Europeias 2019: União Europa e África devem tirar benefícios de “uma migração coordenada”

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Com a eleição dos 705 eurodeputados ao próximo Parlamento Europeu, que será vincadamente de famílias políticas europeístas, há uma voz africana que alerta para a necessidade de a União Europa e África tirarem benefícios de “uma migração coordenada”.

O antigo adjunto do secretário-geral das Nações Unidas, Carlos Lopes, considera que “a demografia mundial está a penalizar um continente como a Europa, que é um continente em envelhecimento”, pelo que há que ver quais são os benefícios que se podem tirar de “uma migração coordenada”.

Numa declaração por vídeo feita no quadro das discussões sobre os desafios e impactos das migrações, que decorreram há dias em Lisboa, o sociólogo guineense fez uma análise dos benefícios da imigração e desmistificou a perceção e a narrativa sobre os fluxos migratórios, sobretudo, da parte de africanos que vêm para Europa.

“A principal nacionalidade de origem na União Europeia vinda do exterior é a Rússia, não é nenhuma nacionalidade africana. De países como a Ucrânia há muito mais imigrantes em direção à União Europeia do que de outras proveniências”, disse o académico nascido na Guiné Bissau.

E sustentou o discurso baseando-se nas estatísticas oficiais das Nações Unidas: “há 250 milhões de pessoas a viverem fora dos seus países de origem”, disse Carlos Lopes, que chamou atenção para outro dado sobre a imigração.

“Portanto essa questão da migração está mal equacionada, porque se as pessoas soubessem que no stock mundial dos migrantes apenas 14% são africanos contra 24% do stock que é de origem europeia e 41% que é de origem asiática. E que destes 14% dos africanos a maioria fica no próprio continente, teríamos que rever essa ideia de maremoto e que a demografia mundial está a penalizar um continente como a Europa, que é um continente em envelhecimento, e teríamos vontade de ver quais são os benefícios que podemos tirar de uma migração coordenada”, afirmou.

Carlos Lopes lembrou que, em 2006, a União Europeia e a União Africana assinaram uma declaração conjunta sobre migração e desenvolvimento, conhecida como o processo de Rabat, e que estabelecia o objetivo de desenvolver um quadro abrangente de cooperação entre os dois continentes centrado na questão migratória.

Mais tarde adotaram a estratégia conjunta União Europeia-África “que proporcionou a oportunidade de inserir esta ambição num quadro mais vasto de cooperação, que delineava a intenção de transferir a relação entre doador e destinatário para uma que se baseasse mais nos interesses comuns e parcerias”.

Mas, “o diálogo foi baseado no facto de que um quarto (¼) dos imigrantes para a Europa era proveniente de África. O que não se disse nessa altura em alta voz, pelo menos, é que 94% desses imigrantes africanos eram e ainda hoje são residentes legais, ou seja, apenas seis por cento passa por esse fluxo migratório ilegal”, afirmou Carlos Lopes.

E mais: a partir de 2010, “o debate sobre os caminhos legais para a migração acabou por se estagnar”, numa altura em que o diálogo estava “focado na questão irregular, que é extremamente pequena”, os seis por cento de africanos ilegais.

“A União Europeia tornou-se cada vez mais relutante em se concentrar nas questões de interesse comum e parcerias. África e a União Europeia chegaram a acordo sobre uma parceria para a migração, mobilidade, emprego, e um plano para a migração África-União Europeia para o período 2008-2010, mas imediatamente isso foi descartado em favor de um outro documento e outro processo chamado Diálogo sobre Migração e Mobilidade, em 2014, que também caiu”, referiu.

Para o antigo funcionário da ONU, “na realidade, o que podemos dizer é que a União Europeia se tornou desinteressada em discutir a mobilidade nesse quadro que ela mesma tinha definido, e como disse apenas ¼ dos imigrantes africanos está na Europa, metade está em outros países africanos e o saldo é encontrado na América do Norte e na Ásia”.

A imigração foi um dos temas que mais vingou no debate sobre as eleições às europeias que se realizaram nos 28 países da Comunidade e a forma como o tópico foi abordado em diferentes estados europeus terá contribuído para os resultados do escrutínio para o Parlamento Europeu na noite eleitoral deste domingo.

Em Portugal, as únicas duas candidatas afrodescendentes que concorriam ao cargo de deputadas ao Parlamento Europeu não conseguiram ser eleitas, mas fora de portas a imprensa destacou a eleição de “duas eurodeputadas lusófonas do Luxemburgo”, mulheres de origem cabo-verdiana que representam os rostos da vitória da imigração nesse escrutínio.

Mónica Semedo, jornalista e apresentadora de televisão, foi a quarta candidata mais votada em Luxemburgo, e Isabel Wiseler-Lima, lusodescendente, que foi cabeça de lista e a quinta candidata

mais votada naquele país, que acolhe atualmente grande parte da máquina administrativa fundamental que garante o funcionamento da instituição.

Na análise feita antes das eleições desse fim de semana baseada na perspetiva africana sobre os debates migratórios, Carlos Lopes já havia assinalado que “há um grupo de imigrantes africanos instruídos de que não se fala” nos grandes debates: os que “tomam aviões aos invés de se ficar pelo deserto ou pelo Mediterrâneo” para chegar ao Ocidente.

E hoje sabe-se, por exemplo, “que um em cada seis universitários africanos vai sair do continente. E, paradoxalmente, torna a migração de África particularmente bem educada e formada, altamente qualificada ao ponto de nos Estados Unidos, nas estatísticas do censo nacional, os imigrantes com maior taxa de educação são os nigerianos de todas as nacionalidades que estão contabilizadas nos fluxos migratórios”, assegurou.

Por isso, para que a Europa e África “ordenem essa migração melhor do que aquilo que já se faz” é preciso “cuidar dos seis por centos ilegais dos africanos que estão na Europa”, defendeu Carlos Lopes.

“E nós sabemos que os altamente qualificados representam apenas três por cento da força de trabalho na África, mas representam 35% dos imigrantes que saem para fora do continente. Em geral, os africanos não olham para a migração negativamente”, sublinhou. (MM)

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