Entrevista com Fábio Silva, cineasta português premiado no Play-Doc em Tui (Espanha)

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Cineasta Fábio Silva. FOTO: Cinema7arte ©

Manuel Matola

O cineasta português Fábio Silva ganhou entusiasmo pelo cinema ao assistir desde miúdo as várias gravações analógicas em fitas de videotape que o próprio pai cabo-verdiano registou, sobretudo, em formato VHS sobre os momentos áureos e difíceis na vida de imigrante em Portugal. No fim do mestrado em Cinema, o jovem realizador de 29 anos pensou num projeto de fim de curso e decidiu produzir o filme “O Fruto do Vosso Ventre”, onde procura identificar cada um dos rostos que aparece naqueles vídeo e as vozes gravadas em cassetes-áudio na tentativa compreender as suas origens, a partir das lembranças do pai. Quando mostrou o filme ao seu progenitor, afastaram-se. No fim-de-semana, o filme venceu a Competição de Curtas Metragens do 17º Play Doc-Festival Internacional de Cinema, que decorreu em Tui, Espanha. Foi a terceira exibição ao grande público após a estreia no curtas de Vila do Conde, no ano passado. A 23 de Agosto, Fábio Silva levou a película para a secção “Novíssimos” do Festival Indie Lisboa 2021, onde o jornal É@GORA o entrevistou. Na entrevista, Fábio aborda a produção dos seus dois filmes de forma solitária, o processo que originou o último filme e os projetos para o futuro.

A relação que estabelece com o seu pai é difícil. O Fábio tem noção daquilo que descreve no filme?

Sim. Este filme foi feito durante o meu mestrado. O filme estreou no curtas de Vila do Conde, e terminei o mestrado há uns 5 meses. Ele percebeu que estava em filmagens porque aparecia lá em casa com a câmara de filmar, mas não sabia o que estava a fazer, nem que tipo de filme é que era. E eu próprio também estava à procura do filme.

E surpreendeu-o?

Sim. Eu estive numa horta com cabo-verdianos na margem sul. Fiquei lá muito tempo à procura do filme que queria fazer. Ia à horta, convivia com as pessoas e a verdade é que aí há uma ligação com o povo cabo-verdiano. Embora eu seja português, os meus pais são cabo-verdianos. Nunca aprofundei essa ligação. Tal como disse no filme acabei por me afastar um bocadinho das origens. Mas ter estado naquela horta durante tanto tempo fez-me perceber que há qualquer coisa que me liga, qualquer coisa diferente. O meu pai conta-me histórias tão diferentes de Cabo Verde e os homens com quem estive são tão diferentes do meu pai. E foi quase um bocado como isto: estava à procura da minha figura paternal, ver as diferenças entre aqueles homens cabo-verdianos que eram tão diferentes do meu pai. E depois de me ter chateado com o meu pai, e ver a situação de saúde em que a minha mãe estava eu percebi e [pensei]: é este o filme que quero fazer. Não sobre a horta dos cabo-verdianos, mas sim sobre o meu pai e tem muito a ver com a minha mãe. Depois de todo um processo de preparação mostrei o filme ao meu pai. E quando lhe mostrei foi a última vez que nós conversamos, há sete meses. Ele disse que o filme “está muito bonito, mas que tinha muita coisa por me dizer. Já vi que estás muito sentido e peço desculpa se te magoei”, levantou-se e disse: “Qualquer coisa liga-me”.
Depois desta conversa há respostas que o Fábio conseguiu obter?
Eu acho que não, tanto que agora estou a fazer um filme que é a continuação deste. Agora já será sobre a minha mãe. Vai ser uma longa metragem.

Já tem título?

Sim, mas prefiro manter no segredo dos deuses.

Já tem uma ideia de quando é que vai terminar?

Este ano não será de certeza absoluta, à partida não será. Mas duvido que seja [este ano]. Para o próximo talvez, estou a apontar para isso. E já será centrado na figura da minha mãe. É isso que quero e há questões que ficaram por responder e percebi que ainda tinha muito para dizer. Será ela a contar-me o que ficou por dizer.

A história do Fábio está quase toda em cassetes VHS e de áudio. Isto não é um bocado contraditório com o tempo em que o Fábio nasceu e a geração a que pertence?

Não, porque estou a tentar explorar os meios do meu pai. Estou à procura de compreendê-lo. O que estava a tentar perceber é como é possível ser um homem com um caminho tão bifurcado. Por um lado, ensinou-me tanta coisa e, se calhar, nem sequer estava no cinema, não tinha visto os filmes que vi. Mas depois, por outro lado, tinha tantas coisas que mexeram muito com a minha infância. De ser um pai austero e tudo mais. Até determinada altura até pensei que era uma família normal, até ser confrontado com outros amigos meus que tinham famílias “normais” ou pais mais calmos. Usei a cassete porque fiz do arquivo do meu pai. Se tivesse usado máquina fotográfica era isso que tinha feito. Na altura era o que havia. Uso as cassetes mesmo só para o tentar perceber.

O passado dos nossos pais é que contribuem para o que somos?

Sim, sem dúvida alguma. Neste filme senti que tive de dar um passo atrás para dar dois para a frente, porque se começas a acumular muitos traumas tu não evoluis, eles começam a crescer dentro de ti e mais tarde ou mais cedo vêm ao de cima. E às vezes estás uma vida inteira e não sabes o porquê de teres determinados medos, receios, porque é que não consegues atingir determinadas metas. E isso vem ao de cima. Como disse no filme, os meus pais perderam dois filhos. Será que quando tiver filhos e se não desbloquear isto do meu pai não iria passar este trauma também? Ele se calhar não se resolveu consigo próprio, pelo facto de ter perdido dois filhos e acabou por passar o trauma. Não soube lidar.

Qual é a centralidade da questão cultural na sua história, olhando para a forma e origem de estar e ser dos seus pais, com a forma de estar e ser do Fábio tendo nascido em Portugal?

Fábio e a mãe
Tem alguns pontos interessantes em relação a esta descendência africana, na minha opinião. Uma das coisas que refiro é, por exemplo, que a lareira da minha sala é muito difusa porque vemos uma girafa e depois vemos uma tartaruga. Os meus pais foram pondo simplesmente elementos de África e então está uma África dispersa [pela casa]. E eu digo que Cabo Verde acaba por ser para mim esta ideia de que está um bocado confusa. No que toca aos meus pais há uma coisa em eles me protegeram até um bocadinho: [o uso] da língua crioula porque não queriam que tivesse dificuldades na escola. Quando discutiam usavam o crioulo. E por isso, propositadamente num dado o momento no filme eles discutem [em crioulo] e não coloquei legendas porque queria que as pessoas se sentissem desconfortáveis tal como eu me senti quando era criança. Tem muito haver com já estar a começar a perceber. E durante muito tempo eu pensei ‘sou português’ e às vezes até ficava um bocado chateado quando diziam ‘tu és um gajo diferente, devias pesquisar as tuas raízes’. Eu ficava um bocado chateado porque não tinha de ser uma imposição das outras pessoas, por ser negro obrigarem-me a ir em busca das minhas raízes. Assim como o facto de muitas pessoas que não são negras e nasceram em Angola não lhes dizem isso.

O Fábio sente que carrega o peso da imigração?

Acho que não. Pelo menos nunca refleti muito nessa questão, agora há coisas que se formos por ai [dá que pensar, tal como] o facto de eu ser negro e de haver um afastamento de África, do meu lado. Lembro- me que essa situação há uns tempos era muito complicada. As pessoas ficavam [admiradas e questionavam]: ‘então, mas não conheces [África]?’. As coisas estão a mudar e já começam a perceber que já nem sabemos em que geração vamos dos filhos dos descendentes das colónias. Se calhar os meus filhos vão ter um conhecimento mais distanciado [de África].

Há aqui uma dupla ausência no sentido em que o Fábio não se sente tão integrado em Portugal, nem tão integrado na comunidade cabo-verdiana?

Não, eu sinto-me integrado nos dois lados. Felizmente, agora estas mudanças com o burburinho que se tem falado muito na questão negra, as coisas têm vindo a mudar cada vez mais para melhor, na minha opinião. No geral, sinto-me bem recebido por toda a gente em Portugal. Quando vou a Cabo Verde sinto-me de igual forma. Já estive lá três vezes e a última vez foi um ano antes da Covid-19. Até estive com os Bulimundo para filmar um projeto. Adoro Cabo Verde e quero voltar. Só não fui agora com a minha mãe por causa da pandemia.

Estava a falar da sua mãe, que é o próximo projeto. Antes e proximamente, o que tem em termos de projetos?

Em 2018 tive o “Hip to da Hop” que estreou no curtas de Vila do Conde, que foi um filme sobre hip hop. Teve um bom abraço do público. Em 2020 fiz uma curta que foi “A morte de Isaac” e agora estou de volta à longa com a minha mãe. Acho que vai ser um filme muito bonito.

A sua mãe no fim do filme remete toda a responsabilidade das questões que levanta para uma decisão sua. E o Fábio não chega a tomar nenhuma decisão…

O filme deixa em aberto porque estava indeciso. Mas acho que fica claro que há uma paz interior. Tinha a liberdade para isto. Está expulso e agora tenho de seguir em frente. No próximo filme vou estar atrás da câmaras e vou deixá-la falar. Desta vez é como se fosse o epicentro da tragédia, mas percebi que quem tem de contar o resto da história é ela.

E essa história que espera ouvir irá, de certa forma, remeter para uma nova relação com os seus pais?
Relação e não só. Não quero aprofundar muito, mas espero que haja mais mulheres que se inspirem na sua figura. Esta é a minha luta neste momento. É isso que quero fazer, imortalizar a minha mãe.

Em termos de perspetivas, para onde é que vai depois do 18º Festival Internacional de Cinema.?
Não sei ao certo. Agora tive um convite para um festival em Espanha, mas não sei. Deixa ver. Estou aberto.

Trabalha a solo ou tem uma equipa?
Tenho trabalhado a solo, mas para o próximo filme que estou a fazer tenho trabalhado com uma produtora. Mas como o filme ainda não está terminado não quero falar do projeto. Eu tenho um grande impulso, quero e faço. Às vezes só de pensar que tenho de arranjar uma equipa, isso corta-me um bocado. Felizmente consigo ser diretor de fotografia dos meus filmes, consigo pegar na câmara, sei montar, tenho equipamento e tenho feito as coisas assim. Mas espero no futuro trabalhar com uma equipa grande. Depois uma pessoa quer fazer uma longa de ficção e a logística é muito complicada. Se bem que era algo que arriscaria fazer, mas não sei se seria viável. Depende do projeto. Se for uma curta intimista como a da minha mãe, não dava para arranjar uma equipa a filmar. Ela diria “saiam da minha casa” [risos].

Estas produções têm custos?
Os custos que tiveram foi fazer o cartaz, mas felizmente tive um grande amigo que é o José que fez um preço porreiro, o André do som… E pronto, tenho conseguido fazer as coisas sem grandes financiamentos.

Como é que define estes filmes? A curta documental tem alguma característica para além disso?
Se tem nem me importo com ela. [risos] Eu quero é que as pessoas sintam o filme e desprendam barreiras.

Quanto tempo levou a construção do filme?
Nem sei dizer. Tive uma primeira versão, depois uma segunda. Mas quando percebi a segunda versão fiz super rápido, talvez um mês. (MM)

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