Entrevista com a promotora do ciclo de cinema político e sobre a migração que arranca hoje em Lisboa

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Foto Lídia Ars Mello ©

A cidade de Lisboa acolhe a partir desta quarta-feira um ciclo de cinema documental, que exibirá gratuitamente filmes de longa metragem de âmbito político e que abordam a temática da migração. O propósito é mostrar e, de seguida, debater por que as pessoas migram e quais são os desafios que os imigrantes enfrentam pelo mundo, e, especialmente, em Portugal.

A programadora brasileira Lídia Ars Mello é a mentora da ideia que assenta sobre a criação de um cineclube na Casa do Brasil em Lisboa, onde os espetadores vão debater as questões levantadas nos filmes fazendo a ponte com a situação política brasileira, de modo a ajudar o público presente a refletir sobre o Brasil atual.

O filme de abertura da presente sessão será “Os dias com ele” (2014), um documentário da realizadora Maria Clara Escobar, e que aborda o passado do pai, Carlos Henrique Escobar, militante comunista na ditadura militar no Brasil (1964-1985) e que vive atualmente em Portugal.

Ao longo do mês de janeiro, o cineclube exibirá outros três filmes: “Marighella” (2011), de Isa Grinspum Ferraz, “Retratos de identificação” (2014), de Anita Leandro, e “Setenta” (2013), de Emília Silveira.

O jornal É@GORA entrevistou a especialista brasileira Lídia Ars Mello, que está atualmente a fazer pesquisa sobre cinema político brasileiro contemporâneo, no âmbito do pós-doutoramento em Estudos fílmicos na Universidade de Coimbra, e que reuniu os quatro documentários sobre política que marcam o arranque do Cineclube da Casa do Brasil na capital portuguesa.

Em que consiste o projeto?

A proposta de cineclube surge, de certa forma, como um posicionamento político meu, a que chamo de “Artvismo político” por meio do cinema. Acho que a atividade cineclubista pode proporcionar isso e é essa minha intenção.

Esse seu posicionamento político é face ao quê?

Chamo “Artvismo” a isso: posicionar-me politicamente através de uma atividade cineclubista, através do cinema, promovendo filmes, debates políticos e sociais sobre o tempo presente, sobre questões que estão tão urgentes no tempo presente. E nesse caso do cineclube da Casa do Brasil em Lisboa está ligada à questão da migração porque esse é a atividade da Casa do Brasil, que é uma associação que trabalha com questões relacionadas com imigrantes.

Como será a programação dos filmes sobre a migração e qual a sua intenção com isto?

A intenção ao programar esses filmes sobre migração nessas atividades do Cineclube é que ocorram uma vez por mês neste ano de 2020, todas as quartas-feiras, às 19:30. As datas vão sendo definidas ao longo do ano, porque depende da (disponibilidade) das pessoas que vou convidar para comentar os filmes – não só as que estão ligadas ao cinema, mas à área da migração. Ao programar esses filmes, a minha intenção é mostrar, por meio do cinema, por que as pessoas migram e quais são os desafios que os imigrantes enfrentam pelo mundo, e, claro, aqui em Portugal, porque estou a morar aqui atualmente, levando em conta a inclusão e exclusão social do imigrante, o próprio fluxo migratório em si, a exploração da mão de obra estrangeira, o tráfico de pessoas, questões de fronteira, documentação, legalidade. Vou procurar programar filmes em que estas questões são retratadas nos filmes e através dos filmes promover debates, críticas sobre a questão da imigração que é algo tão premente nos tempos atuais, principalmente, na Europa.


Há um intervalo de tempo que irá definir dos filmes que vão ser exibidos: por exemplo, são dos anos 90, 80, ou 40?

Não defini um período de tempo, mas o que me interessa são, claro, filmes mais atuais para colocar em discussão questões que mais nos estão a afligir. Não defini qual vai ser exatamente o período, mas com certeza vou focar mais em filmes contemporâneos, se eu conseguir filmes mais recentes, porque isso vai depender da seleção. Eu estou vendo pessoas que estão mandando filmes ou as que estou convidando. Por exemplo, o filme que vou abrir essa mostra de filmes sobre imigração, em fevereiro, é um realizado em 2016 por um português que vive no Brasil, que se chama José Barahona. É o filme “Estive em Lisboa e lembrei de você”, que aborda a vida de um brasileiro que se vê sem emprego, mulher, nem filho e, não vendo saída no Brasil, ele decidi imigrar para Portugal. Ele chega aqui em Lisboa em busca do trabalho e com certa esperança de melhoria de vida e ele vai encontrar algo diferente daquilo que ele tinha idealizado. Então, aqui ele vai acabar se encontrando longe da família, do país onde nasceu e enfrenta diversos desafios próprios de imigrante, além da questão da solidão e desprezo por um povo que é diferente do seu e que são coisas que ele inicialmente não esperava. Escolhi esse filme porque ele está muito presente no Brasil hoje. Infelizmente, estamos a viver num Brasil com um governo de extrema-direita que fez com que muita gente migrasse para Portugal, inclusive eu.

Quando é que a Lídia chegou a Portugal?

Cheguei em setembro. Escolhi fazer um pós-doutoramento sobre o cinema político para escapar esse sistema que o Brasil está a viver e decidi vir a Portugal porque é um país de centro-esquerda e tem uma condição de vida, hoje, muito diferente e melhor do que a do Brasil. Não só. Eu vim morar aqui como estudante num momento, mas também como profissional de cinema. Mas há uma série de brasileiros que tem migrado para Portugal numa situação de desespero mesmo, porque perderam tudo e se veem na situação desse filme do Barahona, que foi feito em 2016, mas que retrata a situação atual. Parece que o Barahona previu isso através do filme.

O que ditou a sua vinda para cá, para além da questão de ter subido ao poder um governo de extrema-direita?

Para mim, é importante viver num país onde a liberdade e democracia possam de facto existir. Há um ano, vi-me no Brasil, desde que subiu esse novo governo, e senti essa liberdade e democracia ameaçadas. Acho que não só eu, todo o mundo sabe que o Brasil está com essa crise democrática, pois houve um rompimento da democracia. Essa é para mim uma coisa muito importante. Eu tinha trabalho no Brasil, tinha uma vida estável, com casa e tudo, mas do ponto de vista político tornou-se insustentável viver numa cidade onde eu estava a ver todos os dias ações muito autoritárias e vendo muitas pessoas sendo ameaçadas na rua, do ponto de vista humano e social, com perdas de todos os direitos conquistados a longos anos por todas as classes trabalhadores e eu disse: não quero viver nesse Brasil. Isso para mim é muito duro porque é meu país, eu gosto, e eu estava numa situação aparentemente confortável, com casa própria, tinha trabalho na área do cinema, ou seja, não tinha motivo nenhum para sair do meu país.

Sempre esteve ligada ao cinema em termos profissionais?

A minha graduação é em Comunicação, depois fiz a especialização, mestrado, doutoramento e, agora, pós-doutoramento em cinema. Trabalhei em diferentes áreas de cinema, desde realização, curadoria, como professora na Universidade, ou seja, trabalhei em praticamente todas as áreas do cinema ao longo dos últimos 15 anos. Então, a questão é política para mim, (aliás) acho que o cinema é político, porque quando se faz um filme há sempre um posicionamento ao escolher um tema ou a questão que se vai abordar no cinema.

Como é que pretende fazer: apenas a exibição de filmes, ou esses debates irão tornar-se em algum tipo de documentário, ou outro tipo de iniciativas que queira avançar?

Inicialmente, eu não pensei no que isso se vai tornar. Pode ser que eu venha a escrever textos sobre os debates, pode ser que eu venha a filmar esses debates para poder gerar outros produtos audiovisuais.

Perante esse fluxo migratório todo, qual é o futuro dos jovens brasileiros como a Lídia?

Eu posso dizer que como as pessoas que estão a imigrar para Portugal agora já têm um certo conhecimento, acesso à Universidade, profissão, eu sou uma dessas pessoas. Felizmente, venho para cá quando estou num pós-doutoramento, tenho uma experiência profissional já grande, então pretendo me estabelecer aqui quando terminar o pós-doutoramento. Profissionalmente, na área do cinema, não me vejo com muitos problemas, mas é claro que tenho que pensar sempre que sou uma imigrante, não sou cidadã portuguesa, pelo que há desafios a enfrentar. Não sei dizer como vai ser o futuro porque é algo incerto. Eu estou a começar a minha vida profissional aqui e não sei dizer como será o futuro, mas começo agora plantando sementes para no futuro ter aqui trabalhos profissionais na área do cinema.

Depois de ter largado tudo no Brasil, esse recomeço é com que idade?

Estou na faixa dos (risos)… Essa situação de deixar tudo, não é bem assim a minha realidade. Há brasileiros que encontro pelas ruas e também vejo na Casa do Brasil várias pessoas que vieram para cá absolutamente sem nada, inclusive, sem dinheiro para começar a vida. Então, quando eu questiono por que essas pessoas veem para cá nesse desespero total sabendo que a vida aqui custa em euros e no Brasil custa em real, quando analiso vejo que eles não têm nada a perder, porque no Brasil não têm nada que conseguiram construir, além da família. Então, para eles virem para cá, porque como não têm nada a perder, é melhor começarem a vida aqui num país de pensamento político de governo centro-esquerda, até porque aqui se ganha em euros, ainda que se ganhe pouco pode-se mandar (algum) para a família. Para eles, é melhor que estar no Brasil, sem possibilidade de trabalho, sem dinheiro para pagar renda e para sustentar as suas famílias. (MM)

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