Saiba tudo sobre o mapeamento global de autores angolanos desde 1642

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Escritor Tomás Lima Coelho. FOTO: RedeAngola ©

Manuel Matola

Pelo menos 2.345 autores angolanos publicaram nos últimos 380 anos, mas nos últimos 10 anos houve uma produção anual de 200 obras em Angola, país onde 80% dos livros que têm sido editados são de poesia, estimou o escritor luso-angolano Tomás Lima Coelho, que está a fazer um mapeamento da literatura produzida dentro e fora do território angolano desde 1642.

Intervindo no debate sobre “Autores, Escritores e Poetas de Angola”, que decorreu este fim de semana na Feira do Livro em Lisboa, Tomás Lima Coelho afirmou que em 380 anos, contando até 1975, ano da independência de Angola, 167 livros foram publicados mas, de 1975 a esta parte, já se contabilizam mais de 2.345.

“O primeiro livro que se conhece de um escritor nascido em Angola é de 1849. Depois passou-se um longo hiato de 46 anos, quase meio século, até outro angolano conseguir publicar um outro livro. Isso para dizer que desde 1642 que há livros publicados por angolanos. Apenas 167 publicaram até 1975, o que é uma grande dificuldade em publicar”, disse o autor da obra “Autores e Escritores de Angola 1642-2018”, a primeira do género em todos os PALOP, que acomoda nomes de gente das letras e das ciências de Angola.

“Depois da independência e até 2018, nesse período, em 45 anos, aumentou 2.345 o número de escritores publicados.
Portanto, em 380 anos, publicaram-se 167 e, em 45 anos, publicaram 2.345. Ora, isso é muito importante porque denota a grande pujança que havia nas letras, pois muita gente queria escrever mas não tinha possibilidade”, esclareceu Tomás Lima Coelho sobre a sua obra atualizada em 2019.

Segundo o estudioso, houve vários períodos da literatura em angola, com uma produção mais atuante “nos últimos 10 anos”, período em que “houve uma média de 200 novos autores a publicar livros por ano”.

No período anterior à independência, os poucos autores que lançaram livros sobre e naquele espaço territorial, que é hoje Angola, escreveram sobre “literatura colonial” e falavam “no exotismo, nos presos africanos, nos técnicos, didáticos, mas era uma literatura muito pouco livre”, até porque “havia muito controlo policial, político”.

“A partir da independência, já há um percurso solto. A partir dos anos 80 houve um movimento de jovens escritores que abanou um pouco as árvores e começou-se a fazer coisa boa em Angola”, referiu Tomás Lima Coelho, apontando o poeta Lopito Feijóo como um dos que mentores desta nova dinâmica na literatura angolana.

Desafios da literatura angolana

Escritor Lopito Feijóo (esq); Jornalista Vitor Hugo Mendes (centro); Tomás Lima Coelho (dir). FOTO: Jorge Madeira ©
Mas, se por um lado, os desafios eram muitos na época colonial e nos primeiros cinco ano da independência – “entre 76 e 79 houve apenas quatro ou cinco escritores que publicaram, e eram aqueles mais antigos. Havia poucos jovens a publicar, até que depois apareceu este movimento de jovens” -, diz Tomás Lima Coelho, nos dias de hoje, os desafios dos escritores são “altamente desafiantes”, segundo reconhece o poeta angolano Lopito Feijóo, um dos mais destacados escritores angolanos da atualidade.

“Os nossos desafios para o presente e futuro são – se me permitirem o pleonasmo – altamente desafiantes, porquanto a nossa realidade nos diz que o número de leitores que temos em Angola é muito baixo em razão do índice do analfabetismo”, lamentou Lopito Feijóo, autor do livro “Doutrina Sem A Qual Nunca”.

Embora nos primeiros anos da independência Angola tenha dado “um grande salto com campanhas de alfabetização”, hoje depara-se com o problema da literacia, o primeiro dos dois apontados por Lopito Feijóo quando questionado pelo jornalista, escritor e radialista angolano Vitor Hugo Mendes pelo moderador do debate.

“A verdade é que muito boa gente que tinha sido alfabetizada e que já lia acabou por voltar à condição de analfabeta em razão do contexto social vivido em Angola. Isto implica dizer que temos um grande desafio, que começa, primeiro, por alfabetizar as pessoas novamente para obrigar pôr as pessoas a ler”, considera Lopito Feijóo.

E, acrescenta, há por outro lado, um segundo desafio: “Com as dificuldades de caráter material, social, pobreza e nalguns casos a miséria que os nossos leitores vivem, principalmente nos países africanos, nós temos que aceitar que entre comprar um livro e um pão para dar as crianças lá em casa, as pessoas optam sempre pelo pão”.

Como proposta de solução, Lopito Feijóo defende “se necessário for, obrigar as pessoas a ler”.

“Ler, por um lado e obrigar àquelas pessoas que já leem a compreender aquilo que leem, porque, acredito, não só no contexto da Angola mas em vários outros contextos geográficos e latitudes, podemos constatar que há muita gente que lê por ler, mas não compreende nem alcança nem 50% daquilo que lê. Estes é que são resumidamente os nossos desafios, porque nós os editores vamos fazendo os possíveis de editar aquilo que nos aparecem de acordo com as circunstâncias e possibilidades que se nos aparecem”.

Aliás, assinala: “Nós os escritores vamos escrevendo e na maior parte das vezes vamos engavetando aquilo que vamos escrevendo com a esperança de daqui há uns anos vermos as nossas coisas publicadas, lidas e compreendidas. O mais importante é escrever. Qualquer dia as condições melhoram. Enquanto há vida há esperança”.

Para Lopito Feijóo há que também “melhorar a condição de vida social dos consumidores da literatura” angolana, até porque “resolver os problemas básicos sociais – água, luz, pão, emprego – é fundamental para as pessoas conseguirem ter rendimentos que lhes permite depois no fim do mês com o seu salário tirar uma ínfima parte para ir adquirir livros”.

Portanto, “há caminhos que podem ser seguidos”, lembrou, entretanto, Tomás Lima Coelho, questionando, contudo, como é que, por exemplo, os livros não circulam entre os países de língua portuguesa. Como é que os PALOP não têm protocolo de circulação de livros e de autores?”.

“A CPLP devia apoiar as pequenas editoras a se fazer presente na Feira do Livro. Tem de haver uma relação que implica a criação, difusão e divulgação permanente da obra editada”, ripostou Lopito Feijóo.(MM)

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