Entrevista: Bernardo Libório, o guitarrista do jazz que produz sons para jogos online

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Bernardo Libório ©️

Manuel Matola

O músico e produtor Bernardo Libório tem uma profissão singular para quem aprendeu música com o sonho de dedilhar a guitarra elétrica ao ritmo do jazz em grandes palcos tal como o seu ídolo George Benson. Com uma formação – licenciatura e mestrado – na área, acabou por aplicar os estudos que tem feitos no jazz aos outros estilos que toca. Diariamente acorda e faz música para jogos online numa empresa portuguesa de software vocacionada na produção de jogos para casinos, uma das poucas numa indústria quase desconhecida em Portugal, mas que tem muitos usuários a nível global: até agora, pelo menos 30 mil pessoas no mundo já jogaram quer o ‘Casino Sol Verde Online’, black jacks, ou jogos de slot machine aos sons produzidos pelo guitarrista e sound designer português. Com o regresso para breve dos espetáculos, Bernardo Libório (29 anos) aborda erm conversa com o jornal É@GORA a situação do jazz em Portugal, “um estilo que pode continuar a juntar nações e etnias porque a música não faz distinções”, para contar com um pouco das influências a nível musical e explicar como funciona a produção de jogos online.

Há quanto tempo está na área musical?
Profissionalmente, estou mais ou menos há oito anos a trabalhar na área musical. Sendo que só consegui começar a viver profissionalmente da produção e criação de música há dois.

Como é que se explica essa diferença de anos?
Comecei a trabalhar profissionalmente só que os valores ainda não era trabalhos que me permitissem conseguir sustentar a mim e à minha família totalmente da produção musical. Ainda não era o suficiente. Há dois anos surgiu o convite de uma empresa na área da produção. Comecei a produzir música para jogos numa empresa portuguesa de tecnologia. Essa empresa faz jogos por encomenda. As pessoas encomendam e nós produzimos os jogos. Estou lá há dois anos, e só aí é que consegui profissionalmente equilibrar e concentrar os meus esforços na área da produção musical. Comecei a trabalhar com artistas independentes em Portugal que estão a começar a dar os primeiros passos.

Essas músicas temáticas e sound effects para jogos de casino, o que são?
Basicamente, são todos os sons presentes num determinado jogo e não só os sons. Os sound effects que são o som ao carregar nos botões, os plins. Tudo o que representa som dentro de um jogo é responsabilidade minha e da minha equipa de trabalho.

Tem noção de quantas é que já fez e onde é usada a produção?
Na área dos jogos qualquer pessoa que jogue o que produzimos, estão presentes nos casinos online. Mas se tivesse de precisar um número de quantos já fiz diria mais de 30 jogos, nos últimos dois jogos.

Essas músicas e sound effects têm o mesmo ‘tempo de vida’ que as ‘músicas normais’?
Essas músicas duram enquanto o jogo estiver a ser jogado. Enquanto um serviço online estiver a comercializar um jogo, e esse jogo estiver ‘no ar’ as pessoas que estiverem a jogar vão poder ouvir essa música. Naturalmente que aí não é um trabalho autoral. É um trabalho de complemento para um bem maior. As pessoas não vão lá para ouvir a minha música, vai lá para jogar. O facto das músicas estarem lá é um complemente e a durabilidade da música está inerente ao tempo de vida do jogo. Quando o jogo morrer a música também morre.

Qual é o jogo que pode dar como exemplo da produção que já fez?
Podem jogar no ‘Casino Sol Verde Online’, tem black jacks, jogos de slot machine.

Para os quais produziu?
Exatamente.

E é usado a nível mundial?
A nível mundial exatamente. Qualquer pessoa que tenha internet pode jogar.

Tem ideia de quantas pessoas jogaram a esse jogo?
Sei que milhares de pessoas. No entanto não consigo dizer um número concreto, porque isso está inerente às estatísticas da venda e da comercialização dos mercados online. À vontade, sei que mais de 30 mil pessoas já jogaram. Mas não consigo dizer um número exato.

Esses jogos são para pessoas mais novas, mais velhas, ou não há uma definição de idades?
Esses jogos, uma vez que são comercializados e que são jogados em casinos online, só podem ser experienciados por maiores de 18 anos.

Há muitas pessoas que tenham o desejo de fazer este tipo de produção?
Eu acho que em Portugal ainda não há um conhecimento muito grande deste tipo de mercado. É difícil explicar a alguém quando se tenta transmitir que existe mercado, que há pessoas a jogar e que realmente posso ter uma profissão de fazer música para um jogo. Ainda é um bocado estigma porque as pessoas associam a música a hobbies. Aliás, não é só a música. Em todas as vertentes artísticas, as pessoas ainda têm um bocadinho o estigma de associar a hobby e não veem isso como uma profissão levada a sério. Mas eu diria que há cada vez mais jovens. E há cursos universitários a serem lecionados nessa área, precisamente para preparar os jovens para o futuro.

O Bernardo também tem uma passagem sobre o jazz. Como é que concilia isto?
Isso está inerente ao meu estudo, quando por volta dos 16 anos comecei a estudar na Escola de Música ‘Jazz Ao Norte’. E é a minha base de estudo. Comecei por aprender jazz, e tem muitas vertentes. Dentro do jazz temos o swing, bossa nova, bepop e outros estilos que se desenrolam em outros estilos que acabam por dar origem aquilo que ouvimos na música pop. No fundo isso foi a minha base de estudo que me permitiu adquirir conhecimentos para produzir para todos os estilos musicais.

Em média quanto tempo leva na produção musical para esses jogos e sound effects?
Normalmente uma música demora, mais ou menos, entre uma a duas semanas a ser feita. Depois os sons estão dependentes da quantidade que haja no jogo. Se tiver muitos sons para fazer, mais duas ou três semanas. Portanto se tivesse que fazer uma estimativa, um jogo demora normalmente um a dois meses a ser produzido na parte do som.

A produção de sons e dessas músicas são feitas com instrumentos ou através de computador?
Usamos instrumentos verdadeiros, normalmente a guitarra, bateria, baixo, piano e teclado. Mas depois temos instrumentos eletrónicos computorizados que têm a ver com efeitos de som, aqueles barulhinhos e plins, que têm de ser feitos via computador.

Fazer este tipo de trabalhos é estar a um passo de fazer trabalhos para filmes?
São muito semelhantes porque quando trabalhamos o som para um jogo já nos entregam sempre imagens. Entregam sempre alguma animação que vai acontecer dentro do jogo para trabalhar o som. E no cinema isso acaba por acontecer. No mundo dos filmes só conseguimos trabalhar o som quando nos entregam as imagens daqueles momentos que
precisam de som. Ou seja, trabalhamos sempre a ver sempre alguma coisa. Não trabalhamos do nada, vemos sempre alguma imagem primeiro.

Qual foi o impacto que a covid-19 teve no seu trabalho?
Ao fecharem os casinos, os casinos online passaram a vender e produzir mais porque, naturalmente, as pessoas estão em casa e vão jogar em casa. Não sinto que tenha, de todo, sofrido algumas consequências por causa da covid. Mas na minha vertente mais artística com os concertos e as coisas que tenho feito, isso sofreu um abalo muito grande porque as casas de espetáculos fecharam. Os artistas deixam de investir dinheiro porque têm medo de não terem concertos para recuperarem esse dinheiro. Então é natural sofrermos um bocadinho com isso.

Os jogos e o trabalho virtual têm ajudado para aquilo que está a passar como músico?
Sim, é o que tem segurado a ausência dos concertos e essas coisas todas. Porque se eu tivesse só os concertos e os artistas autorais estava muito mal. Mas em compensação essa vertente dos jogos tem possibilitado ganhar o meu dinheiro.

Em relação à música, tem feito alguma coisa?
Tenho trabalhado com mais três artistas autorais, nomeadamente o Dani, a Catarina Reis e o Rui Pedro. São artistas com quem tenho trabalhado nos últimos tempos e tenho feito música para eles. E recentemente o Dani lançou uma música nova. Temos estado a cumprir e a fazer algumas músicas, mas naturalmente que estamos condicionados pelas
questões da pandemia e do confinamento.

Essa música de que falou é da sua área de formação ou é de outro estilo?
São músicas de outro estilo, são músicas pop autorais.

Tens feito alguma coisa de jazz?
Não, na área do jazz não tenho feito nada. Tenho canalizado todos os meus recursos para a música pop e para os jogos.

Quais são os trabalhos que já fez na área do jazz?
Em concreto não tenho nada. Acabei por aplicar os estudos que tenho, feitos no jazz, aos outros estilos que toco.

Que instrumento toca?
Toco guitarra elétrica. É o meu instrumento predileto. Toco outros instrumentos, mas o que considero que consigo tocar bem e dominar é a guitarra.

E qual é a sua inspiração?
George Benson é um dos meus guitarristas preferidos, mas também gosto de outros. Como o Pat Metheny, Charlie Parker era saxofonista, mas também é uma das minhas referências. O George Benson seria, sem dúvida, uma das inspirações maiores.

Olhando para a situação que estamos a passar, como é que vê o futuro do jazz? Vai também enfrentar as mesmas dificuldades que os outros estilos musicais ou há uma alternativa?
O jazz sempre atravessou alguns problemas, no sentido em que não é uma música muito comercial sempre teve espetáculos e concertos especificamente organizados. Portanto, de certa forma, acho que o jazz não terá sido muito afetado com a questão da pandemia, porque a quantidade de concertos da área nunca foi tanta como os festivais ‘normais’ que teríamos no verão. Uma vez que o volume nunca foi assim tão grande acho que conseguiram manter o mesmo número de concertos durante o resto do ano.

Como avalia o jazz que se produz em Portugal?
Tem se feito bons álbuns e grandes músicos nas escolas de jazz portuguesas. E sei que também temos músicos portugueses a ganhar alguns prémios.

Neste momento, qual seria a referência do jazz em Portugal?
Gosto muito do João Batista, é baterista de jazz. É, sem dúvida, um dos músicos que eu mais admiro nos últimos tempos. Temos também Sandro Norton, um excelente músico na guitarra. Temos alguns artistas conceituados que estão a levar o nome de Portugal por aí além. Esta é uma sonoridade em que atravessa todos os espaços territoriais. Tem a mesma semelhança do reggae, um estilo musical que não obedece a determinadas fronteiras.

Na sua opinião e olhando para o que o Jornal É @GORA tem como foco, a migração, acha que há uma forma do jazz juntar os mundos que estão cada vez mais separados com estes movimentos populistas e que vimos relativamente às eleições de Portugal?
Sem dúvida! Eu acho que o jazz, por si só, sempre foi um estilo musical que acabou por misturar muitas culturas e não é ‘à toa’ que nos festivais de jazz vemos músicos de todo o mundo. É um ambiente multiculturalista. É um estilo que pode continuar a juntar naçõese etnias porque a música não faz distinções. E por si só como o jazz tem influências de tantos lugares e tantos músicos diferentes acaba por contribuir para isso.

É preciso alguma educação artística aos políticos para poderem ter noção do que acabas de dizer?
Eu diria que educação nunca é demais, temos sempre alguma coisa a aprender. Mas sim, sem dúvida. Pelos menos informarem-se mais sobre o que se faz em todos os outros países, mesmo no resto da Europa acerca dos festivais de jazz. Como o ‘Montreux Jazz’ e outros que existem pelo mundo fora. Verem do que é capaz de juntar, em termos culturais, um festival desses.

E o que podemos esperar de si para o futuro?
Quero continuar a produzir música para outros artistas e hei-de continuar a fazer música para jogos. Mas essencialmente quero ver as músicas que tenho produzido para artistas ao longo do último ano singrarem nas rádios portuguesas e quem sabe do mundo. É o que sempre espero. (MM)

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