Entrevista: D´Alma, a banda portuguesa de pop rock que canta poetas (e imigrantes) lusófonos

0
285

Manuel Matola

A banda portuguesa de pop rock, D’Alma, compõe as suas melodias e divulga originais que assentam em poemas de escritores conceituados da lusofonia, incluindo alguns poetas imigrantes. Em três álbuns editados – o último data de fevereiro de 2002, cuja promoção ficou comprometida devido à eclosão da Covid-19 – foram vários os nomes musicados pelo vocalista Joaquim Carlos Silva.

“Nós pretendemos fazer com que a nossa música seja vista como um instrumento para a aprendizagem não só poética como também musical”, diz Joaquim Carlos Silva numa entrevista ao jornal É@GORA, na qual aborda vários temas, incluindo a famosa carta assinada por 187 escritores lusófonos que denunciam o racismo em Portugal, fenómeno que para D`Alma tem uma solução: “pôr todos a ler Nelson Mandela”, melhor, alguns pensamentos do ícone sul-africano que foram reformulados em poemas. Acompanhe:

Qual é o horizonte, em termos de cobertura, de autores lusófonos que vocês querem musicar?
Vou falar em nome particular porque sou eu que componho. D’Alma é uma banda em que somos seis elementos. Eu sou o vocalista e fundador. Não é aquela máxima “eu faço tudo, eu sou bom”, mas na verdade eu é que musico os poemas, escolho-os e depois passamos para a fase B, que é, juntamente com a banda e o produtor, fazermos arranjos para a música. Mas quem escolhe os poetas sou eu, o vocalista.

Qual é o critério que usa para escolher os poemas?
Olha, eu agora estou mais inspirado. Essa fase da pandemia cortou-me muito a inspiração e eu andei um pouco à deriva e é engraçado que agora voltou novamente a inspiração. Neste momento estou a musicar Almeida Garrett. É um escritor que já faleceu há muitos anos mas é um nome muito forte da escrita portuguesa.

Mas como é feita essa seleção?
Tenho uma poetisa e um poeta que são da minha eleição. A poeta é Florbela Espanca e o poeta é o Fernando Pessoa. Todos os álbuns dos D`Alma que eu propus as músicas têm esses dois como a base que tenho para iniciar o trabalho. Depois, mediante o álbum vai seguir eu faço uma escolha daquilo que acho que encaixa bem naquele álbum. Por exemplo, neste último álbum, tenho (Francisco de) Sá de Miranda, que é um escritor que tem muito boa poesia, era amigo de Camões. Eu escolhi esse poeta para fazer a música “Comigo Me Desavim”, que abre o álbum. E nesse álbum eu contactei a escritora Agustina Bessa-Luís (faleceu em 2019), mas que tinha um poema muito interessante e consegui a autorização dela para musicar esse poema. Também consegui autorização para o uso de um poema de Manuel Alegre. Neste álbum eu achava que estes poetas, estas músicas e estes poemas se encaixavam bem porque a poesia é muito sobre a vida. Tem alguns poemas de música mais falada e depois outras mais ritmada para ficar um álbum aconchegante. Basicamente é nesse sentido que eu desenho os álbuns para a banda.

Os escritores impõem alguma restrição? Há algum tipo de pedido que fazem para musicar os seus poemas?
Eu quando iniciei este projeto, os D´Alma não existiam e há um pouco de medo de dar um poema de um escritor consagrado a alguém que não é conhecido. Pode correr mal. Entretanto, iniciei esse primeiro álbum com seis poemas meus e dois de Florbela Espanca, um de Fernando Pessoa, um de Mário Sá Carneiro e outro de Sebastião da Gama, um poeta de Setúbal. De Sebastião da Gama tive que pedir autorização, mas tudo correu bem. No segundo álbum já foi mais fácil porque no primeiro álbum tive uma música na novela da TVI – “Todas as cartas de amor são Ridículas”, de Álvaro de Campos (um dos heterónimos mais conhecidos de Fernando Pessoa) – e tudo aí fez com que as portas se abrissem como o tempo. Digo isso porque, se eu pedisse na altura Manuel Alegra para autorizar que eu musicasse um poema dele, era capaz de dizer logo que não. Quando lhe pedi já no terceiro álbum ele já vai pesquisar e vê a dinâmica que a banda tem e percebe que, com certeza, se essa banda musicar um poema meu vai ter qualidade, modestamente falando.

Ainda assim insisto na questão: o que eles pedem em troca?
O que eles os poetas têm são os direitos de autor. Não me pedem que paguem nada em troca, apenas que tenham os direitos de autor que está em nome deles. Os que estão no ativo. Aqueles que são do domínio público já não é importante isso. Agora, aqueles que estão no ativo cedem-me um poema mas recebem depois os direitos de autor.

E os D`Alma não fazem alteração nenhuma aos poemas?

D’Alma: Hebert Neri, Roger Paz, Joaquim Carlos Silva, Ranieri e Robson Weidgenant
Foto: Cartaodevisita ©
Não. Uma das coisas que eu tenho comigo é essa situação de não alterar nada porque na minha opinião é matar o poema. O poema é aquele e é o que temos que fazer.

Tem ideia de quantos escritores já conseguiram cobrir?
Bastante. Miguel Torga, Sofia Aleixo, Sophia de Mello Breyner, Sebastião da Gama, Mia Couto Luís Vaz de Camões; -Florbela Espanca; Fernando Pessoa; e heterónimos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos; Sebastião da Gama; Mário de Sá Carneiro; José Saramago; António Aleixo; Antero de Quental; Sofia de Mello Andresen. Alguns literários contemporâneos, igualmente dignos de registo no panorama cultural português merecem a nossa divulgação como: Joaquim Pessoa; Pedro Chagas Freitas; Raúl Minh’Alma; António Carlos Santos, cuja poesia honra o nosso espólio musical. E porque a riqueza da nossa língua se difunde pelos cinco continentes do Mundo, alguns lusófonos completam a riqueza dos nossos álbuns. Entre eles: Mia Couto (Moçambique); Isabel Ferreira; Etelvina Diogo (Angola); Olavo Bilac; Machado de Assis (Brasil).

E qual tem sido a reação dos jovens a essas vossas músicas? Provavelmente, o vosso objetivo seja atingir a camada juvenil…
Sim. É engraçado que este é o meu foco, embora eu entenda que não é fácil, mas eu tenho recebido da parte dos jovens e das escolas uma grande recetividade, porque eles entendem que o poema cantado da forma como é cantado e tocado não se torna uma coisa chata. Percebem que, afinal, o poema é interessante. E já há algumas escolas cujos professores me contactam por Facebook ou email. E já alguns alunos que nos disseram que na aula viram o nosso vídeoclipe com músicas de alguns poemas que estão a ser utilizados para que os jovens entendam que se consegue fazer muita coisa com a poesia, não é só a parte cultural que é dada nas aulas e que se torna chata, mas que podem ouvir e dançar na aula, se for preciso, através de Youtube e interiorizar o poema de uma forma gratificante.

O facto de os estudantes irem ouvir os vídeos e fazendo aqui a ponte com a forma como nos últimos tempos os estudantes tiveram que se adaptar às aulas por cauda da Covid-19 é um casamento perfeito?
Sim, como tudo na vida, há situações que acontecem – às vezes coisas más – e que mudam também a sociedade. E isso de Covid-19 é uma coisa má, mas que em alguns aspetos evoluiu bastante e mudou alguns pensamentos, mudou algumas formas de trabalhar para o melhor.

E acha que essa forma de musicar os poemas poderá levar o Ministério da Educação a repensar e colocar as vossas músicas que são poemas de escritores lusófonos no sistema nacional de ensino?
Esse é um dos objetivos. Nós como banda formamos uma associação cultural Poesia Musical – já estive até com o senhor Presidente da República a falar sobre isso – aonde uma das situações que nós pretendemos é fazer com que a nossa música seja vista como um instrumento para a aprendizagem não só poética como também musical.

Parte dos escritores que o Joaquim apontou escreveram recentemente uma carta – são 187 escritores lusófonos – em que denunciam a situação do racismo e populismo em Portugal. Como é que vocês olham para isso. É momento para os músicos também refletirem sobre esse fenómeno?
Dizer que este é um país racista é algo que acho que alguém quer aproveitar-se disso politicamente. Essa é a minha opinião. Agora, concordo que os artistas, que são fundamentais em tudo, não só nessa área como também em todas as áreas que uma sociedade quer desenvolver, os artistas são fundamentais em falar e dar opinião para que as massas entendam que há alguma coisa que está mal, pelo que concordo plenamente com a opinião que tiveram. O que acho é que devemos falar, mas não devemos dar muito tempo de antena para que os outros não se aproveitem disso politicamente para o bem e para o mal.

Festa do Avante: “Acho que era um evento que se podia evitar”

E como é que os artistas devem abordar essa questão?
Os músicos devem abordar, com certeza, como se fez esses anos todos, que é fazer um espetáculo contra o racismo, como se fez agora contra a ditadura, por exemplo. Desde criança que eu ouvi o meu avô a falar contra essas políticas de extrema direita. É isso que temos que fazer. No fundo quando falamos de racismo estamos a falar da extrema direita, porque são eles que fomentam isso. Mas há muito aproveitamento político. Há pessoas que estão a crescer bastante, pois tocam nesse tipo de temas que estavam sanados. Estavam resolvidos e há pessoas quem teimam em voltar a abrir esses temas que é para aproveitamento político. Eu que lido com muita gente de África, nomeadamente a minha família, nós não vemos nada disso em Portugal. É claro que há. Eu costumo dizer: eu posso não gostar daquela pessoa mesmo sendo da minha cor. É normal que isso aconteça.

Mas a reivindicação que existe é ao nível a atuação do próprio Estado. Discorda?
É o que digo: é claro que há aproveitamento político. Na minha opinião, acho que há situações que são faladas, que estão a ser analisadas, mas são situações que estavam quase todas elas resolvidas. Voltam sempre, sobretudo agora com este partido novo que está a querer orientar-se – não sei se aquilo é carne ou se é peixe, se é realista ou se não é, ele diz que não´é, mas tem comportamento racista – então eu acho que é aquela velha máxima: quem é falado, bem ou mal, é lembrado. Aliás, ao longo da História temos países que têm situações sanadas e há um indivíduo que vai abrir o túmulo e vai voltar a colocar isso cá fora novamente. E volta outra vez os óbvios.

E como é que se pode ultrapassar essa questão – pelo menos a discussão do racismo – em Portugal?
A resposta está nas escolas. Quando se diz que as pessoas em casa têm que dar educação, é verdade. Mas se tem um pai ou uma mãe a ser racista a ver televisão, ou um jogo de futebol em casa, a criança ouve aquilo e interioriza. Se chega à escola e os professores têm essa prática de ensinar que somos todos iguais, eles chegam à casa e até confrontam os pais, pois ficam com uma ideia errada e começam a perceber que os pais é que estão errados.

E a poesia é uma saída para reverter essa discussão que existe ao nível da sociedade portuguesa?
Sabes como é que se podia perceber um pouco sobre isso nas escolas? É pôr a ler alguns poemas de Nelson Mandela. Isso mexe muito com a pessoas, e é isso que precisávamos levar a todos: mostrar que há pessoas que têm esse dom e o caminho para o mundo é este. Não é gerar ódio. O caminho é mostrar caminhos diferentes e não fazer as pessoas serem racistas. São os adultos que colocam as pessoas racistas.

Está-se agora a debater à realização de um espetáculo num período desses (o da pandemia), que é a Festa do Avante. Vocês vão participar ou não?
Nós ainda não fomos convidados. Não tivemos esse convite.

A minha pergunta ia exatamente para aqui: o que acha desse debate?
Quando se proíbe espetáculos não pode haver exceções e nisso está-se a abrir uma exceção. Acho que estamos a mexer com um enxame de abelhas e isso pode desencadear muito desacordo numa sociedade que é: a Festa do Avante não é para enriquecer ninguém. É uma festa que costuma ser feita todos os anos. Agora, há empresários que fazem festivais e vivem disso, e esses empresários não conseguem fazer nenhum festival ultimamente. Por isso, não podemos não deixar que não se façam alguns eventos e outros (ter a prerrogativa de) poderem fazer. Isso faz com que a sociedade fique a pensar se somos todos ou iguais ou não somos. Acho que era um evento que se podia evitar.

Há outro debate que está a correr que tem a ver com o Ministério da Cultura – “linha de apoio social” para os artistas. Como é que os D`Alma estão a acompanhar?
É outra situação pouco idêntica. Quando se fala no Ministério da Cultura, ou a cultura em si, há sempre projetos que ficam para trás. Há certas situações que a cultura não consegue acompanhar na totalidade. E, por vezes, como não conseguem chegar a todo lado, fica só em algumas áreas. E uma vez mais repito: isso abre várias brechas para que a sociedade no geral critique. Por exemplo, houve um evento que ia acontecer só com alguns artistas. Eu vi o evento como interessante, mas ao mesmo tempo achei que o formato não é mais indicado. E o Ministério da Cultura quer fazer algo, mas na minha opinião o que está a fazer é insuficiente, não chega a todos.

Como é que os D´Alma têm estado a discutir o futuro da cultura: vai recuperar, ou os artistas têm que se readaptar no pós-covid?
Esta pergunta é interessante porque nós e muitos artistas estamos por perceber como é que vai ser. Eu acredito e já se fala bastante na vacina. Se até ao fim do ano isso acontecer vai mudar radical e completamente o ano 2021 e vamos voltar à normalidade e isso vai fazer com que tudo comece a acontecer naturalmente. Até lá, nós pensamos várias vezes em fazer um direto (nas redes sociais) e chegar a algumas pessoas. Já pensamos também – isso até o fim do ano – fazer alguns espetáculos com metade da assistência, mas temos que respeitar as normais da Direção Geral de Saúde. Agora, o que eu acho é que se tudo correr bem até ao fim do ano, como está a ser falado na imprensa, pode ser que o ano 2021 seja um ano normal. Até lá, temos que nos reinventar.

Mas essa situação, a de Covid e eventuais readaptações, estarão a tirar algum entusiasmo nos músicos, como é o caso dos D´Alma?
Sim. Nós não estávamos preparados para isso. Como compositor eu tive uma fase de readaptação. Como disse, comecei a pouco a compor algo para 2021 e, se calhar antes de 2021, iremos lançar um tema, um single. É nesse aspeto que eu como compositor estou a começar a fazer. Quanto à banda, está a tentar estudar formas de se reinventar nesse formato de espetáculos online. Agora, em agosto estamos ainda um pouco de férias. Aliás, eu acho que as pessoas ainda estão um pouco fora da realidade porque estão de férias e estão a organizar a vida de férias. Em setembro, aí temos que atacar a sério e criar projetos para que se faça entre setembro e dezembro, para ver como é que o mundo vai reagir, como vai acontecer isso das vacinas para ver se 2021 volta ao normal.

Vocês continuarão a apostar no pop rock?
Sim, essa é a base. Eu sou homem do rock. Alguns elementos da banda são Rock mas mais para Metal. A essência é essa mesma, embora também goste muito de baladas. Eu tenho algumas baladas nos álbuns de guitarra e voz, mas essencialmente é o pop rock a nossa essência.

É um ritmo musical que consegue alcançar ouvintes noutros espaços, sobretudo, ao nível da lusofonia?
Sim. Nós todos os dias somos abordados na página por pessoas de todas as idades. Ainda essa semana, fomos abordados por pessoas de uma certa idade que dizem que gostam muito de ouvir os D´Alma. Na semana passada, tínhamos os pais a dizerem que os filhos gostam muito de ouvir os D´Alma. Isso enchem-nos de orgulho porque acreditamos que conseguimos chegar a um público bastante abrangente. E esse modelo funciona porque o pop rock é universal.

Sendo um ritmo universal, admitem um dia as vossas músicas serem cantadas em inglês, ou será sempre em português?
Eu se calhar traduzia mais depressa para o francês e o espanhol do que para o inglês (risos).

Porquê?
Acho a língua francesa e espanhola mais poética do que propriamente o inglês. Já dizia (Fernando) Pessoa que o inglês é a língua do comércio e o português da poesia. Mas tenho uma música, um tributo que fiz ao Aristides de Sousa Mendes, que foi lançado pela Farol, e legendei em inglês. Aristides de Sousa Mendes é um cidadão do mundo e tenho em inglês a tradução de um videoclipe.

Mas essa ideia de cantar em outras línguas está em cima da mesa?
Sim, está tudo em cima da mesa. Como é óbvio, neste momento não é um objetivo, mas já foi pensado. Há vários artistas portugueses, como o Pedro Abrunhosa, que já chegou a gravar em francês. Vale o que vale mas é sempre interessante. (MM)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here