Entrevista: “Guiné-Bissau tem uma classe política falhada”- sociólogo Tamilton Teixeira

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Presidente guineense Umaro Sissoco. FOTO: Presidência da República de Portugal ©️

Redação

O Presidente da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló, efetuou, na última semana, a sua primeira visita oficial a Portugal, onde apelou a união entre todos os guineenses, numa altura em que comunidade internacional dá mostras de reconhecimento do novo chefe de Estado guineense, que foi recebido também na sede da CPLP.

Será esta a condição para a diáspora regressar ao país tal como aconteceu em 2014?, questionou o jornal É@GORA ao sociólogo e analista político guineense Tamilton Teixeira, residente em Lisboa. A resposta a essa pergunta foi dada numa entrevista em que o académico falou sobretudo do futuro daquele país lusófono africano.

As várias crises políticas na Guiné-Bissau obrigaram muitos guineenses a ficar cá, mas sempre com a vontade de regressar. Com Sissoco é possível falar de regresso? Muitos passam por sérias dificuldades em Portugal.

Uma das coisas que podemos falar sempre sobre a Guiné-Bissau é a (palavra) esperança. Mas é uma esperança em relação a quem? Eu não vejo um solucionar da questão do problema nem com o Umaro Sissoco agora, nem depois de Sissoco. O problema que nós temos na GB é muito  mais profundo do que o que se coloca por aí. Nós vamos perguntar: porque é que uma senhora de 60/70 anos prefere acordar cinco ou seis horas da manhã para ir trabalhar na limpeza (na casa de outrem) do que estar no próprio país? É que por mais que tenha essa idade, consegue sustentar uma ou três famílias. Por que um jovem  com uma formação superior de qualidade prefere trabalhar na obra, em café, ou como segurança? São perguntas que (no fundo) são respostas. Guiné-Bissau tinha um projeto de Estado, de facto, e falhou de acordo e com o tempo que foi sofrendo vários golpes. Não só golpe militar como também daquilo que foi o próprio projeto de Estado. E chegou um momento em que o Estado faliu, simplesmente. Não digo que é um Estado falhado. Não, não concordo com essa terminologia. O Estado faliu porque se esvaziou dos recursos e capacidades de fazer face aos seus desafios. E a GB em termos de capacidade de recursos humanos, ao contrário daquilo que se diz, eu acredito ter recursos humanos suficientes para alavancar e catapultar o país a um patamar muito bom. O que tem faltado é a falha, propriamente das sucessivas elites políticas e grupos políticos que não têm tido uma certa inteligência política em  separar algumas coisas. Porque eu venho uma sociologia muito subversiva, de Esquerda  do Brasil – e sou obrigado a analisar estas coisas. Na Guiné-Bissau nós somos muito propensos a levar as questões domésticas para o espaço público e político. Isso ainda não está a ser colocado como um dos problemas na Guiné. Nós costumamos falar da Constituição, das ideias políticas e (das ideologias) de Esquerda ou Direita, mas o problema da Guiné-Bissau não é nada disso. Vamos ver na Guiné-Bissau o revanchismo. Eu posso até dizer uma certa inveja, quando vamos ver que as pessoas que pertencem à mesma geração (hoje) são quadros, frequentaram as mesmas escolas e transformaram-se como inimigos mortais. Nem sequer conseguem tratar-se com uma certa cordialidade (e pensar): vamos ter opiniões divergentes, vamos divergir sobre Economia, diplomacia, sustentabilidade, como a questão do género. Mas é uma divergência com relação àquilo que são agendas do país.

E são estes os fatores que impedem o regresso?

Sociólogo guineense Tamilton Teixeira
Sim, faz parte, pois vemos que muitos quadros regressaram com alguma esperança em 2014. Acreditaram que era a hora, que o país iria retomar e que ninguém ia ousar derrubar os governos sucessivamente e que talvez os políticos passariam a ter um certo respeito pela vontade popular expressa nas urnas. E acabamos por ver que os políticos guineenses são muito mais ousados do que aquilo que se acredita e se pensa. Eu sempre digo: quando nós derrubamos um governo, não estamos apenas a derrubar o governo e o seu primeiro-ministro. Estamos a derrubar a vontade da maioria da população expressa nas urnas. Portanto, eu tenho que estar muito preparado e ciente de que estou a tomar uma decisão contra a maioria da população, pelo que eu tenho que estar em condições de apresentar argumentos e elementos suficientes de convencer essa população sobre as razões de derrube deste governo (que elegeu). Não é derrubar o governo e voltar-se para casa e quando se pergunta por que deste ato e dizer: ´é porque nós não nos estamos a dar bem`. Nós não colocamos dirigentes para lidar do ponto de vista amistoso. É para decidir sobre agenda do país, sobre o destino e futuro do país. Isso não acontece na Guiné-Bissau. 

Reina a incerteza…

Reina a incerteza por conta daquilo que é a incapacidade de resolver aquilo que os políticos guineenses têm. Por isso que eu sempre digo que o problema da Guiné-Bissau não vai ser como se costuma colocar falsamente: a Constituição da República, o tipo de regime – se é presidencialismo, ou semipresidencialismo. Não é isso. Na Guiné-Bissau nós podemos trazer a Constituição do país mais pacífico do mundo, talvez da Islândia, ou do Butão. Podemos trazer o regime que achamos muito mais justo em termos políticos e até levar para Guiné-Bissau o modelo britânico do parlamento. O problema é que vai contar com os mesmos atores e protagonistas políticos.

Como lidar com essa situação?

Portanto, é difícil acreditar que com a atual classe política guineense, na sua maioria, se pode convencer a diáspora guineense a regressar. É impossível. A Guiné-Bissau perde muito por pouco, como costumo dizer: todas as instituições internacionais têm guineenses e dão provas de (capacidade) nos cargos que ocupam, pois são cargos de alto relevo e de importância. Por que esses guineenses, que já passaram na Função Pública guineense, não dão certo lá (no país) e quando vão para os organismos internacionais dão certo nas universidades como professores universitários, médicos, como especialistas de desenvolvimento, como agentes de várias áreas que atuam nos organismos internacionais. O problema está no próprio modus operandi e faciendi que temos na Guiné-Bissau. É isso tem que ser alterado. Isso tem que pertencer a uma nova geração de guineenses. É preciso gerar um novo tipo de pensamento  de privilegiar o Estado. Olhar para aquilo que os nossos vizinhos – como o Senegal  e Gâmbia – estão a fazer e perceber que nós temos que se nós continuarmos nessa luta inglória a Guiné-Bissau só vai perder e muito. Este é um país que não foi feito para perder quando olhamos para a forma como Amílcar Cabral trabalhou toda a diplomacia política e militar para fundar o país. Não há razões para a GB estar na situação em que está hoje, se não se for justificado propriamente pelo falhanço da sua classe política. Prefiro dizer que Guiné-Bissau tem uma classe política falhada, mas a Guiné-Bissau não é um Estado falhado. (X)

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