Entrevista Nayr Faquirá: “O principal objetivo é estar em palco e em estúdio, partilhar e viver da música”

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Nayr Faquirá

Rodrigo Lourenço

“Misturas” é o EP de estreia de Nay Faquirá. Em conversa com o Jornal É @GORA a jovem cantora portuguesa recordou o contacto com as culturas de Moçambique, Índia e Portugal durante a infância. Depois de participar num programa de televisão foi estudar para Londres e ainda recordou as influências que estão na origem do primeiro EP. Isto e muito mais para ler na entrevista em que Nayr garante que “O principal objetivo é estar em palco e em estúdio, partilhar e viver da música”.

A Nayr tem uma mãe portuguesa e um pai moçambicano e ainda tem raízes indianas. Como é que foi crescer com essas misturas de várias culturas?
Eu digo sempre que foi muito enriquecedora, até em termos artísticos ter nascido com diferentes culturas e ter aprendido coisas tão diversas porque isso se reflete um bocado em quem eu sou. O facto de se calhar ter um bocadinho mais a mente aberta se comparado com pessoas que não tiveram mais acesso a vivenciar outras culturas, outras religiões, outtas formas de estar e conhecer outros países. Eu já estive em Moçambique, já estive na Madeira. São mundos muito diferentes mas que para mim e o meu irmão foi uma mais-valia sempre termos tido acesso a essas vários mundos.

E dessas várias que teve acesso houve alguma coisa que puxasse mais para a cultura moçambicana?
Eu sou muito ligada às minhas raízes moçambicanas, africanas porque eu cresci com a família do meu pai. Apesar de ter crescido em Portugal e a maior parte dos meus amigos serem portugueses, culturalmente eu cresci com os meus avós paternos que são moçambicanos – já vieram mais tarde para Portugal -, com os meus tios parternos, minhas primas do lado paterno. Ou seja, eu tive pouca vivência por uma questão de distância com os dos lado da minha mãe. Até gostava de ter tido, mas por vários motivos não tive. Então, eu cresci muito ligada ao meu lado africano, daí também isso se refletir um bocado na minha música. Cresci a ouvir muita música angolana, cabo-verdiana, moçambicana e brasileira, porque na altura os meus avós viam muito a televisão brasileira. Sou muito feliz por ter crescido com a minha família africana, daí ter tido uma ligação tão forte a tudo que sou hoje. Se calhar não teria sido assim se não tivesse os meus avós, os meus tios cá. Se calhar tivesse perdido um bocado esse lado (africano).

Então, a Nayr sente-se um pouco mais africana do que europeia?
Eu não sei porque nunca vivi (em África). Já vivi fora de Portugal mas sempre na Europa. O meu pai costuma dizer: quando passas muito tempo na cultura europeia, sentes que há uma diferença. Por exemplo, eu cresci a comer muito caril tipicamente de famílias moçambicanas que têm raízes indianas. Cresci a comer muito a comida da minha avó. Era a minha avó que me penteava, pois passava fins-de-semana com ela, por isso, de certa forma, cresci muito ligada a essa cultura, mas continuei a viver em Portugal. Ou seja, há certas coisas que eu sei que se estivesse a viver em Moçambique seriam diferentes. Há esse lado que eu não conheço, que é viver em África. Até gostava um dia de viver lá um tempo. E falo muito disso com a minha família, até porque muitas coisas mudaram lá, desde há muitos anos que o meu pai veio para Portugal. Acho que isso é sempre uma diferença: quando tu vives num sítio acabas por adotar certas coisas que mesmo tendo família de fora não adotas porque estás sempre a viver a Europa.


Como já passou tanto tempo e houve tantas mudanças era mais fácil a Nayr se moldar à cultura de Moçambique?
Acho que sim, porque tenho família lá, mas ao mesmo tempo há certas coisas que só estando num país é que tu percebes. Eu estive em Londres, apesar de ser uma cidade de um país europeu, supostamente, com a mesma cultura do dia a dia, a sociedade, os transportes, mesmo assim houve um choque grande para mim. Agora, ir para outro continente, outro tipo de vida, outra forma de estar, outra temperatura, que faz toda diferença, todas essas pequenas coisas moldam muito uma sociedade. Essas pequeninas coisas fazem muita diferença quando estás no sítio.

Antes de ir à Londres. Em 2015, a Nayr pisou o palco “The Voice”. Esse período até chegar ao “The Voice” foi de preparação, ou náo estava de todo a pensar em ser cantora?
O período até chegar ao “The Voice” foi, sem dúvida, o começar de uma carreira até porque eu não sabia se seria profissional, até porque eu estava a estudar Artes Visuais. Eu descartava um bocado a hipótese de fazer música a tempo inteiro. Achava que era um bocado irrealista, mas sempre cantei. Tive aulas de canto, piano, dança. Sempre fui muito ligada às artes e tive possibilidade de estudar isso por causa dos meus pais que sempre me apoiaram muito e achavam que eu tinha um bichinho e promoveram muito isso. Mas só quando cheguei ao “The Voice”, apesar de sido obviamente uma outra bagagem é que me apercebi que estava a começar a preparar-me para a minha carreira. Antes disso, eu tinha o sonho de ir a um programa de televisão, cantar, se calhar, fazer uns concertos, mas era um bocado imatura para perceber se queria aquilo o suficiente ou se era uma fase. Só percebi mesmo por volta dessa altura quando comecei a conhecer pessoas da indústria.

E quando acabou a atuação no “The Voice” saiu com a sensação de que era aquilo que queria fazer para o resto da vida ou ainda estava na fase de indecisão?
Não me lembro do momento exato em que queria mesmo fazer aquilo mas sei que aquela adrenalina toda depois da primeira atuação e saber que muita gente gostava de me ouvir foi um bocadinho: “wow, eu quero fazer isso sempre”. Depois comecei a perceber, à medida que passava várias fases que, mesmo sendo uma pressão um bocadinho tóxica, era uma coisa que valia muito a pena (seguir) todo o processo.

Depois disso, a Nayr foi para Londres tirar uma licenciatura em Música e pós-graduação em Produção. Esse percurso académico foi uma imposição que pôs a si própria, ou foi algo que aconteceu pelo facto de querer saber mais sobre a música?
Eu sempre quis ir para fora. Eu dizia aos meus pais que quando chegasse os 18 anos eu ia embora. Mas só quando cheguei ao “The Voice” é que comecei a perceber que qeria mesmo fazer isso: explorar várias formas de viver da música, porque eu gosto mesmo de música. Não só estar em palco, mas estar em estúdio. Agora dou aulas. Eu estou mesmo ligadoa à música. Eu já sabia que queria estudar música, quando cheguei aos 17, pensei: quero mesmo fazer um curso. Não quer dizer que não vá fazer outra coisa depois, mas acho que agora sou nova e vou mesmo continuar a estudar música. Eu tinha muito o sonho de Londres, porque era perto, mas muito mais aberta, com uma cultura muito rica nas artes, e, quando cheguei aos 18, percebi que para enriquecer enquanto música, pintora e compositora, achei que fazia todo sentido.

E por essa importância que Londres tem em termos de arte e de música, acha que a sua passagem por lá foi essencial?
Os quatro anos que lá estive foram muito enriquecedores a nível artístico, mas não só. Quando tu vais viver para um sítio diferente acabas por beber muito a cultura do país. E quando o país é rico em música, que é aquilo que tu fazes na tua área, é logo uma vantagem gigante. Não só estás a crescer porque estás sozinho – eu fui com a minha melhor amiga – mas mesmo assim mudou a minha rotina, a forma de fazer as coisas, trabalhei. (Cresces) não só a nível pessoal, mas ao nível artístico. É um mundo diferente. Conheces imensas pessoas, tocas as músicas que se calhar eu nunca tinha tocado, como a Bossa Nova, e encontrei tanta coisa que aqui eu não tinha tanto acesso. Eu acho que sair um bocado é muito importante para um artista.

Se a Nayr não tivesse estado lá não fazia a música que faz lá ou tinha encontrado outras ferramentas para estar em contacto com essa cultura?
Nunca sabemos o que teria sido se tivéssemos seguido um caminho diferente, mas acho que, se calhar, não tinha crescido tanto e não tivesse ficado à procura se continuasse cá. Muito provavelmente não teria ido para uma faculdade de música, teria seguido Artes Visuais e feito música em paralelo. Ou seja, não teria estado quatro anos só a fazer ou a estudar e tocar música. Por isso, isso moldou muito aquilo que é a música que eu faço agora. Acho que não teria sido o mesmo, se tivesse ficado cá.

E agora com a pandemia, a Nayr não pisa um palco desde dezembro de 2019. E em termo de palcos, quais foram os que pisou até agora?
Comecei a fazer certos concertos em Mem Martins (Sintra), onde em sempre morei até há pouco tempo. Tinha 9 anos quando comecei, mas eram concertos pequeninos, com a minha escola de música na altura com o meu professor, que era Filipe Neves, que fazia vários eventos. E desde aí fiz o (Centro Cultural) Olga Cadaval, Casino de Estoril, que foram os palcos maiores que fiz quando era mais nova e, a partir daí, na altura do “The Voice” foiquando volteri a estar mais presente na música. Fiz algumas coisas mas maioritariamente em Londres. Tive o meu primeiro concerto aqui em dezembro de 2019, que foi o último antes da pandemia, que era quando estava a começar a tocar cá, no Porto, e desde aí nada. Tinha um concerto marcado em Lisboa, em março de 2020, na altura em que ficamos em casa, e agora espero puder fazer mais palcos maiores.

Uma outra embalagem e estaleca para quando levava a música mais a sério ter já um conforto maior?
Sem dúvida. Acho que estar exposta à competição desde cedo fez com que quando comecei a fazer música a nível profissional já não tivesse que enfrentar essa barreira. Já estava habituada em estar em palco. Ajudou-me imenso. Já não tinha este tipo de pressão.

Depois desta bagagem toda, olhar para o palco foi algo intimidador ou natural?
No início intimidava-me imenso, pois é normal quando-se tem tem 10 anos. Não és maduro o suficiente para entender isso, pois era aquela pressão de ter muito a gente a julgar, Mas como ainda tive alguns anos a fazer vários eventos pequeninos, habituei-me muito a estar em palco. Acho que era o momento em que eu desligava um bocado. E continua a ser o que eu consigo me expressar sem medo. À medida que o tempo foi passando tornou-se algo muito natural e terapêutico.

O palco é o local onde a Nayr se abstrai de tudo e se foca naquilo que realmente importa?
Sim. O palco e estar em estúdio. Gostou muito de estar em estudio (é um local que) ou gostas ou não. Para mim é um momento de muita abstração. Estou muito livre quando estou em palco.

A capa do EP foi quando a Nayr era mais nova. Essa escolha de fotografia é quase como este é o primeiro bebé
Sim, Lembro-me, em pequena, que eu tinha presente muita vertente das artes: pintava imenso, lia e escrevia estórias, músicas. Não sabia que estava a escrever músicas, mas escrevia muitas coisas. Eu adorava criar. Sempre fui uma criança muito criativa. Comecei desde muito cedo a demonstrar tendências para as artes. Não tinha muita paciência para matermática, ciências. Não tinha jeito sequer. Quando falei com minha melhor amiga sobre a capapensamos nessa ideia do que veio do berço até porque é o primeio bebé. Muitos artistas fazem – que é a ideia de trazer fotos deles em bebé – para mostrar o começo. A minha origem já é um bocadinho antiga.

Desde essa origem o R&B Soul sempre esteve presente?
Além da música africana e brasileira, eu também ouvia imenso R&B, Soul, Hip-Hop. Os meus pais também ouviam muito. Acho que está muito presente na forma como eu canto, componho, que é aquela onda muito 90`s, Destiny Child. Mesmo Hip-Hop era muito old school, tipo 2Pac, por causa dos meus pais. Já desde muito cedo consumia muito o R&B, até um bocado exaustivo, mas eu ouvia muito R&B e Hip-Hop. Agora ouçou coisas um bocado mais diferentes, pois tenho que abrir os horizontes nesse sentido.

E esse consumo nota-se no EP ou deste um toque mais Nayr?
Tento sempre dar um toque mais Nayr principalmente na música com o Valete, por exemplo, acho que se nota muito. É uma música que reverte muito para os 90’s, é a melhor forma que tenho de descrever. O “Não Penses Nisso” tem muito esse lado de New Jack Swing que se consumia muito na América na altura, as TLC, Janeth Jackson.

A Nayr refere que ouvia vários artistas. Quando estava a fazer o EP teve a tentação de imitar e buscar algumas referências a esses artistas?
Acho que quando fiz o EP já nem estava a pensar nisso porque estava muito intrínseco na forma de fazer música. E, na altura estava em Londres, desde que comecei a escrever, e um processo muito de auto-conhecimento para perceber o que queria dizer, como queria perceber a minha sonoridade. Por isso, quando fui fazer música, apesar de estar sempre a descobrir – é um processo contínuo – ja tinha isso muito presente. Não foi algo que tenha descoberto, pois já tinha percebido. Mas, de qualquer forma, quando estás a fazer música com outros músicos – por exemplo com Valete – tentas sempre deixar a tua cunha para fundir as duas coisas sem perderes a identidade. Eu tenho muito presente isso quando canto. É como eu gosto que soem as coisas, como faz sentido para mim. Por isso eu continuo a ouvir muito R&B, 90`s. Acho que é o que eu mais ouço sem ser música africana e portuguesa.

E esse processo contínuo leva a que agora que o EP já está lançado olhe para trás e pense: se calhar devia ter feito isso desta forma, ou mudavas alguma coisa no teu EP?
No fim da criação do EP e início da promoção, comecei a ter algumas dúvidas, inclusive, pensei em tirar uma ou outra múscia do EP, mas depois cheguei a conclusão de que se aquilo fez sentido assim na altura – até porque nós artistas nunca estamos satisfeitos com nada e pensamos que poderia estar sempre melhor, há infinitas possibilidades de como poderia ser a música – não quis mexer. (Na altura pensei): se a música tinha ficado assim – até porque todas foram feitas em momentos diferentes – era porque tinha de ser. Obviamente que vamos sempre melhorar, vamos sempre crescendo à primeira EP. E, obviamente, por ser o primeiro EP eu não quis que perdesse essa essência. Quando eu comecei a criar as músicas, uma a uma, cada uma delas tinha um sentido, uma linha de pensamento. Estar a mudar algumas dois anos depois, para mim, era um bocado perder a essência daquilo que foi a música no momento, ou representava. Claro que tinha isso na cabeça, mas não deixava que isso influenciasse muito no EP.


Enão, cada música é um marco que representa um momento da carreira?
Exato, da minha vida. Por exemplo, a última – Misturas – já foi feita este ano. Ou seja, acabou por surgir muito recentemente, enquanto que a penúltima – A Balada – em inglês, foi em 2018, na altura em que comecei a tocar ao vivo. É a música mais orgânica que toquei com a minha banda. Por isso, todas elas fazem parte de momentos muito diferentes da minha vida. Algumas na pandemia, outras em alturas em que eu estava a tocar e a fazer montes de coisas, por isso, faz sentido serem diferentes.

Depois do EP lançado no início de carreira qual é o maior objetivo?
Sem dúvida é fazer música até não querer. E vejo isso bem longe. É viver da música, seja a dar aulas, como estou a dar, ous estar em palco. Para mim, o principal objetivo é estar em palco e em estúdio, partilhar e viver da música. Acho que todos nós os artistas temos muito esse objetivo – viver da nossa arte. Enquanto eu puder fazer isso sempre, estou feliz.

Ter a música 24h por dia, sete dias por semana, durante os 12 meses do ano, indenpendentemente da forma mas a música estar presente?
Exato, a música estar presente independentemente da forma mas é estar presente. Se puder fazer música todos os dias e não ter que fazer nada… (RL)

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