Entrevista: “Temos que gritar alto para que o mundo inteiro possa ajudar Cabo Delgado” – Olavo Bilac

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Olavo Bilac

Manuel Matola

Nascido na cidade moçambicana de Pemba, o músico Olavo Bilac é hoje um dos rostos da imigração proveniente de Cabo Delgado, onde os seus pais, emigrantes cabo-verdianos, se conheceram e estabeleceram ainda no período colonial. Em entrevista ao jornal É@GORA, o artista fala sobre o drama que se vive no norte de Moçambique, berço que o acolheu até os oito anos de idade, quando a família se mudou para Portugal. Entretanto, a região é hoje ´epicentro do terrorismo islâmico` em África. Mas a conversa tem como ponto de partida o luto que se abateu sobre os “Santos & Pecadores”, que acabam de perder Rui Martins, músico que aos 40 anos teve morte imediata na sequência de uma queda de um telhado, oito anos depois do interregno da banda pop-rock. O vocalista Olavo Bilac lança também um olhar à situação presente do setor cultural numa era que a indústria musical foi tramada pela pandemia da Covid-19.

Como é que ficam os “Santos & Pecadores” depois da situação que ocorreu há semanas?
É sempre triste perder um elemento da nossa juventude, da nossa família. Crescemos num único sonho: sermos músicos. Foi com muita tristeza que soubemos da notícia de que perdemos este elemento. Era uma pessoa muito especial, que agregava outras pessoas. Era uma pessoa muito feliz, alguém que tinhas mesmo o prazer de falar com ele. Rui era uma pessoa que conseguia de certa maneira, às vezes, acalmar as coisas dentro dos “Santos & Pecadores”. Ele tinha uma filha de oito anos. Agora imagina esse sofrimento para a esposa e a filha que é perder o pai. É impensável colocar-se no lugar dessas pessoas. Mas vai deixar saudades. Era uma pessoa muito querida não só pelos “Santos & Pecadores”, mas por parte de muita gente. Ele era de Lisboa, dos Olivais, mas vai para Montemor, onde deixou lá muitos amigos.

Certamente que não se supera nem se substitui o Rui, mas como é que pensam fazer inflexão desta situação?
Nós estamos parados há sensivelmente oito anos. Desde que fizemos o interregno, eu e alguns elementos dos “Santos & Pecadores” temos estado a fazer música. Eu, na minha carreira a solo, abracei logo o projeto Resistência. Os meus pais são de Cabo Verde e eu nasci em Moçambique. Desde que vim para Portugal sempre ficou uma vontade de fazer a música lusófona que cruzasse esses mares da lusofonia. Em Angola, fiz o cruzamento destas terras que um dia tiveram uma única bandeira e fui à procura de músicos que estavam na área, falei, principalmente, com um grande mestre da música da lusofonia, que é o Vice, um guitarrista que anda cá há muitos anos, sabe muito de música e um dos músicos consagrados de todos nós. Começa por fazer a primeira tournée de Cesária Évora e tocou com grande parte dos músicos africanos que cá vivem e portugueses também. É uma grande referência do violão e do cavaquinho. E foi à procura do violão e do cavaquinho, que eram os instrumentos que basicamente pertencem à música tradicional que acaba por cruzar estes países todos. E à base de cavaquinho e violão fomos à procura de originais, decompusemos e juntamos à festa alguns grandes hinos da lusofonia do Brasil, Angola, Cabo Verde, inclusive cantei uma morna em crioulo e, portanto, foi um trabalho que me deu muito gosto. E, cá em Portugal, também fizemos uma tourné de auditórios, que me deu muito gozo ser acompanhado por acompanhado por estes grandes músicos da lusofonia. (Na sequência do projeto), fomos a Angola e Cabo Verde. Como todo o projeto tem o seu fim, aí lancei o original “Estou aqui” e acabo por voltar para a minha praia, que é pop-rock que é de onde comecei com os “Santos & Pecadores”. Desde então acabo por cavalgar espetáculos em nome pessoal. Tenho estado a fazer algumas tournée pelo país e lá fora em nome de Olavo Bilac. Inclusive fui buscar também o Artur, baixista do “Santos & Pecadores”, que acabou por acompanhar também no “Músicas do Meu Mundo”. Entretanto, experimentei muitas coisas. Acho que sou deste princípio de querer experimentar e querer cruzar a carreira com os músicos. Passei também por uma experiência de músicas de Zeca Afonso num projeto chamado “Zeca Sempre”. Portanto, (oito anos depois), acabei por estar aqui entretido e de alguma forma a continuar a fazer música. Hoje, nestes tempos, estamos aqui parados com a pandemia. Infelizmente a nossa indústria é das que mais sofreu com essa pandemia. A nossa missão acaba por ser juntar pessoas, infelizmente, é isso que hoje não podemos fazer: juntar pessoas. Mas acredito que, com a vacinação de toda a gente, brevemente será possível que possamos nos encontrar e abraçarmos todos.

Falando da Covid-19, há uma reclamação geral dos artistas em relação aos apoios públicos. Como é que está a encarar essa situação? No sentido figurado, há aqui uns “santos” e “pecadores” na resolução do problema dos artistas?
[Risos] – Realmente, a nossa indústria é um bocado mal amada. Quando há festa todos nos lembramos dos músicos e, quando não há festa, rapidamente os esquecemos. E a cultura é a alma de um país. De alguma forma percebe-se, pois ninguém sabia o que estava a acontecer mas, realmente, foi uma indústria que foi muito mal-tratada (com) técnicos e mesmo alguns músicos a passarem fome. E acho que o Estado deveria, de alguma forma, ajudá-los, porque afinal de contas em cada espetáculo nós também pagamos impostos. Por isso, o Estado tinha que ter olhado para esse lado. Se calhar a coisa estava má, portanto, percebo que tenha sido difícil também para o Estado, ainda assim, de alguma forma, devia-se ter olhado muito mais para a cultura, sobretudo, tendo uma ministra com muito peso no governo.

Há pouco falou do regresso às origens em termos musicais. Focou-me, no entanto, na questão da origem de nacionalidade. Como é que tendo nascido em Moçambique, sobretudo em Cabo Delgado, está a acompanhar a situação do seu país de origem e da sua terra natal?
As notícias que vão cá chegando afligiram-me muito porque infelizmente no norte de Moçambique tem acontecido muitas catástrofes. Há dois, ou três anos que a Beira também teve aquelas cheias (na sequência de ciclones, um dos quais se abateu sobre Cabo Delgado). Inclusive eu, enquanto moçambicano em representação de Portugal, e muitos músicos angolanos e moçambicanos ainda fomos a Maputo fazer um espetáculo solidário em relação à Beira. No ano seguinte continuo os seus problemas. E para que não bastasse esta confusão que está em Cabo Delgado em que realmente as pessoas estão desprotegidas. De certa forma, não sei até que ponto Moçambique tem homens suficientes para poder reagir para defender os seus cidadãos. O que é certo é que é um povo que está a sofrer. É um povo pelo que todos temos que gritar alto para que o mundo inteiro possa ir lá e possa ajudar estas pessoas.

A título particular, o Olavo tem algumas pessoas conhecidas ou que sejam próximas do ponto de vista familiar naquela área?
Não, porque os meus pais são de Cabo Verde.

Mas há amigos ou alguns conhecidos que tenha deixado lá?
Nós viemos de lá eu tinha 8 anos, portanto, foi há muitos anos e os meus pais também se conheceram lá. E quando viemos trouxemo-nos a todos. Provavelmente deve ter ficado algumas pessoas mas a essa hora já não estão porque já passaram muitos anos. De qualquer forma é com muito tristeza que vejo fazer mal a um povo heroico e de paz desses. É mau para todos nós. O moçambicano é um povo de paz, de saber receber bem, de muita alegria, com pouca coisa sorriem. De certa forma, alguma coisa está errada (com) a Humanidade, e isso é que tem que se tratar.

Algumas pessoas chamam a fase em que estamos a entrar de pós-pandemia. Em termos de agenda, o que tem para os próximos tempos?
No ano passado, percebeu-se que ia parar tudo. O ser humano estava a perceber que estava a acontecer uma coisa que os cientistas já avisavam há muito tempo, mas nunca pensamos que pudesse ser quando nós vivos. Realmente aconteceu. Em 2020, com a pandemia o mundo parou. Neste 2021 não está muito diferente. Portanto, enquanto as populações não estiverem vacinadas não poderemos fazer as mesmas coisas ou pelo menos agir da mesma forma, tanto é que se vê que os agendamentos dos festivais e tem sido tudo para o ano.

E como o Olavo está a pensar fazer? Volta só para o ano?
Não. Os únicos sítios onde se vão poder fazer espetáculos é onde possam garantir essas segurança entre as pessoas: teatros, anfiteatros…Portanto, também estou antever trabalhar já para um projeto que possivelmente passará pelos teatros e anfiteatros.

Como é que se vai desenvolver esse projeto? Já pode avançar?
[Risos] – Não queria falar muito sobre isso mas provavelmente é isso que vai acontecer. E, pronto, estamos a aguardar agora que toda a gente seja vacinada. Quando falo toda a gente não me refiro só a Portugal para não termos o egoísmo de só pensarmos Portugal. Na Europa e no mundo inteiro. O mundo inteiro tem que ser vacinado. Os países pobres têm que ser vacinados e todos nós temos que pensar que se eles não estiverem vacinados o mal será para nós todos em termos globais.

Em termos gerais, o que se aprendeu na sua área com essa situação da Covid-19 e o que se pode, daqui em diante, colocar-se em prática para que os músicos não passem pelo que passaram durante a fase crítica da pandemia?
Aqui não ponho só a nível da indústria musical. Ponho um bocado a nível global e dos seres humanos. Ao contrário do que se pensava na aflição de um problema, os seres humanos mostraram o lado mau também do egoísmo e ao contrário do que devia ter acontecido, uma união, conseguiu-se perceber que parece que se afinou o lado mau também, o do egoísmo de cada um pensar no seu umbigo. Este é um problema que os cientistas têm estado a avisar há muito tempo, mas de certa forma o ser humano ainda não parou para pensar o que aconteceu. Isso ainda está tudo muito a correr, mas há um alerta do planeta em relação ao que vem aí e pelo que eles falam não é coisa boa. Esta pandemia é um começo, se calhar, de muitas outras que vão começar a acontecer e, de uma vez por todas a nível global, o ser humano tem que parar e se juntar, nunca numa forma de egoísmo de cada um pensar por si, mas num pensamento global de como vamos conseguir resolver as coisas e os problemas de saúde do nosso planeta. Isso é o principal e é urgente.

Na área musical, há necessidade de maior colaboração nessa fase?
Acho que isso afeta-nos a todos e quando essa pandemia assola o planeta para tudo. Para muita gente a cultura pode ser supérflua, mas é importante continuarmos a alimentar a alma. Mas é uma área que, infelizmente, fica sempre para o segundo plano. Por isso aguardamos melhores notícias e que em breve toda a gente esteja vacinada. (MM)

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