Entrevista: O álbum “´Kai Filhos Do Mar` é um mergulho do rock ao jazz” – Irina Vasconcelos

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FOTO: IrinaVasconcelos WorkArt ©

Manuel Matola

A cantora Irina Vasconcelos acaba de lançar um novo álbum: “Kai Filhos Do Mar”. O disco aborda questões que passam pelo amor, respeito, família, união entre os povos africanos… A conversa que se segue resulta de uma entrevista ao jornal É@GORA, onde a artista angolana fala de muito mais diante de uma universalidade de temas cuja centralidade é a condição imposta pela pandemia: a arte, cidadania global e a utopia…dos músicos na perspetiva de saberem impor-se globalmente. E esclarece: “Essa utopia é unir-nos”, até porque “a verdade é só uma: não nos podemos desmotivar”. Acompanhe:

A Irina tem estado entre Angola e outros espaços territoriais. Onde é que a Covid-19 a apanhou?
A Covid-19 apanhou-me na Zâmbia porque eu estive lá a viver dois anos, em pesquisa. Para além de ser artista de música gosto imenso de filosofia e antropologia. Sempre tive necessidade de conhecer melhor o meu continente, com a mochila às costas e ir conhecer as comunidades rurais que passam pelos mesmos dilemas. Estar na Zâmbia foi uma experiência maravilhosa, e quando a pandemia começou nós viemos para Portugal porque eu precisava de divulgar o meu álbum que foi gravado lá [Zâmbia]. Começou a ser preparado em Angola, mas o produtor, o Fernando Perdigão, foi ter comigo à Zâmbia. Então vim para cá [Portugal] para começar a divulgar.

Assim que começou a pandemia vieram para Portugal?
Exatamente. Já tinha uma agenda com os meus parceiros. Eu não tenho propriamente um manager, tenho parceiros porque detenho a minha obra, sempre fui uma artista literalmente independente e sempre determinei o rumo da minha carreira. O que me permite continuar a conhecer pessoas porque às vezes quando o músico se prende a essas questões contratuais acaba por ficar circunscrito a quem assinou contrato. Desde que estou cá fecharam as portas, totalmente, e eu tenho estado em casa desde então. Tenho estado a comunicar mais pela Internet e vou a alguns programas de televisão com o distanciamento e tudo mais. Mas o facto é que fui arrojada em lançar o álbum em plena pandemia, a hora em que achei que era o alimento ideal. Agora que estamos em casa nós podemos ler mais, podemos organizar-nos melhor internamente. E o álbum tem essa característica. “Kai Filhos Do Mar” é um mergulho que fazes do rock ao jazz, misturando o coro e a guitarra distorcida. Estou extremamente motivada e contente. Na verdade, o que não me faltam são ideias porque estou sempre a pensar e criar soluções.

Estando nós em casa, este álbum e a forma em que foi produzido ajuda à própria promoção?
Eu concordo plenamente. O que ocorreu, verdadeiramente, é que eu deixei de estar circunscrita ao talento de Angola e pôr o álbum disponível para o mundo inteiro, através das plataformas digitais. Antes estava em Angola e fazia shows ao vivo e ao lançar o álbum tive uma internacionalização. Eu tenho um wordpress que me dá várias estatísticas que a minha música já chegou à China, Alemanha, Japão, Tailândia, Rússia, Estados Unidos da América, África do Sul e Moçambique. E pensei ‘Porque não?!’. Eu sou filha das ilhas. Costumo dizer que o meu sangue é uma mistura de Namíbia, Cabo Verde, São Tomé, Angola e Portugal. Os meus filhos estão a crescer e quero conhecer melhor o meu continente. Decidi que ‘mal abram a portas’ eu vou para Moçambique porque o feedback de lá é ótimo, as mensagens que as pessoas me mandam com muito carinho. Como sou muito prática já estamos a organizar-nos e vou conhecer Moçambique. Estou muito ansiosa, não posso morrer sem ir a Moçambique [risos].

Pela forma que conta as coisas dá a ideia que passou ao lado do confinamento?
Estou bem em casa, só saio de casa para o palco. O adulto, de vez em quando, deve reforçar o seu íntimo. E na Zâmbia foi giro porque ver os animais, o baixo índice de criminalidade porque as pessoas são religiosas… Fez-me muito bem. Apesar da robustez de carácter eu motivo-me muito facilmente e estou sempre muito bem-disposta. Não tenho medo nenhum da pandemia porque estou com quem eu gosto. Eu acho que o mais importante que a pandemia nos veio mostrar é que não podemos ter medo de estar com nós próprios, de estar connosco. Já não é aquela necessidade de estar com alguém a toda a hora. Se bem que sinto saudades de estar num bar. Estou tranquila porque acredito que seja temporário. Não me imagino em pandemia nos próximos 50 anos [risos].

Como é que olha para aquilo que é espaço musical e artístico com a situação da Covid-19?
Tenho duas visões da mesma questão: uma menos positiva e outra positiva. Daqui a pouco vão sair várias discos feitos durante a pandemia. Os músicos tiveram mais tempo, estão a criar todos os dias. É o lado positivo porque vários álbuns vão surgir. A parte menos positiva é a relação entidade patronal com a classe. Há imensos músicos que falam da dificuldade de pagar as contas e pediram apoio governamental, mas a resposta não veio a tempo. Isso é um facto. Sinto imenso por isso. E sinto mais pela camada que vem a seguir à música. Eu entro num palco e sou cantora, mas e o pessoal que é contratado para tratar do palco? Estão muito mais preocupados, e com razão. Se nós formos ver bem também há outros profissionais de outras áreas que estão a sentir isso. O mais importante é não esquecermos que o ser humano, por si só, tem imensas valências. Temos de pôr em prática todas essas possibilidades. O que estou a dizer é: Devo estar bem porque tenho filhos para criar. Se não há música tenho de fazer outras coisas. Considero que mais do que cortar voos, é ajudar a pensar em soluções para nós. Porque a verdade é só uma: em momentos de crise o músico esteve sempre a cantar e a motivar. Se calhar é altura de retribuir isso e normalizar o teletrabalho. Sempre tivemos pessoas a tocar em churrasqueiras, e agora podem fazer os diretos com o logo das churrasqueiras em casa e a churrasqueira faz ostake-aways.

Está a sugerir novas formas de fazer arte?
Exatamente, sempre com a vontade de continuar a conectar-nos e fazer valer isso. Antigamente os trovadores passavam de terriola em terriola e cantavam as notícias. A verdade é só uma: não nos podemos desmotivar. Só posso dizer isso porque o facto de estar com um sorriso não significa que desvalorize as etapas que estamos a passar. Acredito piamente que isto vá passar. Devemos ficar atentos à forma que os Governos demoraram a responder à classe. Temos de criar formas de ter alguma ‘gordura económica’. Temos de criar um seguro de vida para os artistas. Devemos falar com as entidades e ser nós a darmos as ideias. Temos de nos preparar para o futuro. Isso era a utopia.

Precisamos de ter uma utopia na forma de encarar a arte?
O Gari Sinedima este ano faz parte do festival e dá aulas de canto via internet.

Por aquilo que tem estado a acompanhar, os músicos estão a tirar proveito desta situação?
Eu não posso falar por todos os músicos. Vejo que há vários lives que são feitos, mas as grandes bandas como U2 ou Scorpions não fazem isso.

Há uma segregação da comunidade virtual?
As marcas que suportam estes grandes artistas do mainstream puseram a máquina a funcionar. Mas isso não lhes dá as receitas que tinham. As pessoas que ganhavam 500 ou 800 mil dólares por mês, já não ganham! Para nós, que já ‘levamos no lombo’ há muito tempo, se calhar já não custa muito. Essa utopia é unir-nos. Fazer mais debates e colóquios na Internet, mostrar às marcas que o teletrabalho é possível dentro da nossa área e levar as marcas a entender que esta nova forma de comunicar é possível. Ou seja, continuar a cativar o nosso público.

Vai adotar esta forma de se reinventar para poder promover o álbum?
Quem quiser ouvir o meu trabalho pode fazê-lo através das plataformas digitais. Tive de criar uma banda aqui [Portugal] com o trompetista Ricardo Pinto, Óscar Graça pianista, o Mick Trovoada. Cada sítio onde passo crio a minha banda. Na Zâmbia juntei-me a jovens que tocavam muito bem, em Angola igual. Só estou à espera que ‘abram as portas’ e lá vou. Eu acho que consegui blindar-me de alguma forma, não sei se por muito tempo. Não vou conseguir ficar 30 anos em pandemia. Para isso há uma consciencialização social que é usar a máscara, álcool gel para travar a propagação. Há outra doença que se está a propagar que é a má comunicação entre as pessoas. Desde a ‘fofoca’ ao comentário mau nas redes sociais. Não temos de comentar as fotos, temos é de ver as ações das pessoas. Depois não podemos dizer que o aumento do índice de suicídio não foi causado só pela pandemia. Nós próprios estamos a tornar-nos em monstros sociais. Isso para mim é muito mais grave. Não quero ter no meu público pessoal que é bully, preconceituoso. Há aqui outras doenças que temos de lidar internamente.

E aproveitar esta situação de reflexão…
Exatamente. ‘Limpar’ para sermos pessoas melhores. Se não tens uma peruca, unhas postiças e um rabo com um determinado tamanho, até que as pessoas te queiram conhecer tu já és posto de parte. Na verdade o meu pessoal pensa diferente e diz assim “Que voz é esta?”, “Que letra é esta? Deixa ver quem é”. É isso que temos de fazer. Se fizermos o oposto disto vamos entrar num mundo de aparências. Eu pesquiso para fazer letras boas e tenho jovens de 7 anos e pessoas com 70 e tal anos que gostam da minha música porque eu preocupo-me em escrever bem. Respeito imenso o autodidata da rua, a pessoa que pesquisa por si. Gosto disso e acredito nessas pessoas, ora que reservo-me ao meu próprio nicho. As minhas redes sociais não têm 300 mil gostos. Eu tenho os meus que estão comigo há anos com quem eu posso falar sobre a preservação do ambiente ou projetos de angariação. Eu só preciso de ‘more vida’. Eu quero dar força às pessoas que têm estado sempre a escrever, procurar novas sonoridades e que são simpáticas que estão bem com a vida. O egocentrismo não ajuda as pessoas a unirem-se.

Quantas músicas tem e como é que está composto este álbum que acaba de lançar, o “Kai Filhos Do Mar”?
O álbum tem 13 faixas e junta instrumentistas de Angola, República Democrática do Congo, África do Sul e de Portugal. Eu precisava de encontrar a sonoridade perfeita para ilustrar o mergulho no mar, e somos todos filhos do mar. Adoro quando dou um mergulho no mar! Aquilo parece que me limpa a mente e o corpo. Fico extremamente conectada com as minhas valências ancestrais. Sempre que me debruço sobre a música ancestral aquilo dá-me uma energia…. Então tive a oportunidade de em 13 faixas fazer essa odisseia. Passa desde o rock, porque eu sou rockeira, até ao jazz. Eu comunico sobre questões que passam pelo amor, respeito, família, união entre os povos africanos. Uma das músicas é inspirada na África do Sul como se fosse a mãe a falar para o filho onde diz “Nós estamos a subir esta montanha, estás nas minhas costas e olha à tua volta, meu filho. Este terreno todo é teu”. Apesar dessa música não ilustrar o mergulho no mar, ilustra a caminhada que devemos fazer. Dia após dia mantermo-nos sãos. No álbum também damos um salto até às ondas do Brasil, com um bocado de bossa-nova. O mar passa por todos nós, somos todos filhos do mar. Foi o mar que nos uniu e isso foi fácil de conjugar e comunicar com os músicos nessa perspetiva. Nós começamos a fazer a captação no estúdio E2 e na rádio Vial em Luanda, depois passamos o trabalho para a África do Sul para Cape Town mais propriamente, depois o álbum foi ter comigo à Zâmbia onde fiz as vozes do álbum.

Do ponto de vista daquilo que tem estado a pesquisar, sobretudo em África, o que é que tem encontrado de novo?
África renova-se todos os dias, o que não falta são notícias. Mas as questões que nos preocupam são sempre as mesmas. Ou falamos da África que é poética, que tem paisagens maravilhosas e os frutos, ou falamos de uma África politizada que nos leva ao foco, ao alarme, ao incêndio que é a má gestão dos cinquenta e quatro países.

E do ponto de vista musical, o que é que tem estado a surgir?

FOTO: IrinaVasconcelos WorkArt ©
A produção musical tem aumentado, desde o naija ao kizomba. Recentemente tivemos a notícia que Burna Boy ganhou um Grammy e sabe bem ter essas notícias. Ele saiu da Nigéria e espalhou a sua música pelo mundo, e mesmo com as polémicas que existe com os Grammy trouxe o prémio para o continente. Angélique Kidjo também está firme nas suas campanhas. Vai ser muito difícil erradicar os africanos e essa forma de viver porque todos os dias há uma música nova a retratar-nos. Acredito que os jovens músicos quando forem mais velhos vão ouvir o mesmo que eu. Acabamos por passar pela mesma formação.

Esta universalidade dos temas e dos músicos na perspetiva de saber impor-se no global é extensivo àquilo que são as intervenções políticas, como por exemplo as questões de imigração?
Gostava de ter uma resposta que suportasse essa pergunta, mas não tenho. Há imensos músicos que retratam o dia-a-dia, mas também há muitos músicos que têm medo de perder o pão. Não confundir o ativismo que se manifesta com a arte efetiva, mas há uma coisa muito bonita: o povo está a pedir que os músicos intercedam por eles. O que é maravilhoso. Eu partilho sempre manifestações e adoro quando o povo sai à rua e diz o que quer, acho ótimo. O povo tem de aumentar o volume porque o povo é que manda. Manda na minha carreira e na gestão do meu país. Se calhar temos de criar boas condições nos países para evitar que os filhos de África queiram sair. Temos de ganhar robustez no sistema de ensino, de saúde. Eu não saí de Angola em fuga, saí porque aconselharam-me que o meu talento devia ser ouvido no mundo inteiro. Mas existem pessoas que mesmo em termos de sanidade psicológica disseram que não conseguiam mais, e isso não se pode condenar.

Tem de haver um motivo positivo para sair e não insatisfação?
Exatamente. E agora as pessoas que estão fora do país podem votar, o que é ótimo. São medidas boas, mas o mais importante e no que toca à Angola é que os governantes têm de ouvir as pessoas. Eu não sou jovem e desde que nasci o MPLA está no poder. A minha lucidez efetiva como adulta e cidadã ganhei-a nos últimos 10 anos. Se nós somos a codificação genética ancestral e se é agora a nossa vez de fazer a travessia e se somos africanos claro que dói ver injustiças. Não dói ter a capital do teu país cheia de lixo?! Se te perguntarem de onde vens e dizes “Sou angolana”, as pessoas vão associar ao lixo e à corrupção. Quando vou cantar para algum sítio represento toda a Angola, inclusive essa má imagem. Somos 27 milhões de habitantes, todos os dias nascem angolanos. Todos os dias temos de justificar a essas gerações. Eu serei sempre a mulher que diz: “Não está bom!”. E uma das coisas que acaba por minar o mundo é a violência policial, no mundo inteiro. Que ordens é que são dadas para que a polícia não consiga comunicar? Mais do que ser cantado isso está a ser reportado pelos nossos telemóveis. Eu estou ao lado das pessoas que escolhi. Não vou estar ao lado de pessoas que durante as campanhas disseram que iam tratar das coisas e o tempo passou. Se estivesse no meu emprego durante 45 anos sem fazer o meu trabalho eu seria despedida.

Há que ter a noção da responsabilidade e da finitude da incapacidade?
Com certeza. E isso começa por plantarmos a sementinha nas autarquias. Nós não podemos dizer que o povo é porco, se não há contentores. Não podemos dizer que o povo é iletrado e que não gosta de ir à escola, se não temos a quantidade de escolas. Adoro quando os jovens dizem “Vamos reunir e fazer a limpeza do bairro”. Quando dizem “Vamos fazer uma manifestação” acho ótimo. No Namibe fizeram uma manifestação porque querem fazer extração de petróleo, não vão empregar os pescadores e vão poluir o mar. Têm razão. E têm medo que o Governo continue a poluir o Deus maior que é a Natureza, é ela que nos dá tudo. Estamos sem sentido ecológico. Se sempre tivemos uma ligação direta com a Natureza através da agricultura e da pesca como é que de repente o politizar do sistema esqueceu isso? Há qualquer coisa que está mal. A culpa é de todos nós, mas eu quero estar na posição do povo. Gosto de ver o povo a manifestar-se junto. (MM)

1 COMENTÁRIO

  1. Sempre lúcida, a nossa Irina. Algo bonito é que ela soube, ao longo dos anos, preencher a sua bagagem com noções que hoje a tornam a representante das mulheres inteligentes de Angola e de África. É. Eu vejo daqui e raramente uma mulher brilha como a Irina. Ela não é só dessas que cantam. Ela canta, ela sabe, ela é, ela está, ela vive, ela encarna e eterniza. É aquilo que Osho uma vez disse: “O sentido da vida é, com a medida do tempo, nos transformarmos em obras primas.” É o que acontece com a nossa mana Irina. Ela sim tem se desafiado a evoluir-se em obra prima.

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