cenas de cinema, para ser veiculado em plataformas que projetam cinema.

Esteve “acima” das expetativas, garante, no entanto, o realizador da película retirando à deputada Joacine Katar Moreira o peso de se auto-avaliar numa área em que atua pela primeira vez, o mundo do cinema. Nesta entrevista conjunta, as questões foram feitas de forma intercalada, entre Joacine Katar Moreira e o próprio Welket Bungué, o primeiro a responder às perguntas do jornal É@GORA:

Em que consiste essa iniciativa ´Mudança`?
O filme ´Mudança` enquadra-se num programa chamado Essenciais que foi proposto pelo Teatro do Bairro Alto, que é um projeto em que se convidam artistas. Neste caso foram convidados quatro artistas – três mulheres e um homem (o próprio Welket Bungué) -, em que o desafio era nós trabalharmos com as ditas pessoas que são trabalhadores essenciais. Tipicamente estão associados às pessoas que mesmo durante o confinamento obrigatório tiveram que permanecer nas suas atividades profissionais, nomeadamente enfermeiros, motoristas de transportes públicos, trabalhadores camarários. E eu pensei nisso, tendo em conta a oportunidade que estava ali de poder convidar um trabalhador ou trabalhadora essencial para trabalhar comigo enquanto artista, depois de cerca de um mês após ter recebido o convite feito em finais de maio ou início de junho deste ano. No início de junho, eu estava em Marselha, no contexto de convívio popular que houve na época que foi “as festas do terraço” em que pela primeira vez as pessoas, depois do período obrigatório de confinamento, conseguiram ir para as ruas e estavam aí a celebrar. Nesse momento eu percebi que estava perante um tipo de situação em que se reúnem pessoas de todos os quadrantes celebrando a vida e que, devido a essa pandemia, não estavam permitidos. Ao mesmo tempo associei essa imagem àquilo que é necessário, que é: o tempo está a passar e eu terei que definir quem será o protagonista deste trabalho que me foi encomendado pelo Teatro do Bairro Alto. Foi ai que eu cheguei à Joacine porque a associação que eu fiz foi: há uma voz ativa na contemporaneidade, sobretudo no país de onde eu provenho e que o seu discurso justamente visa proporcionar este tipo de imagem que eu estou a ver aqui.

Qual foi o critério que usou para escolher a deputada Joacine, havendo mais duas deputadas na mesma condição?

Cineasta Welket Bungué FOTO: Inês Subtil ©️
É a deputada que tem uma tenacidade no seu discurso, que é mais evidente do que as outras. Neste sentido, fechando os olhos, foi muito evidente que a presença deveria ser de uma mulher e essa mulher era claramente Joacine Katar Moreira.

E o que pressupõe a presença dela neste filme?
Pressupõe agora colocá-la no lugar de uma atriz em que lhe é dado texto para interpretar com a direção de alguém que tem habilidade para dirigir atores, atrizes performers e isso desloca a deputada para um lugar que está convencionado dentro daquilo que é o dispositivo cinematográfico teatral. Por um lado, nós neste filme, obviamente como temos a presença da Joacine, dirigimo-las duas perguntas que têm a ver com aquilo que é a sua agenda política. Mas, mais do que ser agenda política de Joacine, é o tipo de perguntas que eu gostaria de fazer a qualquer pessoa que me aparente ser consciente tendo em conta a situação social-política deste momento no país (Portugal). E isso é filmado e estará presente no filme. Por outro lado, a minha intervenção surge de uma interpretação daquilo que tem vindo a ser o discurso da Joacine enquanto deputada, enquanto mulher, pelo que tento expressar isso através do movimento de corporalidade no palco. E o filme tem como referência aquilo que considero ser a falta de herança sensorial daquilo que são as referências dos povos bijagós da Guiné-Bissau. Portanto, nós fazemos muito uso de referentes, ou referenciais plásticos. Uma vez que não conseguimos nos deslocar para aquele lugar, trazemos aquele lugar para o palco. É ter no palco, um palco que vive de projeção de imagens de natureza exuberante, que é comum àquilo que era paisagem natural do Arquipélago dos Bijagós e trazemos também sonoridades que são produzidas pelo músico Mû Mbana. Portanto, este filme-dança tem um caráter muito experimental no sentido em que ele não se deixa definir somente por aquilo que é a convenção do cinema no sentido clássico do termo, nem também se trata de teatro ou de uma performance propriamente dita.

Qual é a palavra que escolhe para definir?
Eu diria que é um filme-dança, porque nós usamos o dispositivo teatral, mas filmamos tudo com objetivo de o conteúdo final, resultado do trabalho, ser veiculado em plataformas que projetam cinema. Isso é que é a minha escola. Mas isto também acontece porque eu senti que era necessário de alguma maneira desvirtuar – no sentido de deslocar – a imagem da Joacine essencialmente associada à mulher que tem o discurso que ela tem para um registo onde vemo-la articular um texto que é pensado dramaturgicamente, em que conseguimos ver imagem da Joacine enquanto individualidade diluída nessas mulheres que nós pretendemos que ela seja à semelhança daquilo que é o imaginário mas também o legado ancestral das mulheres bijagó enquanto líderes, enquanto matriarcas.

Fala do convite lançado em abril. Quanto tempo levou e o que já foi feito daquilo que pretendia nessa iniciativa?
Eu como vivo em Berlim, salvo erro, desde finais de julho que tenho estado a pré-produzir este projeto. Isso implicou contactar artistas que moram na Bélgica e em França. Contactar tradutores, intérpretes relativamente à língua balanta e algumas referências que surgem. É preciso dizer que estamos a trabalhar a partir de dois proso-poemas do meu falecido pai Paulo Tamba Bungué que escreveu um livro que se chama “Cabaró, Djito Tem!”. “Cabaró” é uma figura xamânica que é ao mesmo tempo um líder espiritual na etnia bijagós. “Djito Tem” é uma expressão para dizer que “há sempre formas de dar a volta por cima e resolver as situações”, isso no contexto de um país que sempre foi de alguma maneira impelido a fazer o uso do seu caráter de resiliência. Isso significa que havendo poucos recursos, ou havendo uma participação muito distante por parte daquilo que é a responsabilidade do Estado em relação ao povo, eles tiveram que encarar essa máxima como sendo uma força de expressão vital para o povo guineense. O que quero dizer é: nós estamos a trabalhar nesses dois textos, um deles chama-se Mudança e outro é COBDE. E, em função disso, eu precisei de articular um roteiro que em termos narrativos nos fizesse chegar ao momento em que estamos agora, que é o momento em que pretendemos que a mudança ocorra. Isso implicou fazer essa pré-produção, que foi contactar essas pessoas, incluindo a Joacine e esperar que ela me desse um sim, como ela deu. E depois, reunir uma equipa de criativos, de técnicos, que culminou com a produção do filme propriamente dito que aconteceu entre os dias 4 e 6 de setembro. Portanto, o filme está feito e, neste momento, está a ser editado. Creio que amanhã (hoje) vamos passar para uma segunda fase que pertence a essa fase de montagem que tem a ver com a pós produção do áudio e a finalização do filme.

É uma curta-metragem?
Sim, é uma curta-metragem que terá cerca de 25 minutos. Mistura interpretações de textos filmados com situações de cenas de cinema. Temos intervenção de uma outra trabalhadora essencial, que é finalista de curso de enfermagem, portanto, neste momento trabalha como estagiária cá em Portugal mas ela tem esse skill que é de cantar. Chama-se Lulu Santy e participa também no filme. Achei que isso era uma mais valia para nós. Portanto, temos essa situação de texto interpretado, temos o aspeto documental que visa justamente também de alguma maneira fazer com que esse momento que estamos a passar agora e com a existência de todos nós enquanto participantes do filme seja um dado que depois possa vir a ser consumido no futuro e que depois fique como arquivo do que se está a fazer nesse momento. Portanto, o filme tem esse caráter documental. E depois usamos a dança, no sentido de movimento e da semiótica, para nós de alguma maneira conseguirmos consubstanciar o filme com aquilo que as nossas palavras não conseguem alcançar.

Este filme também está feito para Netflix, como a maior parte dos filmes que vimos na última cerimónia do Grammy Awards?
Os filmes de Netflix almejam sobretudo um alcance de popularidade que está atrelado ao caráter comercial.

E o seu caso, qual é?
Os meus filmes são filmes de intervenção. Naturalmente poderá entreter por conta da estética. Toda a gente consegue reconhecer o que é um filme bem feito, mas, sobretudo, é um filme interventivo.

Como é que uma mulher estando num outro espaço territorial poderá rever-se nessa figura que é a deputada Joacine no filme, uma vez que centra toda a sua narrativa no filme àquilo que é a sua origem e olha um bocado para a Guiné-Bissau?
O filme tem mais ou menos a presença de cinco mulheres – (exemplo) angolana, cabo-verdiana, portuguesa -, temos toda essa panóplia de nacionalidade e diferenças culturais, até porque há aqui uma intenção clara de diluir o aspeto territorial que nos remete para uma culturalidade. Por isso que nós não fomos ao Arquipélago dos Bijagós. As imagens que projetam e surgem como referência àquilo que é paisagem do Arquipélago dos Bijagós foi trazido da Floresta Amazónica e da Reserva Natural do Itatiaia que fica no Brasil também. Portanto, este não é um filme para de alguma maneira celebrar somente aquilo que é a minha ascendência – felizmente -, porque eu sou nascido na Guiné mas considero-me português. Jamais faria um filme que me fechasse nessa lógica de celebrar somente aquilo que é a minha ascendência. Portanto, é um filme em que nós vamos ver uma mulher que já é referência não só naquilo que é a vida política nacional portuguesa, mas também naquilo que são as lutas quotidianas e o pensamento pro-feminista contemporâneo que não respeita somente às mulheres, respeita também aos homens. Portanto, pergunto-me se esses homens poderão ver na figura dessas mulheres irmãs, mães, filhas, primas e por aí fora. É isso que se pretende com o filme.

Na entrevista ao jornal É@GORA, a deputada falou sobre a sua experiência de três dias enquanto “alvo de interesse artístico” e relevou a coincidência entre a proposta e a atual fase do seu trabalho parlamentar. De resto, “esse convite do Welket entra numa época” em que Joacine Katar Moreira está a desenhar uma iniciativa legislativa para a regulação do estatuto do trabalhador essencial.

Foi um convite que aceitou de imediato ou teve algum receio?

Cena do filme “Mudança” FOTO: Inês Subtil ©️
Eu ando mais ou menos há um ano a evitar e a rejeitar convites de documentários sobre mim, sobre a minha história, eleição, etc.

Porquê?
Porque eu acho que ainda não é hora de ser olhada enquanto objeto de análise, enquanto estiver como sujeito de ação e sujeito político.

E o que é que mudou nesse convite?
Eu já acompanho o trabalho de Welket Bungué e era uma das pessoas que desejava imenso ter a hipótese de conhecer, porque acho que ele tem uma maneira muito inteligente e única de unir a estética com realidade, com áreas de ação e reflexão que normalmente não têm tanta estética. Digamos: quando tem muita realidade perde-se um bocado a estética e quando se perde a estética… E (o Welket Bungué) é um indivíduo da minha geração, um português negro que reclama a sua identidade nacional, nunca omitindo os alicerces da sua identidade nacional que são as suas origens. Portanto, esse convite do Welket entra numa época em que eu estou exatamente a desenhar uma iniciativa legislativa para a regulação do estatuto do trabalhador essencial. Eu e o (meu assessor) Rafael Martins estamos a resolver isso. Eu nunca me imaginei, nunca me entendi nem a mim nem os outros 200 deputados enquanto trabalhadores essenciais. Mas depois iniciei ouvir o Welket a analisar a iniciativa, os objetivos e o enfoque. Isto não é aquele documentário que nos capta a alma, as ideias e as óticas e demais. Este é um documentário que me convida a afastar-me ligeiramente do que efetivamente eu hoje sou e acabo por representar convidando a demarcar-me ligeiramente disso e entrar num universo mais amplo – o universo artístico, poético, etc. Portanto, eu adoro desafios. E disse: bem, isso tem interesse monumental. Será que eu estou a altura?

E esteve?
“Acima” da expetativa, diz Welket Bangué, antecipando-se a uma possível resposta de Joacine Katar Moreira, que prossegue o seu discurso:

O enorme respeito e o que me incentivou igualmente a dizer obviamente é a coragem porque neste exato momento e neste ambiente é preciso coragem, especialmente para um jovem realizador e cineasta que está a entrar numa fase maravilhosa de reconhecimento nacional e internacional. A enorme coragem que é desejar fazer algo em que coloca uma deputada negra, a mais escrutinada neste exato momento, enquanto alvo de interesse artístico. E eu gosto e tenho um respeito enorme por pessoas corajosas e que não se importam de arriscar um formato diferente no momento em que estão a ter o reconhecimento institucional necessário.

Como é que essa experiência poderá cruzar com a sua iniciativa de lei que está a produzir?
Obviamente que a minha iniciativa legislativa é uma informação que eu não dei ao Welket em circunstância nenhuma para não condicionar algo. Mas obviamente que enquanto trabalhadores essenciais eu não considero os deputado(a)s, eu considero especialmente esses indivíduos e cidadãos profissionais que necessitam de ver o seu contributo institucionalmente mas também financeiramente reconhecidos. Muitas mulheres negras, empregadas de limpeza, empregadas domésticas, funcionárias de lares não deixaram de trabalhar durante o estado de emergência e de calamidade exatamente porque foram olhadas enquanto profissões essenciais. Então se são essenciais, por que essas pessoas lutam pela sobrevivência, por que os seus ordenados são miseráveis, por que muitas delas ainda estão em áreas de informalidade? E falo igualmente dos motoristas de autocarro, do metro, dos meios de transportes. Falo de indivíduos que fazem recolha do lixo e resíduos, falo também dos enfermeiros, de todos os profissionais de saúde, mas falo também dos artistas. O que seria do nosso confinamento sem televisão, música, informação, conteúdo artístico? Foram os artistas que também nos ajudaram a sobreviver mentalmente, com saúde mental, esta época de pandemia.

E porque neste filme estão pessoas de outras áreas, o jornal É@GORA voltou a fazer perguntas mais técnicas ao cineasta Welket Bangué:

O que é que se destaca nessas pessoas que se pode cruzar com aquilo que é a intervenção da deputada Joacine enquanto protagonista do filme?
O fio condutor da narrativa é ter uma mulher que na sua vida profissional é uma deputada e, portanto, tem todo o conhecimento e argúcia que está associado a sua atividade profissional. Mas atenção: eu convido Joacine enquanto cidadã, mas o ofício dela é deputada. O que acontece é: na história, Joacine chega e é preparada para fazer uma cena central do filme que se chama “Mudança”. E todas essas mulheres que se apresentam enquanto satélites estão a preparar essa figura, essa persona, essa imagem que representa um coletivo. Todas elas acabam a pouco e pouco a ganhar uma maior participação na história que é justamente para, metaforicamente, evidenciar essa ideia de que somos todos essenciais, para que uma máquina como essa, que é a nossa sociedade, possa funcionar. E nesse sentido, naturalmente, a pessoa que faz a maquilhagem torna-se também uma participante, que eu trato por performer, porque elas não estão a tentar ser aquilo que não sejam na vida delas, a Joacine sim. Ela está ali no papel de atriz efetivamente porque ela tem de interpretar um texto e tem que se reajustar àquilo que é a direção da pessoa que está a conceber todo o universo do filme que estamos a fazer. Portanto, nesse sentido, todos os ofícios e atividades destas performers, nomeadamente, desta enfermeira que também canta, da pessoa que faz o guarda-roupa e direção artística do filme, que é a Lafayette, também intervém na história, da maquilhadora que igualmente acaba por intervir na história; e depois temos a Alesa Herero e eu, que entramos comos os performers propriamente ditos, que são os artistas que de alguma maneira foram chamados para interpretar três coreografias distintas em que uma delas vive do movimento e expressão corporal para fazer de alguma maneira a coreografia, que é a escrita do movimento do texto “Mudança”, do outro texto que é o COBDE e, por último, aquilo que é o nosso entendimento sobre a performance política da Joacine enquanto cidadã.

O filme estreia no dia 28?
O filme vai estrear no dia 28 de setembro no website do Bairro Alto juntamente com outros três projetos. Portanto, as pessoas neste dia poderão ver esse projeto e, posteriormente a isso, se as pessoas quiserem conversar comigo a fim de esclarecer ou escurecer algumas dúvidas que elas possam ter eu estarei disponível.

Qual é o passo a seguir?

FOTO: Inês Subtil ©️
O próximo passo é submeter o filme aos festivais, por isso é que foi pensado como cinema. Depois da estreia, no dia 28, o filme existe efetivamente, só que a partir daí o filme passa a ser submetido a festivais internacionais porque está pensado como cinema. Vai ser legendado em inglês, talvez também em francês. Não é um filme para terminar aqui em Portugal, não.

Há uma outra abordagem que será a condução daquilo que foi pensado até este momento, certo?
Isso é exterior àquilo que foi o projeto proposto pelo Teatro do Bairro Alto. Isso sou eu enquanto cineasta, por isso que concebi o filme desta maneira. Nós não vamos ver um vídeo, vamos ver um filme. Portanto, a ideia é submeter o filme a festivais e perceber se a qualidade filmográfica é selecionada para os certames que estão por vir. O filme tem que existir dentro de outras realidades, que não sejam nem portuguesa, nem guineense.

Este tipo de iniciativa é muito mais barata de se produzir, se comparada com outras realizações, ou são coisas totalmente distintas?
São coisas distintas. Neste momento nós temos a alçada do teatro, que é uma célula da EGEAC, ou seja, este Teatro que é um aparelho de uma instituição pública. Portanto, a comunicação e a veiculação do filme enquanto obra encomendada por eles terá outro alcance, o que não teria se fosse produzida por mim a solo. Eu não estou articulado com nenhuma produtora que tenha de alguma maneira reputação ou um histórico longo de grandes feitos ou feitos de grande respaldo do ponto de vista comercial aqui em Portugal. Portanto, esta é a grande diferença. Mas isso é bom porque eu considero-me um artista periférico justamente porque estou sempre em trânsito. Não estou parado num único lugar. E nesse sentido quando tenho um convite que é apresentado por Francisco Frazão, representando a instituição que é o EGEAC, o Teatro do Bairro Alto, isso é uma coisa mais bonita porque valoriza os talentos que este país formou e por razões diversas tiveram que ir para fora, mas continuam a produzir lá e continuam de alguma maneira a trazer resultados benéficos para aquilo que é a diversidade e paisagem cultural portuguesa, mas que não tem um lugar de produção à altura daquilo que é a sua qualidade artística. Eu falo por mim, mas não só. Falo por outros artistas também que continuam a circular pelo mundo fora. Portanto, essa é uma oportunidade muito válida justamente para dar um show de talento em que não apareço sozinho, mas com as mulheres todas que estão a participar no filme. (MM)

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