Entrevista Isabel Novella: “Eu não sei se existe uma palavra para descrever” o drama de Cabo Delgado

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Manuel Matola

Oração por Cabo Delgado – Oração pelo Mundo é o novo single do da cantora moçambicana Isabel Novella, que estreia esta sexta-feira como um grito de fé pelo drama humano que se vive no Norte de Moçambique onde, desde 2017, a população tem sido assolada por ataques de grupos armados da rede `jihadista’ Estado Islâmico.
Em entrevista ao jornal É@GORA, Isabel Novella, que também está a ensinar música à crianças imigrantes e afrodescentes no Jardim de Infância da Associação UNIDOS, fala do single como o “pontapé de saída” para o lançamento do terceiro álbum, depois do disco “Metamorfose”, produzido em 2019 e com o qual foi nomeada para os South African Music Awards (SAMA), ter sido tramado pela Covid-19. A nova música da artista do jazz é um cruzamento de ritmos e melodias da zona norte de Moçambique. Objetivo: chamar atenção para a realidade que se vive em Cabo Delgado e noutros lugares do mundo que neste momento estão a passar por momentos difíceis devido a atos terroristas, a guerras, bem como a pandemia da Covid-19.

Há alguma razão para a escolha deste título “Oração” para o single?
Sim. Passamos um ano complicado em 2020 devido à pandemia e temos também agora a situação de Cabo Delgado. Para nós que estamos distantes e mesmo para os que estão em Moçambique é difícil dar uma mão ou talvez saber o que fazer para melhorar a situaçºao do país, pelo que a muitos de nós a opção que temos é fazer uma oração a Deus ou àquele ser em quem acreditamos. Neste momento, também temos a questão de Israel. Acho que necessitamos sempre de fazer uma oração para suplicar para que as coisas melhorem em todo o mundo.

A melodia da música seria algum sinal de mudança de Isabel Novella em termos de ritmo: do jazz para o Gospel?
Nem por isso. Primeiro eu fui buscar um ritmo que é do norte de Moçambique, o Tufu, que é de Nampula. A província representa a região norte de Moçambique que é onde está também Cabo Delgado. Então, a opção foi criar uma música com algo que represente o norte de Moçambique que é para trazer também um pouco da cultura que é feita em Moçambique, neste caso, no norte onde há agora estes ataques. É para trazer os seus ritmos e a sua cultura. Eu não fujo muito àquilo que sou, aquele que é o meu ritmo e do que gosto de fazer, mas foi uma música feita a pensar em trazer essa fusão dos ritmos moçambicanos – o tufu com todas as influências que eu já tenho do Jazz, da música brasileira. Quisemos trazer uma coisa simples. Trabalhei na produção com Isildo Novella, que é meu irmão, baixista e produtor, e foi impressionante ver como as nossas ideias conseguiram casar ao abraçarmos os dois esta causa por ser importante para nós por sermos moçambicanos e dar aquilo que é o nosso contributo. Nós fazemos arte e essa é a nossa forma de dar a nossa voz para uma causa. E isso é através da música.

Esse cruzamento de vozes que deu origem à música foi feito presencial ou virtualmente?
Neste momento é no “novo normal”, porque não tenho estado a fazer muitas viagens, mas conseguimos fazer isso a distância que é ainda mais interessante porque mesmo estando distante conseguimos criar algo que os dois estamos orgulhosos e que vai de acordo com aquilo que eu queria sendo eu autora da música. Ele conseguiu perceber onde eu queria chegar.

E quanto tempo levou a produção da música?
No ano passado levei a música para o programa Conversas ao Sul (da RTP-África), ainda não tinha sido toda ela produzida, mas depois durante o isolamente fui trabalhando um bocado mais, sobretudo, a melodia. E com a entrada do meu irmão, levamos dois a três meses para termos a música toda estruturada. Depois, o processo foi ir atrás dos músicos que pudessem dar aquilo que nós necessitávamos. É impressionante que conseguimos ter pessoas que estavam distante – na Dinamarca – e que de uma forma natural trouxeram a sua experiência mas casou perfeitamente com a música e foi de encontro com aquilo que queríamos. Estamos os dois muito orgulhosos pela “Oração”.

É o início do lançamento do álbum?
(Risos). Sim, este é o pontapé de saída daquilo que vai ser o terceiro álbum. Infelizmente com a questão da pandemia o meu segundo álbum “Metamorfose” ficou meio parado. Foi lançado em 2019 mas depois no ano passado era suposto ter feito eventos e promoção mas não foi possível e agora comecei já a gravar este que vai ser o meu terceiro álbum, que vai ser mais intimista, mais acústico. Mais Isabel Novella, mais a minha voz e comunicação com o público.

E já tem data para o lançamento deste terceiro álbum?
Ainda não (risos). Eu aproveitei o ano passado para começar a compor e tenho estado a trabalhar com Isildo Novella nesse sentido do vai e vem. Assim que eu tiver oportunidade irei à Dinamarca e poderemos adiantar muito daquilo que vai ser o álbum. Agora vamos fazendo assim nesse vai e vem o que atrasa um pouco mais o processo, mas música a música a gente chega lá. Acredito que se não foi final deste ano então no próximo ano terei o álbum todo completo.

Já vi que a questão da Covid-19 criou alguma dinâmica na forma de fazer a música e na forma de estar e de ser. A Isabel tem estado a fazer apenas isso ou há outras atividades paralelas que tem estado a desenvolver aqui em Portugal?
Bom, tenho estado agora a desenvolver mais uma atividade. Juntei-me à UNIDOS, que é uma associação que trabalha com crianças e estou lá a dar um pouco daquilo que eu sei fazer: ensinar crianças algumas músicas e trazer um pouco de alegria. Depois de tudo que a gente passou, sinto que é tempo de eu dar um pouco de mim naquilo que eu sei e gosto de fazer e partilhar com essa associação que faz uma trabalho super importante com crianças imigrantes. Por isso, decidi dar a minha mão e aceitar o convite da (Maria) João (Marques), que é quem trata da organização. É um trabalho super interessante. Eu sempre quis trabalhar com crianças, porque eu comecei a cantar num grupo de crianças, é como que voltar à minha infância e ao mesmo tempo é um trabalho gratificante.

É uma forma de oração?
A gente está sempre a orar, então é uma forma de ensinar as crianças a orar e acreditar em Deus, numa força maior. Para mim a oração não é só dobrar o joelho. É um ato que fazemos em cada gesto. Se vivermos sempre em oração acredito que as coisas melhoram mais rápido.

Tem estado a colaborar com alguns músicos em Portugal ou neste projeto que vai abraçar irá envolver mais pessoas além dos irmãos Novella?
Acredito que sim. Gostava e estou ainda em processo de conversações com alguns músicos, alguns artistas não só em Portugal. Estou também a ver na Dinamarca, que é onde o meu irmão está e já conheço alguns músicos. Então, a ideia é fazer um álbum que seja mais abrangente em termos de participação – não costumo ter muitas -, mas quero desta vez ver se consigo ter mais participações de pessoas que me inspiraram ao longo destes anos todos.

Este cruzamento virtual dos artistas é a melhor forma de fazer música?
Eu acredito que até trouxe uma nova dinâmica. Eu nos outros álbuns já tinha trabalhado assim, então não é algo “novo” para mim porque já tinha trabalhado com músicos que estão distantes e tinha o à vontade de estar a fazer isso. Mas acredito que é uma nova dinâmica e a gente pode colaborar com pessoas que estão do outro lado do mundo sem precisar de ter aquela logística toda e o trabalho sai perfeito. Então, é algo que acredito que daqui para frente isso não vá retroceder. Acredito que vai mesmo continuar a ser feito assim. Claro, sempre que podermos fazer presencialmente melhor, que a energia é outra.

Qual tem sido a reação das pessoas com quem a Isabel tem travado alguma conversa e algum tipo de experiências com relação ao trabalho que está a fazer em Portugal?
Bem, as pessoas têm muita curiosidade, primeiro, porque eu vim cá para estudar. Nos primeiros anos foi mais dedicação à escola, tentar aprender algo que eu vim cá fazer. Mas agora têm tido uma reação positiva, no entanto, as pessoas perguntam sempre pelos concertos porque eu não fiz cá vários concertos, estava mais ligada à escola e agora vou ligar-me mais às crianças. Mas acredito que deste ano em diante é um novo recomeço porque talvez no ano passado que eu tinha planificado fazer mais coisas foi o que foi e agora é momento de começar do zero. Mas não me deixo abater e vou à luta. As pessoas têm estado a pedir concertos, têm curiosidade em conhecer aquilo que é o meu trabalho.

Volto à música Oração e pergunto: como é que a Isabel descreve a situação que está a acontecer em Moçambique?
Eu não sei se existe uma palavra para descrever. Eu sei que já está a acontecer há muitos anos, mas quando a gente não vê ou ouve nada parece que não se passa nada, mas é algo muito triste. Eu tenho uma irmã a viver em Pemba, está lá a trabalhar, e conta-me coisas terríveis sobre as pessoas que estão lá e se refugiaram em Pemba. Ela tem estado a fazer trabalho voluntário para ajudar aquelas pessoas. É uma situação triste. Nós precisamos ter respostas e até agora eu ainda não sei o que está a acontecer exatamente. É triste como moçambicana, como ser humano ver pessoas inocentes a passarem pelo que estão a passar sem uma razão plausível porque não se percebe porquê dessa guerra, se há possibilidade de se resolver ou não. É o que digo: a gente sente-se impontente e o que nos resta é fazer uma oração, pedir que as coisas se encaminhem e melhorem.

Como é que tem estado a acompanhar a vida dos músicos moçambicanos no país, sendo que, para o caso de Portugal e não só, os músicos têm estado a reclamar de falta de apoios? Qual é a realidade de Moçambique que conhece e o que tem sido o seu contato com os demais músicos?
Eu ainda trabalho com muitos músicos moçambicanos e tenho amigos que são colegas também e conversamos muito sobre o que está a acontecer: as dificuldades – sei que são muitas – e acredito que são as mesmas para mim pois estou cá como estrangeira e não como portuguesa, então não tenho direito aos apoios que os artistas de cá têm e mesmo assim os próprios artistas têm estado a reclamar porque não recebem este apoio. Em Moçambique não ouvi falar de algum tipo de apoio. Sei que houve na altura alguns concertos que foram organizados, mas nada que abrangesse toda a classe artística – não falo só de músicos. Não ouvi falar e nada assim em termos de apoio. Vou ouvindo reclamações em conversas que os meus colegas falam. E esse período que eles tiveram que ficar sem tocar, sei que foi muito complicado. As pessoas foram-se reiventando. Tenho colegas que são músicos de palco que agora tiveram que entrar para o estúdio para começar a produzir para outros artistas para poder fazer algum dinheiro para poder se sustentar. Então, acredito que, ironicamente, a arte foi um dos setores que mais sofreu com a pandemia mas que ajudou as pessoas a passarem por este momento difícil: organizaram-se vários concertos e muitas atividades culturais online, o que permitiu com que as pessoas pudessem ter divertimento mesmo estado em casa em confinamente. É um setor que talvez mereça um pouco mais de atenção e apoio porque sem arte acredito que a vida fica um pouco mais triste.

E aí precisamos de Oração?
(Risos) Sempre. Precisamos de Oração até quando estamos felizes. (MM)

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