Felwine Sarr e uma África sem ‘copy paste’, se faz favor

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Economista senegalês Felwine Sarr. Foto retirada do Facebook ©


Alexandra Silveira

Modelos de países desenvolvidos não cabem nos países africanos que têm de encontrar o seu próprio caminho, sem afro pessimismos nem afro euforismos. Com realismo qb.

Esteve em Portugal. Uma vez mais. Para falar sobre a sua visão para África. A afrotopia. O caminho próprio que o continente tem de fazer sem copy paste dos países desenvolvidos. Para falar do espólio africano espalhado pelo mundo e que deveria ser devolvido à casa-mãe e para falar de um ‘racismo menor’ que anda por aí, pela calada, principalmente em antigas colónias.

Tem 47 anos. É senegalês e autor de “Afrotopias”, onde escreve que “África é um continente que tem uma superfície de 30 milhões de quilómetros quadrados, composto por 54 Estados. Cabem nela os Estados Unidos, a China, a Índia e uma parte da Europa Ocidental. Com uma população de cerca de mil milhões de indivíduos, e uma taxa de crescimento demográfico de 2,6%, daqui a meio século será o continente mais povoado, com 2,2 mil milhões de habitantes, representando um quarto da população mundial. (…) Desde 2000, o seu crescimento económico é superior a 5%. Entre as mais altas taxas de crescimento do mundo de 2008 a 2013, os países africanos estão bem representados.”

Um cenário que, por si, coloca o continente como um dos mais apetecíveis em termos de riqueza, de mercado e de mão-de-obra, vislumbrando-se, por isso, um novo modelo de colonização. Mas como fugir, a sete pés, deste quadro, reverter a História e devolver, economicamente falando, a sanidade a estes países.

Afrotopia, a solução

“As economias africanas descolariam, se funcionassem com os seus verdadeiros motores”, este é o statement do autor.
Para começar, preconiza Felwine Sarr, não se pode transformar as cidades africanas em cópias das metrópoles do mundo desenvolvido. Esta é a base da Afrotopia, ou seja a utopia de um continente que não precisa de alcançar ninguém. “Não precisa de correr nos caminhos que lhe indicam, mas sim caminhar com destreza para escolher para si”.

E tal só é possível com a mudança de mentalidades que, pouco a pouco, já vai acontecendo com esta nova geração que “tem como desafio livrar-se do odor persistente do pai”. Ou seja, procurar novos caminhos que não sejam importados de países com outra maturidade. Até porque o Ocidente, adianta o senegalês, faz muitas análises de África que oscilam do afro pessimismo ao afro euforismo. E em que ponto se situa Felwine? “Um otimista cauteloso”, confessa.

“A maioria dos governos pós independência fracassou, adotando péssimas escolhas económicas e políticas, alguns deles pilhando as riquezas do seu país em benefício do próprio clã. Eles não são, no entanto, responsáveis, pelas condições iniciais que lhes foram legadas pela Historia”, acrescenta. Ou seja, a dupla escravidão-colonialismo, apesar de fundamentais na narrativa, não podem justificar tudo.

A descolonização intelectual e o racismo menor

Há mais de 50 anos ocorreram as primeiras descolonizações e este ano cumprem-se 45 desde a saída de Portugal das suas colónias africanas. Ainda assim, o vínculo é muito forte. Sarr explica. “A descolonização não é apenas territorial e não acaba com as independências dos países, é um processo. O mais importante é a descolonização intelectual, psicológica, do conhecimento”.

Mas esta é uma situação complicada de se resolver até porque “as grandes companhias que exploram os recursos naturais são internacionais. E retiram esses recursos porque têm tecnologia que nós não temos, em todas as áreas, das telecomunicações às minas, ao petróleo. Os nossos governos, por sua vez, também são influenciados pelas políticas do Banco Mundial e do FMI, pelos políticos do Norte na forma de governarem as suas sociedades”.

No fundo, o que está aqui em causa é a representação de África no mundo, a possibilidade de dizer `eu quero isto. E eu não quero isto’. Todo este passado coloca o continente numa posição frágil, quase subjugada, dando margem para contextos racistas e superioridades. Para o autor, que o racismo é crime é de lei. “Mas existe outro tipo de racismo no dia-a-dia, o chamado racismo menor, que vai persistindo” e que, como não é palpável, não pode ser provado, logo não pode ser julgado.

A África o que é de África

Outra frente em que Felwine está envolvido é o do espólio africano espalhado pelo mundo. Em 2018, elaborou, juntamente com a historiadora e investigadora Bénédicte Savoy, o relatório “Restituir o Património africano: para uma nova ética relacional”, uma iniciativa do governo francês para analisar e medir o espólio existente, ao todo 90 mil peças, a maioria localizada no Museu do Quai Branly-Jacques Chirac, em Paris, mas também noutros reputados como o Museu Real da África Central da Bélgica, o Museu Britânico, o Weltmuseum/Museu do Mundo de Viena e o futuro Fórum Humboldt de Berlim.

Em resposta ao relatório, a então ministra da Cultura de Angola, Carolina Cerqueira, reiterou: “É imperioso que a diplomacia angolana em colaboração com o ministério da Cultura e outros departamentos ministeriais, possa dar início a consultas multilaterais com vista a regularizar a questão da propriedade e da posse, por um lado, e, por outro lado, da exploração dos bens culturais angolanos no estrangeiro”.

Também em Portugal o tema assume relevância. O Livre apresentou uma alteração de proposta ao Orçamento 2020 “com vista à descolonização das coleções dos museus e monumentos do Estado e no sentido da sua recontextualização histórica e contextual” propondo um grupo de trabalho “composto por museólogos, curadores e investigadores científicos, cujo objetivo é a produção de uma listagem nacional de todas as obras, objetos e património trazidos das antigas colónias portuguesas e que estão na posse de museus e arquivos nacionais, por forma a que possam ser facilmente identificados, reclamados pelos e restituídos”.

Felwine Sarr vai continuar o seu périplo pelo mundo em prol de uma África com representação. Ele que oscila o seu tempo entre a economia, a investigação e até a música.

Quem é Felwine Sarr

Felwine Sarr nasceu em Niodior, nas ilhas de Saloum, no Senegal, e cresceu entre Strasbourg (França), Kaolack, Tambacounda e Dacar (Senegal). Doutorado em Economia pela Universidade de Orléans (França), é professor na Universidade de Gaston Berger, em Saint Louis (Senegal), na qual, em 2011, ficou responsável pela faculdade de Economia e Gestão e criou o Centro de Investigação em Civilizações, Religião, Arte e Comunicação (CRAC), onde ensina Economia Política, Economia do Desenvolvimento, Econometria, Epistemologia e Historia das Ideias Religiosas.

É editor do Journal on African Transformation, editado pelo CODESRIA – Conselho para o Desenvolvimento da Pesquisa em Ciências Sociais em África e pela UNECA – Comissão Econômica das Nações Unidas para a África. É autor dos livros Dahij (Gallimard 2009), 105 Rue Carnot (Mémoire d’Encrier 2011), Méditations Africaines (Mémoire d’Encrier 2012), Afrotopia (Philippe Rey 2016), entre outros.

Como músico, lançou os álbuns Civilisation Ou Barbarie (2000), Les mots du Récit (2005) e Bassaï (2007). Em 2010, recebeu o Prémio Abdoulaye Fadiga para investigação em Economia; em 2016, o Grand Prix of Literary Associations (Camarões) e, em 2018, o The Nicolás Guillén Outstanding Achievements in Philosophical Literature Award, atribuído pela Associação de Filosofia das Caraíbas. Organiza, desde 2016, com Achille Mbembe, os Ateliers de la Pensée, em Dacar, que teve em 2019 a sua terceira edição, ponto de encontro e de debate entre académicos e artistas africanos e da diáspora africana, sobre as transformações do mundo contemporâneo. (X)

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