Entrevista: “Sentei-me em frente ao computador e, em 35 dias, escrevi 600 páginas” – Jacinta Antunes

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Jacinta Antunes, autora ©

Manuel Matola

No primeiro confinamento, Jacinta Antunes colocou-se em frente ao computador e “em 35 dias” obteve um resultado assombroso para quem publica uma obra literária pela primeira vez: “escrevi 600 páginas” sobre um livro cujo enredo gira à volta de “uma grande paixão entre a rapariga celta e um romano” e que desvenda o choque de culturas num cruzamento com as questões migratórias, diz. Numa entrevista ao Jornal É@GORA, a escritora nascida em Chaves explica como foi produzir “A Rapariga Celta” durante o confinamento e recorda a infância onde a escrita e a leitura desde cedo estiveram presentes.

A Jacinta nasceu em Chaves e tem viajado entre Chaves, Porto e Londres. Onde é que está neste momento?
Neste momento estou no Porto.

Foi lá que começou esta viagem literária?
Sim, comecei no Porto no primeiro confinamento em março de 2020. Fez agora um ano. Confinamos e comecei a escrever.

Estes três pontos por onde passa a vida da Jacinta, Chaves, Porto e Londres foi interrompida por causa da Covid-19. Onde é que estava quando começou a pandemia?
Eu nasci em Chaves, entretanto vim estudar para o Porto e Londres aparece na minha vida porque a minha filha foi estudar para lá. Em 2015 mudei o meu ramo de trabalho e desde aí estou ligada a Londres por causa do trabalho. Quando começou a pandemia eu estava no Porto porque vivo aqui.

Relativamente à “A Rapariga Celta”, qual é a essência deste livro?
A essência é mesmo a cultura celta. A história começa no ano 400 no período da romanização da Península Ibérica, quando os romanos chegam, vista pelos olhos de uma rapariga celta. Ela vê chegar um povo totalmente estranho, com escravos. No fundo é o choque entre duas culturas: a dela que é ligada ao culto da Natureza e de repente dá-se com um povo que vem povoar a terra dela que traz escravos, gente acorrentada. Para ela é impensável pensar nisso. A história começa com ela em menina e depois em adolescente. Entretanto vai existir uma grande paixão entre a
rapariga celta e um romano. Depois a vivência e os rituais celtas são desenvolvidos ao longo do livro.
É um livro que, de uma outra forma, acaba por falar sobre a questão da imigração.

No caso dos escravos é uma imigração forçada?
Sim, fala da imigração e também fala do racismo. A maior parte dos escravos são pessoas capturadas e que vêm de muitos sítios. É sobre a imigração nesse sentido. Nessa altura já traziam pessoas para trabalhar e povoar.

É um livro que pretende chamar a atenção de algum caso ou remeter-nos para uma história ficcionada?

É uma história ficcionada, mas deixa-nos a pensar sobre algumas questões, principalmente, o que nós fazemos uns aos outros e o porquê. Passados estes anos todos continua tudo na mesma.

Quantas páginas tem?
Inicialmente escrevi 600 páginas, entretanto tive de reduzir porque ficava um livro muito grosso. Neste momento tem cerca de 300 páginas.

É o primeiro livro?
É o meu primeiro livro editado, mas tenho 2/3 livros escritos. Este resolvi editar e está a correr bem [risos].

Para a norma dos escritores não começou ao contrário, com temas mais extensos?
Este livro foi uma loucura [risos]. Um dia sentei-me em frente ao computador e, de repente, em 35 dias escrevi 600 páginas. Não pensei no que ia escrever, saiu-me da cabeça e começou a fluir. Toda a história já estava dentro da minha cabeça, foi só deixá-la sair.

Há relação entre os Celtas e os Iberos e as pessoas do Porto?
Não. Se calhar somos descendentes dos Celta que moraram no Norte e depois há cruzamento de raças com romanos e
muçulmanos. Passou imensa gente pela Península Ibérica. Mas acho que provavelmente sim, viemos todos dessas
raças. Há uma junção de raças a nível português.

A Jacinta deixou a profissão relacionada com a gestão e administração de empresas e hoje é escritora. Como é que faz essa gestão?
Trabalho de forma individual e tenho uma empresa. Na parte da gestão hoteleira, ainda dou apoio a três hotéis e nos tempos livres escrevo. Consigo gerir isto mais ou menos bem. Tento focar-me numa coisa de cada vez e o livro surgiu porque estivemos confinados. Durante o mês de março e abril estive em teletrabalho e o trabalho era pouco. Dedicava muitas horas ao livro e surgiu.

Escrever um livro de 600 páginas em 35 dias. Isso é feito totalmente no computador?
Sim. As minhas ideias fluíam muito rápido. A certa altura a minha mente era mais rápida do que as minhas mãos, eu não tinha tempo para tanta palavra. Foi uma grande atrapalhação. Fui a primeira a ler o livro e depois de estar tudo organizado fui rever e eu própria não sabia o que tinha escrito. Eram tantas as palavras que fluíam da cabeça que nem sempre conseguia escrever bem. A primeira versão tinha alguns erros, mas depois foi tudo corrigido. Algumas pessoas já perguntaram se eu tive uma psicografia, ou seja, ter uma conexão com alguém que está a ditar o livro. Não sei se foi isso ou não, o facto é que surgiu [risos].

Esta experiência é algo que se vai repetir ou depende da disposição da altura?
Eu termino o livro sem dar conta que posso continuá-lo. Quando estava na editora a corrigir o livro, a certa altura dizem-me assim: “Isto dá para continuar”. Eu fiz isso inconscientemente. Primeiro tenho de trabalhar neste e se calhar depois vem outro. Entretanto estou a escrever mais dois porque escrevo sempre ao mesmo tempo. Escrevo
dois livros ao mesmo tempo porque assim trabalho melhor. Foco-me num livro e a seguir passo para o outro. É quase um jogo mental para puxar pela minha mente. É um trabalho que me dá imenso prazer.

No que é que se inspira para escrever?
Sai tudo naturalmente. Escrever para mim é muito fácil porque o que tenho de melhor é o poder da visualização. Entro muito rápido para dentro da história.

Os dois livros que a Jacinta falou há bocado vão ser publicados?
Estou ainda a acabar, mas quero publicá-los. Não estou tão focada como estive para este porque tenho bastantes trabalhos nos outros setores em que trabalho. Vou escrevendo devagarinho, mas se calhar no fim deste ano já está pronto.

Sei que aprendeu a escrever sozinha. Como é que isto aconteceu?
Não sei [risos]. Lembro-me da minha mãe comprar o livro da primeira classe e estava muito entusiasmada com aquilo. De repente abri o livro e comecei a ler e a minha mãe perguntou se alguém já me tinha lido o livro, e eu disse que não. Em relação à escrita eu lembro-me que na escola estavamos a dar o ‘i’ e escrevi uma redação. A minha professora achou aquilo muito estranho porque eu estava focada a escrever. Já tinha umas três ou quatro linhas escritas e ela perguntou-me se a minha mãe tinha escrito a redação. Nunca se aprofundou isso, eu a minha mãe nunca demos muita importância.

Voltando à forma em que o livro foi escrito. Nesses 35 dias focada no livro passou ao lado do confinamento?
No primeiro confinamento senti que aquela pausa fazia-me falta, se calhar fazia falta a toda a gente. Andamos uma vida inteira a trabalhar e nunca estivemos parados um mês e meio, pelo menos eu. Confinada e parada eu fiquei numa paz total, o confinamento foi excelente. E pensei vou começar a escrever.

Como é que está a ser feita a publicação e promoção do livro?
Está a ser divulgado através das edições ‘Metamorfose’, nas minhas páginas de instagram e facebook. Em Portugal as livrarias abriram há três semanas e agora estamos a preparar o livro para enviá-los para as livrarias. E também está disponível em e-book.

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