Entrevista: Haverá uma espécie de “Nova Ordem Mundial“ na Moda após Covid-19 – Consultora de Imagem Sona Fati

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Consultora de Imagem , Sona Fati

A Consultora de Imagem, Sona Fati, faz uma análise atual e prospetiva do Covid-19, na qual fala das semanas de Moda nas grandes cidades europeias, incluindo Lisboa, onde muitos desfiles foram cancelados, do contributo dos designers de grandes marcas ocidentais e do contexto africano na produção de máscaras neste momento da pandemia que está a assolar o mundo. Numa entrevista ao jornal É@GORA, a imigrante luso-guineense formada em Gestão de Empresas lembra que, no pós Covid, a forma de comunicar a Moda ao consumidor jamais será a mesma, até porque neste setor também haverá uma espécie de “Nova Ordem Mundial“.


O que vai acontecer com a Moda? O que a Moda está a fazer neste momento de pandemia que estamos a atravessar?

Neste momento, a Moda tem estado em silêncio. É curioso. Mas o silêncio também justifica-se: as lojas estão fechadas, algumas fábricas não estão a trabalhar no seu pleno. O consumo de produtos que a indústria fabrica não é essencial para esta fase que o mundo está a passar. O mercado E-commerce é única alternativa de momento que as marcas que estão presentes neste tipo de plataforma têm para se manterem conectados com os seus clientes e, por ventura, fazer alguma venda.

Desfiles…

Esta seria uma época por excelência – aliás, deste o início de março – das semanas de Moda nas grandes capitais europeias e algumas africanas. Mas muitos desfiles foram cancelados. Em Portugal, a Moda Lisboa ainda foi a tempo, conseguiu realizar a sua edição de 2020, mas o Portugal Fashion, por exemplo, teve bastante condicionamentos. O Afro Fashionweek Lisboa, que deveria ter acontecido no dia 04 de abril, foi cancelado. A Moda Milão aconteceu a porta fechada, pelo menos, boa parte dela. Toda essa situação de Covid-19 condicionou bastante a indústria da Moda em toda a sua vertente. Se, por um lado, a Moda está em silêncio neste momento em que a pandemia está em grande escala, por outro, ela não está inativa. As grandes marcas de luxo têm estado muito colaborativas e bastante solidárias com todo o processo para ajudar a travar o Covid-19. Por exemplo, há marcas de luxo que cederam as suas fábricas para produzir materiais de proteção, enquanto outras estão a contribuir com valores monetários para ajudar na investigação da descoberta de vacina, ou algum tipo de medicamento contra o Covid-19. Cada uma está a contribuir da forma como pode para ajudar a travar toda essa situação maléfica que a Humanidade no seu todo está a passar.
Das marcas que eu me recordo agora de momento – com base em tudo que foi veiculado noutros meios de comunicação -, a Bvlgari, a Christian Dior, a Louis Vuitton também estão a contribuir, dentro das suas possibilidades, para ajudar a combater essa pandemia.

E a diáspora?

Relativamente à nossa diáspora e contexto africano, o que sei é que, por exemplo, na Guiné-Bissau, as produções da marca Fashion Canté, que é do Designer Alfa Canté, cuja produção é toda feita na Guiné-Bissau, porém, a marca tem produtos e representação cá em Portugal, também pararam. No entanto, a marca está a produzir máscaras para distribuir pela população. Quando falei com o Designer Alfa Canté, ele disse-me que parte da produção que tinha feito nessa semana que terminou se destinava aos guardas de estabelecimentos prisionais.
De marcas africanas, o Fashion Canté é uma marca que está presente em Portugal. Como se pode verificar, apesar de a Moda ter sido afetada, não está imune, como todos outros setores de produção a nível mundial também não estão imunes a essa infelicidade que o mundo está a passar.

Essa é uma realidade que nos leva a questionar: e depois do Covid-19, o que será desta indústria?

Ao contrário do que as pessoas pensam, a Moda não é uma área fútil, a Moda não tem nada de futilidade. Talvez a sua forma de comunicar, que é muito em volta do glamour, da beleza e do belo, pode confundir as pessoas a pensarem que a Moda é fútil, mas não é. A Moda é uma grande indústria que emprega muitas pessoas. Ela está segmentada por diversas áreas, desde a indústria têxtil, ao `merchandising, o vestuário, ou calçado, os acessórios, tudo isso são uma série de áreas que pertencem a indústria da Moda. Portanto, a Moda é uma indústria que ocupa uma fatia muito importante na economia de cada país. E isso a indústria têxtil portuguesa poderá testemunhar muito bem.
Mas respondendo à questão do depois do Covid-19, o que será da Moda, creio que, como todos as outras indústrias, haverá segmentos que se vão manter na mesma, nomeadamente, o segmento de luxo, porque é muito bem estruturado e tem o seu ´target` muito bem definido. O luxo tem a particularidade de servir um consumidor que gosta de distinção, autenticidade, singularidade. Portanto, o luxo é um segmento que tem clientes muito fiéis e tem a capacidade e também sabe comportar-se muito bem em momentos de grandes crises. Talvez por isso quando as crises passam a sua credibilidade nunca é beliscada. Ela se mantém. O segmento de luxo já tinha intrínseco em si a questão da responsabilidade ambiental, social e do cuidado do consumidor para com o consumidor. Naturalmente, é um segmento que também exige isso porque o luxo serve uma parte de clientes que têm um poder de compra brutal, que não se importa de pagar para serem muito bem servidos. Portanto, é um segmento que eu penso que não poderá sofrer grandes alterações.

A imigrante luso-guineense e autora do blog “Notes de Beauté”

E a forma de comunicar a Moda será a mesma?

Acredito que, numa fase inicial, poderá sair influenciada de tudo isso, até porque é um segmento que não está de todo inativo neste momento, pois está a contribuir bastante para ajudar que toda essa situação seja resolvida. Vamos ver se depois do Covid-19 será uma área que vai tirar partido dessa sua contribuição, ou se simplesmente vai passar à frente e focar-se no seu reposicionamento no mercado. Mas iremos ver depois do Covid.
Relativamente aos restantes segmentos da Moda, penso que no pós Covid vão ter que tirar aqui algumas ilações, sob pena de não terem o retorno que depois esperam do consumidor principalmente, numa fase inicial. Primeiro, porque o consumidor vai perder o poder de compra. Sabemos que em qualquer momento de crise os oportunismos nunca falham. Mesmo que, no melhor cenário, os empregos sejam todos mantidos, a primeira reação das pessoas no pós Covid não irá estar direcionada para o consumo daquilo que a Moda produz. Penso que as marcas de ´fast-fashion` vão ter que perceber que é necessário se conectarem e mostrarem ao consumidor a sua responsabilidade e qual o seu papel no mundo porque com tudo isso percebemos que não estamos especificamente num determinado país. Nós estamos num local que é o mundo. A globalização colocou-nos nessa posição. Por isso, nesse aspeto, as marcas têm de ter uma outra forma de se comunicar com o consumidor.

Haverá uma espécie de “Nova Ordem Mundial “ na Moda?

Sim. Este é o momento que as marcas têm para provarem aos consumidores o seu grau de responsabilidade, o seu grau de interesse pelo ambiente, pelas pessoas, equilibrando, naturalmente, com aquilo que é o seu papel, que é o negócio. Nenhuma marca existe para ser simplesmente solidária. Não. As marcas existem para fazerem dinheiro, para pagarem os seus colaboradores, para terem lucros. Mas o grande equilíbrio aqui com o pós Covid é conciliar toda essa sua função, aquilo que é o seu ´core-business`, com interesse pelas pessoas, porque as marcas existem para as pessoas, e as marcas vão precisar demonstrar isso: que existem para as pessoas e o meio ambiente que as pessoas precisam. Então, todos nós – marcas e consumidores – vamos ter necessidade de olhar para este conjunto no seu todo. Não poderá ser só comunicação de estímulo ao consumo. Numa fase inicial no pós Covid eu acredito que os consumidores não vão aceitar isso.

Qual o papel do consumidor?

Em todo esse binómio, o consumidor – talvez pela comunicação e a pressão das marcas – sente-se um elemento menor, mas não é. Ele é um elemento fundamental. Mesmo sendo um elemento final, o poder de avançar para a compra ou não é seu, pelo que a sua responsabilidade vai estar patente no pós Covid.
O consumidor, muitas vezes, pensa que é instrumentalizado. Claramente que sim, é manipulado e instrumentalizado. Mas, por outro lado, a decisão final de chegar e comprar não é das marcas. É do consumidor. Aliás, antes do Covid-19 havia sensibilizações para o consumo consciente, que, no fundo, é tentar reduzir o hábito de não comprar só por comprar. E nessa matéria, o vestuário é muito visado. Portanto, acredito que, no pós Covid, essa campanha vai intensificar muito mais. E aí cabe a cada um mais uma vez ter a responsabilidade – como neste momento do Covid cabe a cada um ter a responsabilidade de cumprir aquilo que as autoridades nos estão a pedir para fazermos -, para ajudar a minimizar essa propagação. No pós Covid cabe a cada consumidor e a sua consciência saber a forma como deve continuar a consumir. Penso que o consumidor também deverá estar atento às marcas que demonstram que têm interesse por nós como consumidores e que têm interesse também pelo ambiente em que vivemos.
Vou dar exemplo de uma notícia que saiu na quinta-feira no jornal The Guardian que falava de uma marca de ´fast fashion`. Como sabe, grande parte das grandes dos produtos das marcas de ´fast fashion` são feitos nos países subdesenvolvidos. Esta marca da indústria `fast fashion` tinha as suas encomendas feitas muito antes do Covid-19 acontecer. Entretanto, com a evolução do Covid a marca decide cancelar a sua encomenda, resta saber se de forma unilateral ou não. Então me questiono: eu como consumidora e Consultora de Imagem qual vai ser o meu pensamento e a minha relação com uma marca que tenha uma atitude deste género? Primeiro, como consumidora, eu deixarei de consumir os produtos desta marca, porque essa é uma marca que não tem respeito pelo seu parceiro de negócio. É uma marca que não interessa, pois não tem sentido de solidariedade. A credibilidade de uma marca para com os seus colaboradores, consumidor e para com o ambiente não se deve notar só no momento bom, porque aí é fácil. Não é desafiante. Ela deve ser demonstrada também nos momentos menos bons. E o mundo todo, sem exceção, está a atravessar um momento muito mau. Portanto, como consumidora, a minha relação com essa marca teria fim. Como Consultora de Imagem, eu não aconselharia um cliente meu a fazer compras dessa marca. (TS)

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