“Estás a gostar do bairro Casal da Mira?”

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Sérgio Raimundo, Escritor
Não sei se isso era uma pergunta ou uma pequena asa de lume para incendiar o início de uma conversa. “Estás a gostar do bairro Casal da Mira?”, perguntou-me o brasileiro enquanto passava sabão líquido na borda de um prato com restos de comida. E a pergunta ficou ali suspensa, levitando; e porque não tinha resposta decidiu afogar-se na espuma, do sabão líquido, que arrastava restos de comida e nódoas de silêncio para o cano do lava-loiça. O brasileiro fechou a torneira, puxou a língua para cá fora, lambeu os lábios e tapou a boca. Tão bom ouvir o pequeno barulho de uma boca fechando-se.

O brasileiro ficou em silêncio, quer dizer, começou a desordenar sílabas na boca e fingia que cantava; cantava qualquer coisa o brasileiro e, de tempos a tempos, soprava um assobio que interrompia a canção. No meio do silêncio ouvi o cano mastigando a pergunta em enormes bocejos que se foram espalhando pela casa. E porque as perguntas deixam desmedidas pegadas em nós? Por que não somem com o mesmo desinteresse que nos são feitas? Porque ainda tenho a pergunta do meu pai, que me fez em criança, tabelando-me a memória? “Então, quando vais sair do meu tecto?”.

Não sei se aquilo era uma pergunta, mas ainda persegue-me tal qual a pergunta do meu pai cheia de bolhas de vinho no meio; “Então, quando vais sair do meu tecto?”. Ainda não tenho tecto, pai, mas eu gosto do bairro do Casal da Mira, do tecto que partilho com o brasileiro, da farmácia que nunca vi aberta; gosto das manhãs frias desse bairro, dos pais que selam o adeus com um abraço antes de deixarem os miúdos no Jardim Infantil da Associação e não perguntam aos filhos “Então, quando vais sair do meu tecto?”.

Sei que não posso mais tirar a pergunta do cano do lava-loiça, reanimá-la do afogamento e colocá-la, como uma dentadura, na boca do brasileiro e respondê-la. Mas gosto do bairro ao amanhecer, da cabo-verdiana que desloca o bairro numa carrinha de bebé, do bêbado que marca as horas do bairro com os ponteiros vibrantes dos pés e dos autocarros que param na passadeira para o bairro atravessar a estrada no andarilho de um idoso.

Gosto das perguntas da velha, que foi acidentada a perna que arrasta por um AVC qualquer, sobre Moçambique: “és moçambicano e não conheces Mário Reis?”. Eu não conhecia Mário Reis, mas sempre respondia que sim; a velha com a boca virada para o lado tentava sorrir e não conseguia, maldito AVC. O sorriso notava-se mais no timbre da voz, no brilho do seu olhar com gotas salgadas de lágrimas. Mais tarde soube que Mário Reis é um mulato que fizera a velha envelhecer com uma promessa de casamento na memória. E mesmo tentando expulsar o AVC do seu corpo, ainda sonha com Mário Reis. “Sinceramente, és moçambicano e não conheces Mário Reis?”.

Quer saber, gosto do bairro, gosto de não responder a tua pergunta e gosto de saber que finges ouvir uma resposta no estrondo apavorante do meu silêncio. Ao entardecer os pais correndo para o Jardim Infantil, os pequenos distribuindo um adeus inacabável às educadoras, a luz da farmácia, que nunca vi aberta, levantando-se em forma de uma cruz verde e o bairro todo em silêncio ouvindo eco de uma aparelhagem que não sabe de onde vem. Há perguntas que nos perseguem por toda a vida, perguntas que mesmo afogadas ainda nos surgem como fantasmas no meio do sono ou surpreendem-nos em pequenos instantes quando ouvimos canos engolindo bolhas de espuma.

Há perguntas que nos perseguem por toda a vida, o meu pai perguntando-me “Então, quando vais sair do meu tecto?”, a velha retorquindo o mínimo movimento que o AVC esqueceu-se de levar, “és moçambicano e não conheces Mário Reis?” e o brasileiro tirando a pergunta do cano e a estendê-la sobre a mesa cheia de pratos sem restos de comida: “estás a gostar do bairro Casal da Mira?”. (X)

 

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