Fernando Henrique Cardoso: É preciso “acreditar no país, acreditar que você pode dar certo e trabalhar”

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Fernando Henrique Cardoso, ex-Presidente do Brasil

Fábio Alexandrelli

O ex-Presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso apela à juventude brasileira residente dentro e fora do território nacional a “acreditar no país”, mas lembra que mais do que “acreditar que você pode dar certo e trabalhar” é preciso ter consciência de que “no mundo de hoje tem que ser muita coisa ao mesmo tempo”. Em declarações ao programa radiofónico “Além Fronteiras”, um espaço aberto de divulgação de pensamentos de figuras de Portugal e do Brasil para o mundo, conduzido por Fábio Alexandrelli, o ex-Presidente do Brasil e ex-Senador de São Paulo abordou o seu percurso de vida até entrar na política e falou sobre a diversidade cultural desencadeada de intercâmbios.

O senhor é sociólogo, professor universitário, foi senador, ministro das relações exteriores, ministro da fazenda e Presidente da República de 1995 a 2002. A comemorar 90 anos de idade, queria que contasse um pouco da sua infância, da sua construção como intelectual. Como é que foi a construção do homem Fernando Henrique Cardoso?

Eu nasci no Rio, e o Rio era capital. O meu pai era militar e morreu quando era general. Mas ele era advogado e sempre gostou de literatura. O meu avô foi marechal ajudou na proclamação da República. O pai dele foi governador de Goiás no tempo do Império. Enfim, há muitas histórias. Eu queria ficar na universidade por causa de influência do meu pai. Eu na verdade gostava mesmo era de ler e produzir. Eu tive um professor a quem talvez eu devo a iluminação para poder trabalhar com vontade. No meu tempo, a Universidade de São Paulo foi criada pelos franceses. As aulas eram dadas em francês. A língua dos profe Universidade de São Paulo chamado Florentin Fernandes. Talssores era o francês e não se davam ao trabalho de aprender português. A minha vida foi de pesquisador. Eu estudava muito a escravidão e o preconceito racial. O Paulo Carneiro, que era meio parente meu, representava o Brasil na UNESCO e através do Paulo inventava-se na UNESCO que o Brasil seria o lugar para estudar o não preconceito. Nós fomos ver a realidade e não era bem assim. Havia muito preconceito. Era diferente do preconceito nos Estados Unidos. Outra forma de preconceitos mais disfarçados, mas havia. Eu queria estudar e fazer teses e trabalhei primeiro como auxiliar de ensino. Depois o Florentin Fernandes voltou para França e designou-me para primeiro assistente. O primeiro assistente era o substituto do professor. Aquilo para mim foi uma grande honra e um choque. Eu queria fazer tese e fui fazendo. Era novo e quando entrei na faculdade tinha 17 anos. Logo de seguida fui convidado para ser professor na Universidade de economia, em história económica. Fui para lá e depois voltei pra faculdade de filosofia para fazer sociologia. O meu objetivo não era de fazer vida política. E depois veio o golpe de 1964. Eu nem sabia que eu era de família de militares. Eu vivia a vida académica e fui posto fora como se fosse comunista. Fui proibido de viver em São Paulo. Depois trabalhei com Raul Prebisch, um argentino que era o chefe. O outro chamava-se José Medina Echavarría, e gostava muito dele. E então o que é que fiz? Procurei entender um pouco a América Latina. Passei a visitar muito a América Latina, ver as diferenças. E um amigo meu chamado Enzo Faletto, que era ajudante de Medina Echavarría, escrevemos um livro sobre dependência e desenvolvimento na América Latina. Nós escrevemos a situação que vimos, a variabilidade das situações. Eu vinha do Brasil que já era industrializado. Conhecia pouco a Argentina, mas conhecia. O Chile não era industrializado. Procuramos mostrar que falar de ‘sociedade dependente’ naquela época não era suficiente. Que tipo de dependência produz sociedade urbana industrial? É o campo que manda? Fizemos uma espécie de tipologia. Esse livro foi traduzido para alemão, inglês, francês, espanhol, e serviu de entrada para o mundo. Nessa altura já tinha sido professor em França, mas eu não tinha renome. E com esse livro passamos a ser reconhecidos. Esse livro foi escrito por mim e pelo Enzo Faletto, um chileno. Ele sabia mais história da América Latina do que eu. E fizemos esse livro que nos deu o passaporte pra entrar no mundo. Publiquei o livro em França, fui convidado para ser professor na Universidade de Paris e fui para lá. Mais tarde fui professor nos Estados Unidos, na Califórnia. Como é que eu fui senador é outro assunto. Na verdade, o André Franco Montoro colocou-me como suplente dele. Ele é que ia ser eleito para senador, não eu. Ele foi eleito senador e eu era o suplente. Até que o Montoro se tornou governador de São Paulo, e eu senador. Praticamente fui da Universidade para o Senado. E dei-me bem porque na minha casa conversava-se muito. O meu bisavô foi governador de Goiás no tempo do Império, então, não era uma coisa extraordinária e lidar com políticos. Eu passei a lidar com eles com uma certa naturalidade. Fiquei 12 anos no Senado e nunca deixei de ler para acompanhar a vida académica e quando terminei fui para os Estados Unidos. Eu fui pra França primeiro, viver vida comum. Não tinha automóvel. Se precisa-se tinha uma pessoa que me emprestava. Andava de metro, parapara me educar e reeducar-me. Quando estão numa posição formal, de presidência, é muito complicado. Há muita gente a fazer tudo para ti, e tu não fazes nada. Tentas fazer e não consegues. Passei a abrir as portas, a andar de autocarro em Paris. Voltei a vida académica. Voltei a escrever livros. Passo o dia aqui no meu escritório, na minha casa, criei uma fundação, e é isso. Uma vida banal.

Uma vida intelectual nunca é banal porque o mundo intelectual gera um prazer tão grande nas reflexões, nos pensamentos para poder encontrar novos caminhos. Como é que é lidar com 513 deputados federais e 81 senadores num país como o nosso que tem disparidades, desigualdades e desequilíbrios históricos. E tem que lidar com tudo isso. Como é que é o intelectual na política pragmática?

O meu pai foi deputado, e eu aprendi um pouco com ele. O meu avô era político também, mas nunca foi representante. Confesso que logo que eu cheguei ao Senado fiquei um pouco assustado. O pessoal era agressivo e eu não sou agressivo. Tinha que aprender a falar de uma maneira mais dura. Em Porto Alegre tive de conviver com o povo, e não podes falar com pessoas simples em modo presidente. Eu posso ter formação intelectual, mas eu sempre fui capaz de traduzir de uma maneira normal que sempre gostei de pessoas. No começo era uma confusão, porque a vida política é sobretudo desordenada. Por exemplo, tornas-te senador e eu era superior ao Montoro. Qualquer outro senador, ou mesmo deputado, entra lá sempre que quiser. É uma grande desordem, é difícil organizar. Eu tentava organizar um pouco. O choque maior que enfrentei foi a falta de disciplina na vida política, era muito indisciplinado. O meu pai era militar e tinha disciplina. Eu como intelectual tinha disciplina, na vida política perdes o tempo. No início, eu tinha muitas dificuldades em falar em comícios. Eu lembro-me de olhar para o Montoro. Ele falava rápido para ir embora para outra cidade. Eu fui observando como é que eles eram. E era difícil para mim porque era professor e dava aulas. Era péssimo. Às vezes dizem que desde pequeno queria ser presidente. Isso é mentira. Porque o que eu queria ser era professor. Gostava de falar e dar aulas. Quando fui professor tinha 19 anos. Eu tinha prática em falar com os estudantes. Eu nunca imaginei fazer o percurso que fiz. Eu tive uma vantagem sobre alguns dos meus companheiros porque a minha família. Tinha dificuldade com inglês, mas aprendi a cultura inglesa. Estudei alemão. Não falo bem, mas estudei. Então eu tinha essa vantagem sobre alguns dos meus colegas. Quase todos sabiam, pelo menos inglês. E aí percebes que tens que te adaptar a tudo. Eu era senador, fui exilado e fui parar ao Chile. Nunca imaginei morar no Chile. Automaticamente entendes a variabilidade da vida social. Uma coisa é o Chile, outra coisa é o Brasil, Inglaterra, a França ou a China. Tem que entender que existem certas singularidades a respeito da globalização. Tem que haver uma certa sensibilidade para o diverso. Publiquei talvez mais do que era necessário e escrevo para um jornal até hoje. Eu gosto porque me obriga a ter uma linguagem mais direta. Escrevi primeiro na folha de São Paulo. Havia um homem que corrigia os meus textos e dizia “tem de ter noção que uma coisa é escrever para o grande público e outra é escrever para a academia”. Tem que ter uma certa capacidade de adaptar-se às circunstâncias. Mas é bom ter essa capacidade de síntese, ter que pensar que está a escrever para gente não é culta e não pode citar autores. Foi uma boa aprendizagem. Tem que aprender a ser diverso. No mundo de hoje tem que ser muita coisa ao mesmo tempo. Pessoa que é muito especializada numa cultura, profissão, ou tecnologia não funciona. Tem que ter mais de versatilidade. A vida levou-me a isso. Aceito com tranquilidade, tento sobreviver.

E falando em militares na trajetória brasileira, o general Golbery do Couto e Silva dizia que a história brasileira é o movimento de sístole e de diástole, ou seja, de fecho e abertura. E o senhor trabalhou muito bem a questão do autoritarismo burocrático no Brasil. Os brasileiros ou na América Latina, inclusive agora no mundo vemos alguns movimentos, nós temos problemas com a democracia?

Acho que é diferente do que era naquela época. No passado os militares e as classes dominantes tinham ideias mais simples e eram capazes de tocar a máquina do Estado. O Getúlio foi a primeira mudança importante nesse sistema, porque veio de uma família tradicional, gaúcha. O Getúlio sabia ouvir. Foi o primeiro que falou de trabalhadores. Ele entendeu um pouco mais o jogo da entrada do povo na política. Isso deu confusão em muitos lugares. Depois passamos para outra fase, porque a sociedade é mais diversificada, tem interesses particulares, mas negocia os interesses. Aqui há mais capacidade de negociação. E gostemos ou não, a nossa sociedade americanizou-se muito no sentido político. Os Estados Unidos têm dois partidos importantes, mas nenhum deles pode impor nada. Todos têm que conversar. Aqui no Brasil tem muitos partidos. Aqui tem governo e oposição. E mesmo assim tem que conversar. Acho que a sociedade contemporânea é muito diferente do que foi a sociedade nos anos 30, 40 até a redemocratização. E agora está a passar por uma certa mudança. Mudança que é difícil as pessoas captarem, porque lembram-se do período pós-1945. Já não é mais assim. Há a questão do negro, do índio, das mulheres. São outros temas que estão aí e os políticos ainda estão a pensar em ideias um pouco menos atualizadas. Um bom político pressente. O Bolsonaro ganhou porque teve votos, e ter votos não é fácil. Eu respeito quem conseguiu ter votos, mas não significa que esteja de acordo. Estamos a viver uma época em que os partidos têm menos poder do que tinham no passado, em toda a parte. Nos países soviéticos eu não conheço, mas nos países capitalistas as pessoas passaram a contar. Como é que isso se vai desenvolver no futuro? Não sei como vai ser, mas vai mudar e está a mudar. Quando chega lá acima e é presidente, não faz o que quer, faz o que é possível. Tem o congresso que vota a favor ou contra, depois tem os media, tem de ver as corporações, os outros países, é um jogo internacional. E como é que transforma aquela diretriz em alguma coisa que motiva muita gente para ir num certo rumo? Às vezes há presidentes e governos que não têm rumo. Quando não tem rumo, alguém dá o rumo. Às vezes são partidos ligados a uma ideologia que já não têm possibilidades de ser como eram, como a esquerda. Hoje tem que negociar com todas as partes. Queira ou não queira. Não é fácil governar. Eu sou mais paciente do que muitos amigos meus esperariam dos presidentes dos governos. Porquê? Porque eu tenho experiência. Não faz o que quer, faz o que pode. Quando pode. Tem que prestar atenção. Há vários fatores. Olhar para a imprensa, para o movimento social para o sindicato, para o congresso do partido e o povo. O povo quer comer e quer ter emprego. Precisa ter o que fazer. E levar para um caminho é muito difícil. Quando as pessoas sentem que está a faltar o rumo não se sentem seguras. Quando tem um rumo, pode gostar do rumo ou não gostar do rumo, aquilo leva. Qual foi a vantagem dos partidos de esquerda na Europa, os comunistas. Eu não estava de acordo com o rumo que davam ao povo. As necessidades simples vão-se redefinindo no tempo e quem tiver sensibilidade política tem que entender o momento. Não tem que ser uma coisa fixa.

Tem um pensador que hoje em dia é excomungado por pessoas que não o leram, não o estudaram, que é o Marx. O Marx tem uma passagem em que amplifica a nossa visão e a extensão da realidade e diz o seguinte: “A sociedade burguesa só pode existir revolucionando de forma permanente e constante os instrumentos de produção, as relações de produção e toda a sociedade”, ou seja está tudo. Como é que está o Brasil? Tem que ter um investimento em pesquisa, ciência e tecnologia para fazer frente ao mundo. E o mundo não está parado. A União Europeia não está parada. A China não está parada. Os Estados Unidos não estão parados. Onde é que o Brasil se insere dentro desse capital contemporâneo no século XXI?

Nós tínhamos um grupo que se chamava ‘Seminário do Marx’, não éramos necessariamente adeptos da doutrina marxista, mas o Marx tinha a visão que havia uma classe redentora: a classe trabalhadora. Todas as pessoas têm de participar. O desenvolvimento científico e tecnológico é muito importante porque revoluciona. Queira ou não queira as coisas revolucionam-se. Acho que os políticos do Brasil de hoje não dão tanta importância aquilo que é importante. O que é importante? É o crescimento da economia baseado na revolução tecnológica contínua. Muda a toda hora. Eu fui professor universitário nos Estados Unidos e sobre robótica, tinha um amigo chileno que trabalhava lá. Ele não tinha ideia que estava a revolucionar o mundo. Não tinha ideia. O nosso mundo é tecnológico, goste ou não goste. E vai ser sempre de transformação. Nós vivemos numa época em que a ciência coordena muito. Não coordena tudo não, há momentos em que a vida e a política se impõem. E por incrível que pareça, por mais que existam sociedades abstratas, organizações, o líder é importante. Continua a ser importante. Quem formula de modo a que os outros se entendam? Olhando para o líder da Rússia e conhecendo-o ele comanda. Se olhar para o líder americano também sabe como é. Quando há um problema no mundo político, é a incapacidade do líder expressar o sentimento partilhado. E mais que o sentimento, levar a uma ação com que faça que se sinta parte daquele processo. Hoje, o Brasil sente-se um pouco fora do mundo, errado. Nós somos parte dele e ninguém vai estar fora do mundo. Vamos ter que competir dentro desse mundo. Nós temos uma grande vantagem, não temos guerra. Aqui não conta com a guerra como se fosse um obstáculo ou um incentivo. Ou você organiza o país, faz crescer, dá emprego, satisfação de viver ou vai se sentir mal. Tem possibilidade? Eu acho que tem. Necessariamente tem que passar por um governo de esquerda? Não. Vai variando. Quando cheguei aqui não havia nada. Agora inauguraram um estádio, há prédios. Aqui tem força. Isso tem consequência. Acorda de manhã e vai-se espreguiçar? Vá trabalhar. O mundo hoje é empresa. Empresa é uma fonte de riqueza de trabalho e de tecnologia também. A universidade está cada vez mais ligada à empresa. Cada vez mais vemos a universidade com uma orientação tecnológica, procura a capacitação. Conseguimos criar uma camada com certa competência. O mundo é mais interligado você, não pode ficar isolado. No meu tempo ir pra Europa implicava parar em África. Hoje vai direto em 8/9 horas. Eu tenho netos e bisnetos e todos estudaram fora do Brasil, falam outra língua. Mas para eles é mais normal conversar em outra língua. Eu falo, mas não me sinto muita à vontade. O mundo se globalizou como se diz hoje. E se nós não formos capazes de entrar nessa globalização, vamos ficar pra trás? E nós temos um problema. O Brasil é grande e rico em agricultura. Isso pode levar a ideia que você pode ficar isolado. Ninguém vai ficar e viver isolado. Hoje tem que ter intercâmbio, tem que ter contato. Nós vivemos uma era, que é uma era de intercâmbio. Não pode ter a pretensão de ter o monopólio de nada, muito menos o saber. O saber é feito em várias em várias partes. Tem lugares mais atrasados e mais avançados. Tem que aprender a respeitar as diversidades, e saber que não é fácil. E o Brasil precisa de ver isso também. Se nós quisermos ser gente do futuro temos que nos preparar porque os outros também se estão a preparar e vamos preparar-nos. A China sempre foi criativa. Continua a ser, mas se ficar isolada perde. Nós temos que viver globalmente, não tem outro jeito.

O que tem sido objeto das minhas reflexões é o ser humano. E o ser humano ele tem o fundamento que é a criança, é a família. Portanto, é a partir dai que nós vamos construir esse ser que vai se apropriar do futuro para a construção do país que nós queremos perante o mundo e articulando-se, interligando-se e fazendo negócios com o mundo. Nesse sentido, a diplomacia do senhor teve os melhores quadros. Os melhores. Aí eu diria o seguinte, porque é que não fazemos essa revolução no ensino fundamental? Para darmos esse salto qualitativo em 20 anos. Porque ainda persiste esse gargalo? Falta dinheiro?

Não, falta é vontade e conhecimento. Eu brincava com o meu filho mais velho como se fosse criança porque eu não tinha muita noção da diferença entre pai e filho. Era muito jovem. E eu acho que é muito importante levar as crianças a sério. Lidar com elas e não infantilizá-las. Eu lembro-me que na casa da minha avó todos os filhos opinavam, e isso manteve-se na casa do meu pai. Todos tínhamos opinião. Hoje há muitas famílias que tratam as crianças como se fossem outro ser. Tem que treiná-las, aprender e conviver com elas. E aprende no convívio. Eu acho que as crianças são muito importantes. Eu dou uma certa atenção porque eu tenho netos e bisnetos. Eu procuro conversar sentir, e quem sabe mais do que eu. Pode não saber das minhas coisas, como a sociologia, mas sabem o que é importante. Eu acho que é muito importante dar a atenção aos jovens e às crianças. Vou dar um exemplo concreto. Eu tenho uma fundação, mas depois deixei a presidência. Mas para não ficar só nisso eu recebo jovens, dois tipos: os ricos que pagam e os pobres que não pagam. As experiências não são as mesmas, mas as angústias são as mesmas. ‘O que que eu vou fazer da minha vida? Como é que vou inserir-me no mundo?’ E isso rejuvenesce-me. Você tem que ter contacto com gente mais jovem. O jovem que está produzindo, ele vai ter que produzir e tem que aprender o que é hoje o mundo. Não aprende só pelo mais velho, aprende com eles também. Tem que se abrir ao mundo. Viver é ter relação. Eu cheguei a uma idade em que os meus amigos começam a morrer. É natural. Tem que viver com os mais jovens que vão durar mais tempo, e aí tem outras inquietações diferentes das nossas e das minhas. Eu acho que isso é importante. No momento que você diz ‘está tudo bem’, está mal e morreu. Eu gostava muito de pintura, antigamente. Uma vez estava em Espanha e um amigo convidou para visitar um museu. Perguntou-me uma coisa e tive de pensar sobre o que me perguntou. “Porque é que ele fez aquele tipo de quadro? Porque é que pegam no modernismo todo? Porque é que o inventaram?”. Eu tenho que entender essas novas expressões de sensibilidade. No começo é difícil, custa. Depois descobre que eles também têm problemas, também tão resolvendo os seus problemas. Tem que tentar acompanhar as gerações. Se não tenta, quando pensa que já sabe tudo, morreu. Duvido, logo eu existo. Não duvido, morri. Tem que tentar, tem que experimentar. Para mim a coisa mais importante na vida não é a inteligência, é a curiosidade. Eu acho que temos de ter uma certa abertura de alma para poder acompanhar. Acompanhar, não é fazer. Quem vai fazer não sou eu, são vocês. Tem que saber por onde é que as coisas estão a passar.

Tem uma relação muito próxima e muito boa com Portugal. O que é que se lembra dessa época no seu governo?

Bom, eu tinha um bisavô que era português, isto no século XIX. Mas não é por isso não. Conheço mais franceses do que portugueses, mas sempre tive muita admiração cultural. Portugal é um país pequeno, organizado, descobriram metade do mundo. Eu conheço o atual presidente, esteve aqui recentemente e jantou aqui em casa. O Mário Soares era meu amigo e o mais engraçado. Era uma pessoa muito simpática para mim. Eu vou duas vezes por ano a Portugal porque sou membro da fundação Champalimaud. É uma fundação que tem um hospital. É uma boa fundação. A presidente chama-se Leonor Beleza. A família Champalimaud ficou bastante rica e fez o hospital. Eu vou e vou com prazer. Porque primeiro os portugueses são educadíssimos. Os que estão lá no conselho, são geralmente os professores ou pessoas ricas. Eles são cerimoniosos. Mas eles conseguiram fazer coisas. Eu admiro os povos que realizam. Portugal sendo um país pequeno foram a África, América Latina e até à Ásia. Fizeram colónias e o português criou o mundo. Tenho muita admiração por Portugal, eles têm um jeito de ser muito direto. Nós temos mais dificuldade em dizer as coisas como elas são. Portugal tem uma ligação forte com África e com o Brasil, essa mistura é boa. Eu sou favorável a misturas porque sou misturado e gosto de misturas. Há muitos portugueses que vieram das colónias, representa o mundo e isso é bom. Acho que Portugal é um país que vale a pena. Não tive influência direta da cultura portuguesa. No meu tempo de estudante no Rio a cultura era mais francesa e americana do que portuguesa. Sempre tive um pouco de admiração por Portugal talvez por causa do meu bisavô português, que eu não conheci. A minha avó era carioca, mas falava com um sotaque levemente aportuguesado. Sempre tive bastante abertura pra o diferente. Eu preciso da diversidade para viver.

“Eu acho que é bom ter diversidade no governo”

Estar vivo ainda continua sendo um grande mistério, um mistério fantástico. E a gente convivendo com as diferenças a vida fica muito mais bela e muito mais dinâmica porque aprende muito mais. E pode ser muito proveitoso e deixar várias obras. O senhor deixou e na Presidência da República porque eu acho que o problema do Brasil é que a política ficou, eu sei que o tempo da política é diferente do tempo intelectual, mas esse pragmatismo muito objetivo da política está fazendo o que a gente perca a visão de médio longo prazo para onde o Brasil tem que ir. Isso passa pela educação, passa pela cultura, pela pesquisa, pela ciência, pela tecnologia, para economia crescer, porque se produzirmos violência, marginalidade, desigualdade e isso que a gente tá vendo por ai…

No meu governo fiz uma grande mistura, políticos com universitários. Paulo Renato presidente da educação era universitário. O Serra era universitário. E por aí vai. Tem vários que eram de universidade. Clóvis de Carvalho também. E também tem de ter pessoas que entendam de política. Mas eu acho que é importante que os universitários tenham uma visão mais global e mais destacada. Ninguém governa sem prestar atenção aos interesses claro, mas não basta isso. Tem que ter uma visão do Brasil o que quer fazer com o país. Tem experiência ou viveu em outro país? Isso é importante. Eu acho que é bom ter diversidade no governo. Também tinha militares. O meu pai era militar e não tenho preconceito com militar. Não tenho. Primeiro eu tenho que dizer o que acho com clareza para eles entenderem e sentirem. O Brasil é meio desorganizado, e a política vai fazer a ponte. Tem de saber dar-lhes a dignidade que têm.

Qual é a mensagem que deixa para a juventude?

Eu acho que tem que acreditar. Acreditar no país, acreditar que você pode dar certo e trabalhar. Não basta acreditar, tem que fazer força para chegar lá. (X)

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