“Estamos cá, terão de nos ouvir e nós temos voz a dar” – Cíntia Lopes

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Cíntia Lopes, única candidata lusodescendente na lista do PS que concorre à Assembleia da Junta de Freguesia da Venteira, na Amadora

Rodrigo Lourenço e Manuel Matola

Aos 26 anos, a lusodescendente Cíntia Lopes é das mais jovens candidatas a integrar a lista do PS à presidência da Junta de Freguesia da Venteira (Amadora), onde sempre encarou os desafios das comunidades migrantes e negras, hoje um dos temas recentrados na campanha eleitoral que arrancou esta terça-feira.

“Fazemos parte da história e não há nada mais justo do que começarmos a participar na história de forma ativa e visível”, diz Cíntia Lopes ao jornal É@GORA, falando sobre Casal da Mira, o bairro social onde nasceu, cresceu e formalizou a sua candidatura ao PS na Amadora, que surgiu no âmbito dos debates de reflexão promovidos pela Associação Unidos.

A agremiação pró-imigrante foi a única que conseguiu colocar dois únicos concorrentes de ascendência africana na corrida da família socialista às eleições municipais naquele concelho que alberga mais de 100 nacionalidades.

A par de Cíntia Lopes, candidata à Assembleia de Freguesia da Venteira, em lugar elegível, está o produtor cultural luso-angolano Daniel Mendes que ocupa o oitavo lugar na lista do partido que atualmente preside a Junta de Freguesia da Venteira: o PS.

“A nossa comunidade lusófona, e neste caso falo da comunidade PALOP, sempre participou na construção daquilo que é Portugal hoje, mas não tínhamos a visibilidade que hoje deveríamos ter”, considera a luso-cabo-verdiana, assinalando a importância da sua presença, a do Daniel Mendes e de “qualquer outro candidato que tenha origem não dita portuguesa” nas eleições autárquicas deste ano.

“Fazermos parte da paisagem é dizer: ‘estamos cá, terão de nos ouvir e nós temos voz a dar’”, sentencia.

Na linha que marca o arranque desta maratona política colocaram-se mais de 12 mil listas distribuídas pelos municípios de Portugal que concorrem às câmaras municipais de norte a sul do país, passando também pelas regiões autónomas.

Até 24 de setembro, antevéspera das eleições, os partidos políticos irão lutar pelo voto dos 9,3 milhões de eleitores que estão aptos a exercer este direito cívico. No ato de votar, cada pessoa irá receber três boletins, um para eleger o executivo de cada uma das 308 câmaras municipais, outro para cada assembleia municipal e um terceiro para a eleição das assembleias de freguesia.

E é a partir deste último ponto que entra em cena Cíntia Lopes. Licenciada em Estudos Africanos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e a meio do mestrado Migrações Transnacionalismo e Inter-etnicidade na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas na Universidade Nova de Lisboa, a imigração e os refugiados sempre foram um ponto presente na vida da jovem política.

Com uma forte presença na Amadora de cidadãos vindos dos PALOP, a integrante da lista de Carla Neves, que se recandidata à presidência da Junta de Freguesia da Venteira, sublinhou, em entrevista ao Jornal É@GORA, a importância da variedade no que diz respeito à imagem política da cidade.

“Eu creio que a minha imagem e a imagem do Daniel e de qualquer outro candidato que faça parte destas listas representam a imagem que a Amadora e todo o nosso país devia ter que é: participarmos na paisagem de Portugal”, diz.

A candidatura de Cíntia Lopes surge na linha do que tem acontecido em Portugal nos últimos anos: mulheres negras com posições cada vez mais relevantes no quotidiano político.

Com os principais exemplos de Joacine Katar Moreira, Beatriz Gomes Dias, Romualda Fernandes ou até mesmo Francisca Van Dunem, a jovem candidata do PS acredita que pode trazer um novo foco à lista liderada por Carla Neves.

“Nós acreditamos que seja o trazer de um olhar jovem, dado que do nosso grupo seja das pessoas mais novas neste momento. É trazer um olhar deste lado, porque muita gente não sabe que eu faço parte de um bairro social e da população da Amadora que foi muito falada nos debates. E, como tal, é trazer o lado dos imigrantes como das pessoas que vivem nos bairros sociais para a Junta e para a Câmara”, frisa.

A imigração é uma das principais bandeiras políticas, e a jovem de 26 anos não tem dúvidas em apontar os principais desafios para a comunidade migrante e para quem vive em bairros sociais.

Primeiramente sublinha a “informação e o estigma social que é alguém ter nascido, vivido ou viver no bairro. Há aquela ideia extremamente errada de que quem vem da Amadora são pessoas de bairro e são pessoas perigosas”.

E de seguida refere o tema do trabalho com outra problemática: “Essa é uma questão extremamente falsa e falaciosa porque mesmo sendo do bairro, e falo do meu bairro o Casal da Mira, temos várias pessoas que têm o ensino superior, existem pessoas que trabalham, temos uma comunidade extremamente trabalhadora”, assegura.

Perfilando-se como uma das mais novas candidatas na Amadora e na zona de Lisboa e com ascendência africana, Cíntia Lopes explicou que o principal desafio do grupo social em que se insere é “se sentirem atraídos pelo mundo da política”.

Segundo o ponto de vista da própria, a única forma de dar a volta à situação prende-se com o papel fundamental das escolas, pelo que, durante a entrevista considerou: “Se na escola não capacitarmos os jovens e não quisermos que conheçam aquilo que é a realidade do nosso país, eles não se vão sentir atraídos pela política. A ideia de estarmos na política é podermos participar nas decisões que são tomadas no nosso país”, diz.

E o seu caso é ímpar, reconhece.

“Eu não posso reclamar nem estar contra algo se eu não conheço a realidade. Portanto, é extremamente importante e é um dos grandes desafios que todos temos que é começar a interessar-nos pela política. Se eu não tivesse as pessoas corretas no meu caminho, não conheceria a política da forma que eu conheço hoje”, assinala.

A esse respeito, Cíntia Lopes colocou os holofotes sobre a professora secundária de História Ana Homem.

“Foi a pessoa que abriu caminho para a questão da população negra em Portugal, ou neste caso, para os imigrantes. Foi também através dela que me interessei pela questão dos refugiados, indo ao Centro de Refugiados da Bobadela”, conta.

Segundo a sondagem feita pela Universidade Católica de Lisboa, o PS deverá ganhar as eleições na Amadora com maioria absoluta, devendo suplantar a longa distância a candidata da coligação liderada pelo PSD, Suzana Garcia, que tem sido associada aos ideais da extrema-direita, o Chega, o partido anti-imigração.

No entanto, Cíntia Lopes mantem-se focada e afirma que até ao último dia do trabalho de sensibilização ao voto, a candidata e os colegas de campanha “estão com as pessoas e para com as pessoas”.

De resto, “este é o nosso lema. É dizer às pessoas que podem falar, que são ouvidas. Nós paramos na rua, falamos com as pessoas, ouvimos as pessoas, tiramos anotações daquilo que as pessoas dizem. Isso é muito importante. Quando uma pessoa fala e é ouvida, e consegue ver aquilo que falou ser posto em prática, ou, neste caso, ter uma conversa sobre é extremamente importante. Eu acho que é o ponto mais importante do que estarmos com as pessoas e para as pessoas. Podem falar porque estamos a ouvir as pessoas. Queremos ouvir as pessoas”, conclui. (RL e MM)

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