“Eu sou um projeto em andamento” – Teresa Noronha, autora do livro “Na Rota Das 7 Luas”

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Teresa Noronha, autora do livro “Na Rota Das 7 Luas”. Foto retirada do Facebook.

Manuel Matola

Durante o confinamento, a escrita foi a ponte que encontrou para diminuir as distâncias com o neto. Habituada a escrever poesia, decidiu: vou “fazer uma experiência nova: escrever eu a história”. E escreveu “Na Rota Das 7 Luas”, um livro com 7 contos que “remetem para valores intemporais”, no qual o grande objetivo da obra é “tocar a alma das pessoas, vê-las felizes e ver sorrisos”. O jornal É@GORA entrevistou a autora do livro que será apresentado no dia 25 de setembro no Centro Cultural de Cabo Verde, em Lisboa.

Como é que surge este livro?
Antes do livro surge o meu neto Rodrigo, a quem comecei a escrever histórias durante o primeiro confinamento. Eu estava separada dele e queria manter esta ponte de afeto. Eu lia-lhe histórias ao jantar, e como escrevia poesia, decidi que ia fazer uma experiência nova: escrever eu a história. Comecei devagarinho. Escrevi uma história, li e ele gostou. E fui escrevendo e fiquei com um acervo muito grande de histórias. Um dia estava em casa do meu filho, na Escócia, liguei ao Rúben [Zacarias,ilustrador da obra]e disse-lhe: “Olha, vou escrever uma história engraçada. Acho que ias gostar”. E ele disse: “Então manda lá a história”. Geralmente, escrevo as histórias para o Rodrigo e gravo-as com um fundo musical de violino ou piano. E mandei-lhe uma série delas. Ele disse que as histórias eram giras e que devia editá- las. E eu pensei: “Não sou nenhuma escritora, não tem nenhuma qualidade literária. Será?”. E com aquela energia brutal que o Rúben tem quase que me forçou, no bom sentido, a enviar estas histórias à Marisa Pedrosa das Edições Matrioska. Mas sempre num registo de ‘vamos lá ver’. Depois a Marisa leu e foi assim que o livro foi surgindo. A ideia é para ser um livro lido durante uma semana, durante 7 noites. Por isso a presença da lua. Depois, o Rúben ia recebendo os 7 contos e ofereceu-se para fazer as ilustrações que são maravilhosas.

Esta rota das 7 luas é um contacto entre pessoas de diferentes gerações?
Este livro é para crianças e para jovens, mas cada história deste livro é muito mais que uma simples história. Cada história deste livro remete para valores intemporais, como por exemplo, a importância da preservação da natureza, da amizade, de perceber que nenhuma cor é mais luminosa e tem mais relevo do que qualquer outra, da sabedoria, de gostarmos e apostarmos em nós e a importância do amor incondicional. Que é a emoção base que nos liga enquanto seres cósmicos. Portanto, isto é um livro para crianças, mas poderá ser um livro para adultos.

Como é que descreve esses valores nos dias de hoje?
Os dias de hoje são dias dicotómicos, achamos que não. Vivemos num mundo em que há muita guerra, dor e diferença, mas eu pertenço a vários segmentos de gente que não é nada assim. É gente que poderá ter uma elevação espiritual diferente. Pertence ao registo de uma nova era, que pensa o Homem como um ser em que se entrelaça a sua alma com a alma dos outros e que a própria Natureza faz parte de todos nós. Os dias de hoje são dias difíceis, mas para mim, e numa leitura do mundo, são dias do fim de uma época que adivinham e anunciam uma nova época.

Qual é essa época?
Eu sinto que este mundo é o fim de uma sociedade machista, materialista, belicista, hedonista, mas fizemos uma paragem e a Covid-19 não foi qualquer coisa que apareceu por acaso. É o que
eu sinto. Obrigou-nos a parar, a pensar e a perceber que somos todos suscetíveis e frágeis e que qualquer momento o dinheiro, a cor e a riqueza não nos livra da morte. E ai somos nivelados por algo superior. Auroville começou na Índia nos anos 60, Findhorn começou na Escócia nos anos 60, e muitos movimentos começaram nessa altura. Foi nessa altura que o Mundo começou a despertar, e em que determinados valores do Oriente começaram a chegar ao Ocidente. E não é por acaso. Nós somos humanos e achamos que no nosso pequenino período de vida tudo vai mudar. Mas não. A nível do Universo e a nível da História 100 anos não é nada. É isso que eu sinto. Estamos a dirigir-nos para algo muito diferente.

Há pouco disse que essa diferença vai ser mais global e não tanto pessoal. Do ponto de vista pessoal o que é que vai acontecer, na sua opinião?
Hoje a Internet é uma ferramenta que, sendo utilizada da melhor maneira, nos une. Eu faço parte de um grupo e todos os dias a uma determinada hora reúne pessoas de todo o planeta, do Brasil à Nova Zelândia, a orar na mesma hora pela cura do planeta. Era uma coisa impensável há 40 anos. Era impensável que uma pessoa que vive no país x se preocupe com o que acontece no país y. Isso hoje é possível. Há muita gente a querer sair deste registo de vida urbana, que se preocupa com a natureza, animais e com as árvores. Eu fiz parte de um movimento de pessoas que traduziu para português um livro que foi canalizado nos anos 60 e que se chama “The Call Of The Trees” em português é “O Chamamento das Árvores”. São mensagens que as árvores da Escócia enviaram para os humanos sobre a necessidade de as preservar e o porquê das árvores serem tão fortes, felizes e resistentes. Isto são mensagens que correm hoje pelo mundo. No nosso contacto diário, se não estivermos atentos a estas coisas não se passa nada. Mas passasse, sim.

As pessoas estão conscientes destas alterações e dessas mudanças todas?
Depende. Eu sinto que a nossa consciência de ser é evolutiva. É como se estivéssemos rodeados de pessoas. Umas ainda estão na pré-primária, outras no liceu, universidade e outras já estão em patamares avançadíssimos de conhecimento. Numa família podemos ter todas estas matrizes. Podemos ter pessoas que se preocupam só com o ter, aparência, com as coisas e com o imediato. E poderemos ter outras mais conscientes para quem tem uma importância relativa, mas a sua maior preocupação é ‘Qual é a minha missão? O que é que estou aqui a fazer? Quem é que eu sou no meio deste Universo? O que é que posso melhorar? Que ser é que posse ser amanhã?’. É isso que acho importante. E conheço muita gente assim, felizmente.

Nesta ‘Rota das 7 Luas’ encontramos aqui algumas aberturas?
Encontramos. Este livro tem 7 histórias, 3 europeias, 3 africanas e a última é uma história do mundo. Quando digo que são europeias é porque se passam na cidade e as outras passam-se na floresta e na savana. São histórias que vinculam a sabedoria antiga. Uma história fala de um rio que está a ser poluído por homens que não gostam de árvores e que despejam lixo para o rio. São alertas. Mas nas europeias, também tem uma bailarina que perseguiu o sonho e não desistiu. Há muitas janelas que se vão abrindo. Muitas mensagens, algumas subliminares outras mais evidentes, mas como eu digo estas mensagens vão chegando à nossa alma de acordo com a nossa evolução espiritual.

Este conto que é mais global, baseia-se em quê?
É um conto de 2 irmãos que vivem num ponto do globo, que não digo qual é. Há um irmão mais velho e outro mais novo. O mais velho é um homem muito introspetivo, que pensa muito o que será a vida do irmão mais novo se um dia quiser sair da aldeia e da bolha em que vivem. Um dia, ele decide aconselhar-se com a primeira estrela da noite, uma entidade cósmica viajante que conhece pessoas de várias nacionalidades, os animais do mundo e é muito sábia. Então o mais velho pergunta à estrela da noite o que é que aconselharia para ele transmitir ao irmão, em termos de saber estar e saber fazer, para um dia vir a ser feliz. E a estrela sábia diz-lhe que o núcleo da felicidade reside no amor. Ela diz que já viu meninos muitos diferentes, mas que todos choram da mesma maneira, todos sentem da mesma maneira e todos gostam e ficam felizes quando são acarinhados, amados e protegidos. Será sempre o amor, o sentimento mais forte onde todas essas pessoas e que faz com que nós estejamos felizes. Porque quando nós vibramos em estado de amor, nós atraímos amor.

Como é que descreve a estrutura do livro?
Acho que é um livro bonito e que resultou muito bem. É muito na linha das edições Matrioskas porque já tinha participado num outro livro, num registo muito diferente. Gosto muito do toque do livro, do tamanho e do formato. O Rúben é uma mais valia sem tamanho porque as ilustrações dele são maravilhosas. Sou portuguesa, mas tenho uma ligação fortíssima a África nomeadamente a Cabo Verde. Quase tudo o que me rodeia tem haver com isso. Já mostrei as ilustrações a amigos meus africanos e eles adoraram. Hoje falei com uma criança que me disse: “Gostei tanto daqueles desenhos!”. É um livro que espelha a pessoa maravilhosa que o Rúben é. Soube interpretar cada história e soube plasmá-la graficamente com a beleza da alma que o inunda.

O livro foi escrito numa época de algum confinamento, e tendo em conta a situação que se vive neste momento é comercializado de forma física?
Ele vai ser apresentado publicamente no dia 25 de setembro no Centro Cultural de Cabo Verde, em Lisboa. É quase a minha segunda casa. É um sítio onde estou muitíssimo confortável e de que gosto muito. Eu canto morna num coro e ensaiamos lá muitas vezes. É um sítio que me diz muito. Nesse dia o livro vai estar à venda.

Vai ter em conta, também, a situação pandémica, ou seja, estará à venda em formato digital?
Sim, vai estar em áudio livro.

Teresa Noronha encontra na “Rota das 7 Luas” algumas características das pessoas e algumas mudanças que estão a operar. Do ponto de vista pessoal, como é que se descreve antes e depois da eclosão da Covid-19 e da aprendizagem que tirou do confinamento e da escrita deste livro?
Eu sou um projeto em andamento. Sou uma pessoa que vai sempre mudando e que vai sendo influenciada pelas coisas. Sempre tive uma vida rodeada de pessoas. Nos últimos anos larguei o meu trabalho e dediquei-me, exclusivamente, a um projeto que iniciei com pessoas que vêm evacuadas de Cabo Verde para tratamento e formei uma associação de raiz para as apoiar. Foi uma aprendizagem muito grande porque essas pessoas vêm com doenças e convivi com a morte muito regularmente e fez-me crescer muito. Quase que me senti uma privilegiada na covid. Eu moro no Restelo numa casa com varanda que dá para o Tejo. A minha família estava bem de saúde e via, quotidianamente, os números de gente a morrer. Entrava-me pela casa adentro as imagens de gente entubada e agradecia a Deus e ao Universo todos os dias este privilégio e esta bênção de estar bem. Há coisas que faço e que são muito solitárias, como o ler, escrever e pesquisar. E fazia muito isso. Escrevi e li muito. Talvez tenha mudado ao dar menos importância a coisas que não têm importância e priorizar a na minha vida aquilo que é verdadeiramente básico que é a amizade, a solidariedade, a saúde e as pessoas que contribuem para o bem dos outros. A covid fez-me perceber que os médicos e enfermeiros que estavam ali todos os dias com aqueles fatos a ver gente morrer… No meio disto tive um irmão que morreu quando eu estava na Escócia. Isso talvez me tenha feito despegar de muita coisa. Com este livro, eu quero tocar a alma das pessoas, vê-las felizes e ver sorrisos. É isso. (MM)

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