Entrevista com a escritora Inês Brandão sobre as competências dos jovens e os desafios da humanidade

0
406
Inês Brandão

Manuel Matola

A jovem escritora portuguesa Inês Brandão acaba de lançar a sua primeira obra intitulada “Flor Margarida”, cujo enredo se centra numa planta de jardim que enfrenta quase todo tipo de desafios habituais na vida de qualquer imigrante, que quando precisa de mudar uma situação no seu país ganha coragem de sair do local onde não se sente tão confortável e vai à procura de um outro local e de outras pessoas ao redor do mundo.

O livro infantil foi publicado em fevereiro, mas a atual situação pandémica impediu a comercialização. E no Dia Mundial das Competências dos Jovens, que hoje se assinala, o jornal É@GORA conversou com a autora, que é igualmente professora de Português e revisora de um jornal desportivo sobre a sua “Flor Margarida” e vários temas de atualidade global face às incertezas de futuro.
Vivemos numa época em que “o tempo não acompanhou os jovens e os jovens tentam adaptar-se”, diz Inês Brandão.

Sei que começou esta história com uma prima. Quer contar-nos como é que isso inicia?

Eu sempre quis publicar um livro meu, mas nunca tinha entrado pela área da literatura infantil. Achava que não seria por aí que iria publicar o meu primeiro livro. Mas depois a minha prima nasceu em 2017 e como é óbvio comecei a rodear-me de muitos livros infantis, era obrigada a isso. Comecei a observar os livros e, pronto, tive o desejo de escrever o meu  e surgiu por ai. Peguei na ideia da minha prima que se chama Margarida e foi assim que surgiu a Flor Margarida. 
 

E essa Flor Margarida o que conta?

A mensagem do livro é relembrar a importância de construirmos uma boa auto-estima e da coragem que às vezes é preciso para mudarmos as situações e sairmos do local onde não nos sentimos tão confortáveis irmos à procura de um outro local e de outras pessoas.

Era o prenúncio do que estamos a viver hoje: a necessidade de ter coragem, o medo?

Talvez. Vem na época exata pelos visto (risos). Então, o livro conta o percurso desta flor quando ela parte em busca de flores da mesma espécie. E acompanhamos esse caminho e as amizades que ela vai fazendo nesse percurso.

E nessa viagem que faz há certamente assuntos ligados ao quotidiano. Quais são os desafios?

O primeiro desafio é que ela não encontra logo à partida aquilo que vai à procura. Acontece muitas vezes com a vida: às vezes queremos algo, ou temos um objetivo e nem sempre conseguimos logo quando queremos, ou à primeira. Então a necessidade de ultrapassar esses obstáculos e prosseguir com essa viagem. E depois revela também a importância da amizade e do amor durante essa viagem porque ela encontra os seus amigos e são esses amigos que a ajudam. Então revelam muita importância de uma família, uma boa base para termos ao nosso lado para conseguirmos atingir aquilo que nós próprios queremos.

E nesta viagem a Inês olha para questões fraturantes da sociedade como as que estão acontecer com os jovens e outras camadas sociais?

Tal como eu já disse, aborda um tema que é global: da amizade e da coragem. Agora se aborda um tema específico de algum grupo talvez os grupos que são menos favorecidos ou que não são vistos como tão importantes pela sociedade, são poucos valorizados, que é o que acontece com esta flor. Ela vive rodeada de flores iguais a ela, mas não se sente bem mesmo assim. Então parte em busca de uma outra coisa, uma outra condição. Portanto, muitas vezes nós acabamos por tratar os outros mesmo na questão do racismo ou discriminação de outros tipos – por exemplo, religiosos – acabamos por tratar as pessoas mesmo sem nos apercebermos às vezes com algum desdém ou alguma indiferença e acho que por aí é capaz de ir ao encontro sim.

O que é que a Inês tem estado a fazer: sei que é professora, escritora e tem outras valências e também já com dois artigos publicados no jornal Público. Mas a Inês tem ideia do próximo livro, o que está produzir, o que é que nos pode contar?

Em termos de profissão, como professora, não tenho estado a exercer desde março, por causa da Covid-19. A escola foi fechada. Faço revisão para um jornal desportivo e depois vou escrevendo crónicas como aquelas que estão publicadas no jornal Público e depois vou escrever outras coisas que acabo por não publicar, guardo-as só para mim. Em relação ao livro, eu tenho ideia de publicar outros livros mas como o meu livro foi publicado em fevereiro sinto que ainda não tive tempo suficiente por causa desta situação da Covid-19 para o promover e divulgar ao máximo. Portanto, gostava primeiro de investir nesse e depois então pensar no próximo.

As novas plataformas não são uma resposta para esta sua pretensão de publicar o livro, ou tem que ser mesmo físico com o contacto no dia a dia com as pessoas que são eventualmente o grupo alvo?

Como é um livro infantil, as crianças não têm propriamente acesso à Internet e às redes sociais. São mais os pais. Eu tenho tentado divulgar o livro pelas redes sociais. Mesmo a minha própria assessora de imprensa tem me arranjado muitas coisas nessa área: entrevistas na rádio… Então, tenho feito alguns projetos nesse sentido, mas gostava de levar espaços físicos como as bibliotecas, escolas que fossem ao encontro do meu livro,  portanto, como é infantil que fosse mesmo às crianças.

Mas após ter publicado em fevereiro, não teve sequer uma oportunidade única de fazer a promoção do livro antes desta situação da Covid-19?
Eu fiz a apresentação do meu livro em fevereiro, depois comecei a trabalhar em fevereiro com a minha assessora de imprensa. Estávamos a começar a marcar tudo para março e teve que ser cancelado, portanto, não.

E qual foi o número de exemplares que conseguiram?
Eles não tiveram número exato de uma tiragem. Eles garantem que enquanto houver pedidos fazem questão de livros. Não deram um número específico. Eu tive que adquirir 150 livros logo à partida, portanto, pelo menos 150 livros saíram no início.

Quantas páginas tem o livro?
Tem 27.

A Flor Margarida. Imagens interior do livro
Tem muitas ilustrações?

Sim. É todo ilustrado. O texto apresenta-se no meio de ilustração. Não tem sequer caixa de texto.

Olhando para o 15 de julho, que é o Dia Mundial das Competências dos Jovens, e a Inês é muito jovem como é óbvio, gostava de saber como é que olha para esta questão das competências dos jovens nos dias de hoje?  

Pelo que eu percebi esse dia é para tirar dos jovens aquilo que eles têm de melhor e promover como uma forma de enfrentar todos os desafios económicos, desemprego e tudo isso que existe atualmente. Portanto, acho que é uma iniciativa muito boa. Não é por ser jovem, mas acho que nós não temos que ser bons em tudo, cada um tem as suas qualidades e seus dons. Acho que aproveitar estas pequenas coisas e juntarmos os jovens com todas as caraterísticas boas que eles têm é uma boa forma de diversificar o mundo e talvez conseguir enfrentar esses desafios que a sociedade passa agora como o desemprego. Na minha perspetiva, essa geração tem estado a sofrer muito com a parte do desemprego, agora ainda mais por causa da Covid-19. Acho que isso agora vai ser muito complicado conseguirmos ultrapassar, principalmente, para os jovens que estão a tentar iniciar uma vida, uma carreira, acho que isso vai ser um bocado complicado.

Não parece um bocado contraditório o facto de os jovens serem relativamente muito bem formados – não quero falar de maiorias ou minorias – mas parecem enfrentar muito mais dificuldades. É esse entendimento que a Inês tem ou nem por isso?

Sim, realmente, se nós pensarmos nas gerações anteriores, a educação académica e a escola não era algo tão importante. A partir de um certo nível nem era obrigatório e parece que todos acabavam por ter emprego e consegui por construir uma carreira. E agora na minha geração é preciso ter muito estudo, muita prática, e há até mesmo empregos que requisitam só pessoas que já tenham anos de experiência  Quando comecei a procurar emprego senti muito isso: muita empresas à procurar pessoas com experiência e, obviamente, que os jovens quando saem de uma faculdade não têm experiência e isso acaba por ser mais complicado. Depois também há outra questão que é aquelas pessoas que não contratam porque têm habilitações a mais. Não sei muito bem o que quer dizer habilitações a mais, porque como dizem o saber não ocupa lugar. Portanto, acaba por ser contraditório.

Os jovens estão preparados para o seu tempo, diante desses desafios todos?

Eu acho que o tempo não acompanha os jovens. Acho que os jovens pensam mais à frente e gostavam que as coisas fossem diferentes, talvez mais práticas e menos feitas à antiga. Mesmo na parte do ensino escolar, nós usamos as mesmas estruturas que eram usadas há 20 anos e os jovens não são o que eram há 20 anos. Acho que o tempo não acompanhou os jovens e os jovens tentam adaptar-se.

E têm conseguido algum resultado?

Acho que os jovens, às vezes, são vistos como preguiçosos ou não querem trabalhar, creio que é o contrário. Nós esforçamos, mas chega a um ponto que se calhar devíamos ver mais esforço da outra parte também.

As sociedades são feitas de utopias. Os jovens hoje têm alguma utopia? O que é que a Inês como escritora, professora, jovem, e pelo contacto com os demais, tem como informação daquilo que é o vosso propósito?

Eu só posso falar por mim. Não é só os jovens. Acho que toda a gente tem o desejo de viver num mundo com melhores condições possíveis, fazer aquilo que gostamos – porque há muitos jovens que não fazem aquilo que realmente gostam para o qual estudaram. Então, utopia no sentido de uma carreira é desenvolver aquilo que nós gostamos e aquilo que faz sentido para nós. E depois, em relação ao mundo em geral, acho que é acabar com todas aquelas coisas que nos prejudicam como o racismo, a discriminação, a fome. Todas aquelas coisas que as pessoas dizem que gostavam de acabar. Mas não se restringe apenas aos jovens. 

Vou agora colocar as perguntas para a Inês falar na primeira pessoa e não como “porta-voz” dos jovens. Primeiro, os desafios atuais e futuros relativos à pandemia. Como é que olha para essa situação toda?

Esta situação, a meu ver, tem várias vertentes: primeiro, uma vertente muito importante que é sermos obrigados a ficar em casa. Acho que a população jovem em geral tem vindo a sofrer muito com condições mentais como o stress, ansiedade, as depressões e já sofria disso com a pressão que era exercida para encontrar um emprego, para estudar e fazer todas as etapas que são esperadas pela sociedade. E acho que com a pandemia isso tudo se agravou muito e ficamos todos muito receosos daquilo que vai acontecer no futuro: se vamos conseguir manter o emprego que tínhamos, se vamos conseguir arranjar um emprego que não tínhamos. Portanto, acho que o maior desafio é deixar a ansiedade e estas preocupações.

Nos últimos tempos temos assistido a um movimento internacional em relação ao racismo, discriminação e que se tem verificado também em Portugal. A Inês é portuguesa, nasceu em Lisboa e é no centro de Lisboa onde se verificam muitas dessas coisas. Qual é a opinião sincera e honesta que a Inês tem relativamente à questão do racismo?

Primeiro, acho impressionante que no século XXI ainda seja um tema que tenha que ser abordado, porque não faz sentido. Devia ser algo banal. E depois com toda essa história a nível internacional, mesmo com aquilo que aconteceu nos Estados Unidos, eu ouvi muito uma frase que era: as coisas não têm vindo a piorar, nem a melhorar, o problema é que na altura dos nossos avós não havia forma de registar tudo. Agora nós estamos todos muito mais ligados, porque provavelmente nunca iríamos ouvir falar numa história que ocorreu nos Estados Unidos, de um homem (George Floyd) que faleceu se estivéssemos noutros tempos. As redes sociais e tudo isso permitem uma maior difusão deste acontecimento. Por outro lado, essa maior difusão devia contribuir para estarmos mais informados e para não existir sequer esse tipo de discriminação, ou racismo. Infelizmente ainda existe. Eu gosto de pensar que é em menor escala, mas não tenho a certeza.

Gostar de pensar parte de alguma base, ou é utopia também dentro daquilo que seria o combate ao racismo?

Fazendo parte desta geração, gostar de pensar é achar que as coisas avançaram um pouco. Não sei se foi assim tanto, pelo menos não foi o suficiente. Não sei se avançaram muito, mas não foi o suficiente e continua a não ser. Contudo, não sei até que ponto conseguimos mudar porque em todas as questões há sempre várias opiniões. Isso nem devia ser uma opinião, devia ser uma coisa normal. Como já disse, não devia haver racismo, nem discriminação. Mas não sei até que ponto conseguimos mudar a mentalidade de outras pessoas que pensam de outra forma.

Há uma tendência de culpabilização de parte a parte. Ainda há pouco tempo houve duas manifestações em que uma dizia haver racismo e outra dizia não haver racismo. Como é a que Inês se posiciona dentro deste processo de culpabilização?

Acho que só nos devemos sentir culpabilizados por aquilo que fazemos. Não tenho que me sentir culpada por aquilo que os outros jovens fazem, nem uma pessoa de 80 anos se deve sentir culpada pelas coisas que outra pessoa de 80 anos faz. Acho que cada um tem consciência. Cada um deve exercer essa consciência, mas não me sinto culpada por aquilo que eu não faço. Acho que é triste, mas também não só os jovens que o fazem. Acho que não devia acontecer, mas prontos…

Havia até a bem pouco tempo outros temas que eram globais nos quais os jovens estavam muito engajados. Falo nomeadamente da questão das mudanças climáticas. Aliás, vimos cá pessoas muito mais novas, o caso da Greta, que esteve em Portugal. Enquanto professora e alguém apaixonada pela escrita, acha que esses temas voltarão depois da Covid-19?  

Eu acho que estes temas vão voltar, até porque estão a acontecer. É uma realidade e acho que é importante continuarmos a falar deles. Acho que a pandemia não é uma desculpa para esquecer tudo o resto. Todos os temas que são importantes devem ser abordados, portanto, penso que estes temas voltarão à baila, porque são importantes para o nosso futuro. Os jovens hoje têm tendência a preocupar-se mais com esses temas porque afeta diretamente o nosso futuro.

Voltando à questão da escrita, acha que os problemas globais que esses movimentos todos que a nível mundial estão a falar na primeira pessoa deviam ser registados pelos próprios jovens como a Inês que é escritora?

Acho que toda a gente que tem essa possibilidade, se fizer sentido para a pessoa, sim, deve e pode fazê-lo. Não é preciso propriamente ser escritor, ou ser pintor ou qualquer coisa diretamente relacionada às artes. Mas qualquer pessoa agora tem acesso à Internet. Nós vemos muitas publicações e muitas pessoas nas suas redes sociais comentar essas questões. Portanto, não acho que seja um dever, mas se fizer sentido para a pessoa abordar essas questões não vejo por que não.

Numa palavra, como é que a Inês define o futuro?

Incerto.

Numa escala de zero a cinco onde é que a Inês se coloca dentro dessa incerteza?

Num seis. Nós nunca sabemos o dia de amanhã. Ninguém. Portanto, há que sentir incerteza na vida em geral. Depois acrescentando uma pandemia e as condições económicas de todas que estamos a presenciar e tudo isso, em conjunto, temos que ir para além do cinco. (MM)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here