Entrevista: Ex-jogador Emanoel Jr. denuncia em livro casos de assédio sexual masculino no Futebol

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Autor Emanoel Jr., ex-futebolista brasileiro

Manuel Matola

“O Futebol e as suas peripécias, a realidade nua e crua” é o primeiro livro de Emanoel Júnior. Em conversa com o Jornal É@GORA, o ex-futebolista brasileiro explica o que o levou a escrever a obra, no qual relata os episódios negativos que o forçaram a abandonar uma profissão de sonho numa altura em que “estava a ‘rebentar’ num clube como ponta-de-lança e fazia golos de todas as maneiras”. Apesar de ter passado por uma fase difícil, decidiu: “Tudo o que gerasse alguma coisa que pudesse corromper ou vender-me eu não o faria”, diz. Após descobrir que tinha cancro, percebeu que a vida estava a recomeçar e ainda o surpreendeu ao anunciar uma nova faceta – a de autor que sonha emigrar.

O Emanoel Jr. lançou o livro “O Futebol e as suas peripécias, a realidade nua e crua”. Que realidade se pode encontrar nestas páginas?
Este livro é um relato das coisas que eu passei dentro e fora do país. Cheguei a grandes clubes, onde existe uma grande camuflagem. Quando se é um aspirante a jogador de futebol não basta só ter o talento. Por onde eu passei as pessoas diziam: “o seu talento é incomensurável, você tem muito talento, tem muita habilidade!”, mas é preciso vencer algumas barreiras. Há o assédio moral, o assédio sexual no futebol. Há bastante (no mundo do futebol). Eu não cito nomes, só situações. Na altura estava a ‘rebentar’ num clube como ponta-de-lança e fazia golos de todas as maneiras. Mas ao fim de um tempo havia uma pessoa que queria prejudicar-me. Ele falou: “És bom aí, mas podes jogar numa outra posição”. Tive uma boa prestação e acabei com 20 golos, mas no fim vi que não bastava só jogar. Tinha que vencer uma coisa: se não fizesse o que queriam trocavam-me. E eu disse que não: “O meu talento é o que você viu, são os golos, os passes e a habilidade. Não vai ter nada do meu corpo porque não é objeto de prostituição. Essa foi a primeira situação que tive num clube grande do Rio de Janeiro. Aqui no Rio há quatro grandes clubes, e eu estive em dois. Também houve um clube enorme que representei, hoje em dia não está muito bem. Eu estava a jogar bem, mas tinha de lhes dar 3 mil reais para jogar. São dois exemplos: um de assédio moral e outro de assédio sexual.

O assédio sexual que refere vinha de homens ou mulheres do clube?
De homens.

Eram pessoas que tinham uma posição mais alta dentro do clube?
Eram treinadores, dirigentes, pessoas dos patamares mais altos que possam imaginar. Nesse segundo clube grande tinha de pagar para jogar. Então ele falou: “Pega nas tuas coisas e vai embora”. Na minha caminhada fui para um clube do sudeste brasileiro. É um clube menor, mas é muito grande nesse estado. Cheguei para treinar, gostaram de mim e fiquei a morar nas instalações do clube. Mas algumas pessoas ficaram zangadas e começaram a pensar: “Ele vem do Rio e está a ficar com o nosso lugar”. Eu saia lesionado de todos os treinos. Enquanto jovem não ligava muito a isso e continuava a fazer a mesma coisa nos treinos. À tarde lanchávamos e quando sobravam os restos davam-me. Às vezes estava a tomar banho no balneário, eles urinavam para um balde e mandavam sobre mim. Estava a dormir no quarto eles iam lá e davam-me porrada. E isso com o consentimento dos seguranças do clube.

Essa é uma prática comum no futebol brasileiro ou aconteceu apenas com o Emanoel?
Banhos de urina e porrada foram todos dias depois do treino. Tenho outros episódios desse clube, e fiquei com traumas psicológicos. Eles simularam com o segurança que estava a haver um assalto dentro do clube e batiam com os chinelos para simular tiros. Na altura era novo e acreditei que era um assalto. Fiquei muito mal. Depois o presidente perguntou-me se queria continuar e eu disse que assim não ficava. O presidente disse que eu tinha um talento acima da média, mas não me garantia proteção, então voltei para o Rio.

Isto é uma realidade nova no mundo do futebol, ou já acontece há algum tempo?
Que eu conhecesse não. Tinham por hábito rapar o cabelo, depilar os jogadores e mandar ovos podres. Isso são praxes que existe, mas como sou um pouco sério nisso não gosto muito. Também fazem o ‘corredor polaco’: os jogadores formam fila do lado esquerdo e direito e dão porrada a quem passar no corredor. Na época do Pelé essas praxes eram normais, agora nos anos 90 eram mais complicados. Essas praxes até vão contra o futebol brasileiro. Se nós pensarmos que essa geração do Brasil é a mais fraca dos últimos 50 anos em termos de habilidade.

Não é comum os jogadores escreverem livros. Não será essa a razão para o silêncio do que o Emanoel relata nesta obra?
Esta oportunidade é importante, mas não é só pelo livro. É por uma geração que está a ser construída e destruída. Construída da forma errada e destruída em termos de talento que passaram 10% do que passei e desistiram. A pessoa que leva com um banho de urina, apanha porrada, sustos provocados pelos seguranças do clube, sofre assédio sexual com 14 anos… Se não tivesse uma cabeça e um psicológico bom… [Mas pensei]: Tudo o que gerasse alguma coisa que pudesse corromper ou vender-me eu não o faria. Houve uma altura em que estava num clube e queriam que eu mudasse a minha idade para ir para a China. Diziam que ia ser um Zico lá e perguntei o que tinha de fazer para ir. Na altura tinha 17 anos e queriam que mudasse a idade para 15, diziam que “passava fácil” porque sempre tive cara de novo. E eu disse “Estou fora, não dá para fazer”.

“Quando as pessoas me viam a jogar tinham dois parâmetros: Zico e o outro era o Zidane”

Qual foi o receio que teve?
Hoje em dia não sei se faria isso ou não porque quando uma pessoa é penalizada fica um ano sem jogar. Talvez tenha perdido algumas oportunidades por ser honesto demais. Pago um preço pela honestidade.

Em que momento é que a carreira ficou para trás?
Quando cheguei aos 26 anos, no meu auge, já tinha passado por muitos clubes do Rio, outros clubes do Sudeste. E houve um clube em que fiquei muito dececionado e tive muitos problemas por causa da minha fé. Uma das pessoas do clube disse que não se comemoram golos para pessoas que não existem.

O que é que queria dizer com isto?
Ele disse que não podia comemorar o golo a Deus. Eu sou cristão, respeito todas as religiões, mas só que ele como ateu não me respeitou. E disse que não podia fazer isso.

E foi neste momento que saiu?
Foi um clube em que passei dificuldades, cheguei a processá-los, mas perdi (o caso na Justiça). Cheguei como uma grande contratação e todos os jornais de lá deram-me um destaque. Quando ele viu que não ia desistir por causa da minha fé, fazia as piores coisas comigo. [Exemplo]: Todos treinavam durante um período das manhã, eu treinava às três.

Isto está relatado no livro?
Está por partes. Eu lembro-me que entre 20 e 30 dias tomei, mais ou menos, 38 medicações via oral para suportar a dor e 28 injeções.

Quando olha para trás o que acha que foi a carreira de futebolista?
No livro eu conto que há um colega que se sente muito magoado comigo e que disputa a Liga dos Campeões. Temos uma diferença de idade e quando era mais novo o pai dele dizia para não ir para a minha zona (de jogo) porque era muito habilidoso. Quando as pessoas me viam a jogar tinham dois parâmetros: Zico e o outro era o Zidane. No primeiro lance ele veio e marquei um golo. No segundo também fiz golo. No terceiro passei com a bola debaixo das pernas e foi golo. Quando o rapaz veio para o Brasil estava no mesmo condomínio que eu, fui falar com ele e ignorou-me. Não percebi porque é que o rapaz por quem eu torcia, e que hoje é um grande profissional, ficou chateado por eu ter feito as minhas jogadas.

O livro tem quase 60 páginas, quanto tempo levou para escrevê-lo?
Eu escrevi o livro numa fase muito difícil porque o ano passado podia ter morrido duas vezes. Eu tive Covid-19 e depois tive cancro. Deus não quis que eu morresse. Foi uma altura complicada. Depois consegui que fosse operado, mas se não fosse a operação tinha morrido.

Este livro foi escrito depois dessa situação?
Escrevi o livro quando soube que tinha cancro. Pensei, se eu morrer o livro vai estar pronto [risos].

Quanto tempo levou para escrever o livro?
Eu queria ter escrito o livro entre 2004 e 2006, e cheguei a começar a escrevê-lo. Até 2010 tinha escrito 30 páginas, e depois num só dia escrevi as outras 30.

Como é que compôs este livro?
Está por capítulos. O livro era para ser maior, mas como tinha medo de morrer do cancro pensei vou lançar este e depois escrevo a segunda parte, o fim. O segundo livro, provavelmente, vai ter 160 páginas porque vou aprofundar os clubes em que joguei no estrangeiro. Eu morei em vários bairros, pego na situação de cada bairro em que morei
e assim as pessoas vão perceber quais os clubes em que passei.

Teve ajuda de alguém para escrever este livro?
Não tive ajuda de ninguém. Escrevi o livro durante uma situação difícil. É um livro que me orgulha porque (embora) as pessoas vão julgar pelo tamanho, mas o conteúdo que está lá dentro é o mais importante.

Quando é que acabou de escrever o livro?
Terminei o ano passado. Lancei o livro de forma virtual porque fui ter com várias editoras e todas disseram ‘não’. E neste momento estou a pagar o livro. Eu parcelei o valor do livro num cartão, porque lançar um livro no Brasil é caro. Paguei para editarem o meu livro.

Essa é uma prática corrente no Brasil?
Vou dar um exemplo. Elymar Santos é um grande artista e ele nunca vencia, cantava muito mas nunca vencia. Alugou um espaço, convidou muitas pessoas e ficou muito famoso. É o que estou a fazer agora. Outra coisa que as pessoas não sabem é que sou compositor e tenho 300 músicas escritas e 274 registadas.

Quando é que pensa lançá-las?
Aqui no Brasil é complicado. Por exemplo as coisas que fazem sucesso no Youtube são coisas infantis. Quando há um conteúdo de jornalismo, direito ou estudo as pessoas não vêem. Houve uma altura em que eu fiz com um amigo meu, mas arrependi-me. Gravamos numa editora muito grande aqui no Brasil e por ter morado fora tenho músicas em espanhol. Fizemos 15 funks e 12 eram em espanhol. Ele gostou muito, mas depois parece que perdeu o encanto. Aqui no Brasil tem de ter uma música que não gosto de fazer, gozar com a mulher, humilhar. Tenho valores que não me permitem
fazer isso. Eu não vou desvalorizar a mulher nem gozar. Eu escrevo sobre tudo. Falo sobre o amor, paz e felicidade. Eu não me vendo para fazer uma coisa boa para tocar.

O livro está a ser vendido apenas no Brasil ou também em outras partes do mundo?
Depois da entrevista vai estar disponível no mundo inteiro [risos].

Tem tido bons resultados?

Sim, mas temos de ter em conta que estamos numa pandemia. Em média, 80% a 85% dos brasileiros lê 1 a 2 livros por ano [risos]. Eu em média leio 30 livros por ano.

Qual é o futuro do Emanoel?
Eu tenho um curso de treinador e inspirei-me muito no Jorge Jesus que esteve aqui no Brasil. Já fui treinador de futebol dos mais novos. Se me derem uma oportunidade eu vou chegar longe.

Isso passa por emigrar?
Sim, passa. Há dois países pelos quais tenho muito carinho e gostaria de aprender com eles: Portugal e Chile. O treinador português está anos-luz à frente do treinador brasileiro. (MM)

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