Fernando Jorge Cardoso fala do impacto da crise afegã sobre UE e ´jihadismo` em Cabo Delgado

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Fernando Jorge Cardoso. FOTO: RTP

Manuel Matola

O radicalismo religioso voltou a saltar para as primeiras páginas dos jornais e a ser notícia de abertura nas televisões a nível global. Com uma fórmula acompanhada de armas e uma liberdade muito condicionada, o Afeganistão foi o mais recente caso semelhante ao que acontece em Cabo Delgado. Para perceber melhor a questão que estes acontecimentos podem ter na Europa e no conflito do norte de Moçambique, o jornal É@GORA entrevistou o docente universitário Fernando Jorge Cardoso, especialista em assuntos africanos, que defende: “A Europa devia abrir os braços a todos os refugiados afegãos que quisessem vir” ao velho continente, diz um dos rostos mais respeitados no meio académico em Portugal e na comunidade diaspórica moçambicana.

De que forma se pode estabelecer uma relação entre a situação que se está a viver no Afeganistão e o caso do ‘jihadinismo’em Cabo Delgado, no norte de Moçambique?

Do ponto de vista ideológico e daquilo que os talibã e a seita terrorista que está a operar em Cabo Delgado defendem, enquanto modelo de sociedade e conceitos de vida, há semelhanças, como é óbvio. Mas a pergunta é: Se a situação do Afeganistão pode ter consequências em função do conflito em Moçambique? A minha resposta é um não redondo. Acho mesmo que não e tudo o resto são apenas especulações completamente fora do tempo.

Porquê

É que nos próximos tempos [os talibã] vão estar muito preocupados com a situação no interior do próprio pais e das suas fronteiras. Não se vão submeter ou colocar-se numa posição que convidem a uma nova forma de retaliação quer interna quer externa, regional ou mesmo internacional. Não estou a ver que haja qualquer espécie de ligação entre o que se passa no Afeganistão e o que se passa em Cabo Delgado. Agora volto a dizer, do ponto de vista dos valores que são seguidos pelos talibã e pelo grupo que está a operar em Cabo Delgado os valores são muito semelhantes.

Isto poderá, até certo ponto, influenciar naquilo que é a atuação dos grupos que estão em Moçambique. No sentido de se inspirarem neles?

Eu analiso as coisas da seguinte maneira: do ponto de vista do islão sunita [esta comunidade] está a viver uma guerra civil, quer do ponto de vista ideológico, quer do ponto de vista prático em várias partes do mundo. Não estou a falar do antiquíssimo conflito entre xiitas e sunitas. Estou a falar dentro do islão sunita, da maioria dos muçulmanos, que é uma fação mais radical que normalmente é designada de salafita, mais literalista, que tem várias vertentes; e outra facção mais moderada que muito provavelmente é seguida pela grande maioria dos muçulmanos. Quando nós olhamos para os diversos conflitos em que os movimentos armados reivindicam a religião como sendo a sua fonte de inspiração, e mais do que fonte de inspiração, sendo livro para regrar a vida na Terra – [que impõe regras do género] para te comportares de determinada maneira deves fazer isso e se não te comportares daquela maneira sofrerás as consequências – [pode-se falar deste sentido de inspiração]. Se nós falarmos deste tipo de filosofia vamos encontrar que aquilo que se passa na Somália, no Mali, no Burkina Faso, ao longo do Lago Chade, em parte do nordeste do Congo, no norte do Quénia, no norte de Cabo Delgado e o que está adormecido na Tanzânia, que recorrentemente tem havido várias tentativas de iniciarem conflitos armados deste tipo [há paralelismo]. Só que o exército e as forças tanzanianas estão mais bem preparados do que as moçambicanas.

Há quem diga que há alguma proteção da parte das autoridades tanzanianas a estes grupos radicais. Isto faz sentido?

O que há a adiantar das autoridades tanzanianas é alguma satisfação pelo facto da impreparação e má governação em Moçambique ter levado a que o conflito suspendesse a continuação da exploração e os investimentos no monopólio do gás. Porque desde a década passada as relações entre Moçambique e a Tanzânia pioraram. E pioraram porque houve um conflito de interesses relativamente à exploração dos grandes depósitos de gás do Oceano Índico. Em frente à costa norte de Moçambique e à costa sul da Tanzânia. A governança tanzaniana poderá ficar satisfeita com os atrasos que isto está a provocar nas explorações de gás em Moçambique, porque eles julgavam que isto iria trazer benefícios no sentido das grandes companhias que estão a operar e pesquisar o gás na costa do Oceano Índico [e as petrolíferas Total e ExxonMobil] poderem chegar-se à frente e tomarem a decisão de avançarem e continuarem com o projeto. Só que eles não estavam a contar com a saída das companhias petrolíferas – são as mesmas no gás internacional – que neste momento estão a desinvestir e não a investir. O caso da Total é um caso que vai contra a corrente. E muito particularmente este ano em que vai haver a cimeira de Glasgow (Escócia), em novembro, que, digamos vai ser a continuação da cimeira de Paris, e quando começam a aparecer cada vez mais relatórios que nos mostram que estamos a emitir mais Co2 do que aquilo que conseguimos absorver significa que estamos na curva descendente. A curva em que o Planeta está a morrer, digamos assim. Isto levanta um conjunto de preocupações e eu julgo que os tanzanianos terão percebido que se calhar o melhor que têm a fazer é contribuir para parar com o crescimento dos movimentos violentos de natureza armada nas suas fronteiras, ajudando para que isso não aconteça. Houve uma mudança de opinião do lado tanzaniano, claramente. E essa mudança de opinião não foi só porque os ruandeses intervieram ao lado das forças moçambicanas – e o Ruanda tem uma relação com a Tanzânia muito mais próxima -, mas também por interesse próprio da Tanzânia. Temos de olhar para os interesses independentemente das satisfações. Mas voltando à sua pergunta fundamental: o paralelismo entre o que se está a passar no Afeganistão e o que se está a passar no norte de Cabo Delgado pode ser feito do ponto de vista de similitudes relativamente aos valores que os movimentos defendem e aquilo que pretendem concretizar nos respetivos territórios. Do ponto de vista operacional, não existe nenhuma internacional ‘jihadista’. Ou seja, não existe um comando centralizado destas operações e que dê orientações para todo o mundo. Isto funciona de uma maneira descentralizada do ponto de vista operacional e, seguindo os critérios, interesses e condições de cada um dos locais. O que se está a passar em Cabo Delgado tem uma ligação muito mais próxima com aquilo que se está a passar na Tanzânia e no Congo. Isto porque a proximidade é muito maior e temos combatentes que desde o início estão a lutar ao lado dos moçambicanos contra o governo e a população.

Olhando para a questão do Afeganistão e para o que tem estado a acontecer, nomeadamente, em relação aos fluxos migratórios. De que forma a Europa estará a passar ao lado daquilo que é essencial na discussão sobre os fluxos migratórios?

A Europa não é um país. A Europa não tem uma política externa e não tem um exército europeu. Ou seja, o posicionamento europeu relativamente a estes conflitos coloca-se de um ponto de vista [de] se os países estão de acordo relativamente à ajuda internacional a prestar ou a protestar, ou da imposição ou não de sanções. Ou seja, quanto à aceitação ou não aceitação de fluxos de refugiados na Europa. A Europa está numa situação complicada, aliás, o mundo está numa situação complicada do ponto de vista geopolítico. Eu não julgo que os europeus tenham um papel importante naquilo que se está a passar no Afeganistão. Tirando os britânicos que pensaram que tinham um papel importante, mas os norte-americanos não lhes ligaram nenhuma, a influência que a Europa no seu conjunto tinha sobre aquilo que se estava a passar no Afeganistão era absolutamente diminuta. Face à situação geopolítica na Europa e em particular em alguns países, tirando declarações de natureza política, não acredito que para a Europa venha um fluxo enorme de refugiados. Embora acredite que quisessem vir aqueles que queiram escapar para os países nórdicos. Agora, não creio que esse grande fluxo de refugiados vá ser bem aceite em grandes números. Vão ser números mais simbólicos. Quero dizer, duvido que ultrapassem uma dezena de refugiados.

A Grécia acolhe nos seus campos de refugiados uma parte significativa de refugiados afegãos e alguns deles têm sido recusados o asilo com o argumento de que devem voltar. Este é um momento em que a Europa deve olhar para este problema de forma diferente? Como é que isto se resolve?

Está a colocar uma questão fundamental que tem haver com a situação política que nós vivemos neste momento na União Europeia. Vivemos uma situação em que na grande maioria dos países europeus existem posicionamentos de partidos e movimentos políticos que são isolacionistas e que, antes de mais, estão interessados em diminuir o grau de integração europeia, se não mesmo acabar com ela. Então, vão defender todos aqueles posicionamentos de ‘não queremos mais estrangeiros’, ‘não nos queremos meter nos assuntos dos outros’, ‘não queremos que Bruxelas nos venha aborrecer “demasiadamente” com o que fazemos internamente’. Isso é visto em cinco países europeus, que integram ao que é chamado ‘O Grupo de Visegrado’ e que se pode estender a países orientais na União Europeia como é o caso da Grécia de que fala. Também vai acontecer isso com a Bulgária, Polónia e a própria Alemanha, onde independentemente da posição das elites políticas, não creio que o cenário político esteja muito favorável em relação aos fluxos enormes dos refugiados. Desde que o Reino Unido saiu da União Europeia quem determina e joga as cartas é a Alemanha. A França está numa situação bastante enfraquecida, está dividida ao meio. Não sabemos o que vai acontecer nas próximas eleições. A França está numa posição de pouca influência. Relativamente à Grécia, que você citou, é um exemplo do que estou a dizer. Acho que a Europa deveria tomar uma posição muito mais enérgica e mais ativa para aquilo que é a realidade sobre as coisas neste momento.

O que seria uma posição enérgica?

[Risos] Acho que a União Europeia devia abrir os braços a todos os refugiados afegãos que quisessem vir e, por outro lado, devia colocar o regime afegão sob vigilância total e exercer todo o tipo de sanções que pudesse exercer. Intervir não, porque nâo tem exército para isso. Mas exercer todo o tipo de sanções porque inclusivamente os europeus têm forma de saber onde é que se encontra o dinheiro que os afegãos estão a ganhar da droga. Os afegãos são os maiores dealers de heroína do mundo. A maior parte da produção de heroína é feita no Afeganistão, sai via Paquistão e por outros lados, inclusivamente, parte dela chegava ao norte de Moçambique, mas neste momento não chega por causa da guerra. Contrariamente ao que os analistas dizem, o tráfico de heroína e cocaína não lucra com a guerra. Perde. De tal maneira que está a fugir mais para sul, para a zona de Nacala, depois vai por aí além. Voltando à nossa conversa: o que me parece é que a União Europeia devia fazer isso. Agora se vai fazer ou não é outra conversa. Eu até acredito que a Chefe da Comissão Europeia, a senhora Ursula von der Leyen, gostasse de ter uma posição muito mais proativa. Mas quem determina os posicionamentos relativamente à política externa dos países europeus são os Governos desses países através do Conselho da União Europeia. A União Europeia só intervém para propor determinadas medidas ao Conselho.

Há pouco falou da posição central da Alemanha, mas a chanceler Angela Merkel está no fim do seu “reinado”. É este o momento em que a Europa deve tomar as rédeas desta situação?

Eu não acho que a Europa está em condições de tomar as rédeas seja do que for. As rédeas que a Europa tem de tomar é sobre si mesma. Ou seja, os europeus têm de estar de acordo relativamente a questões fundamentais do seu presente e do seu futuro. Relativamente ao conflito do Afeganistão, em particular, as posições vão ser tomadas pelo Conselho da União Europeia. A Comissão Europeia não tem competências para isso. O Conselho é aquele que representa os países e neste momento os Governos dos países não estão muito sintonizados relativamente a questões que tenham h a ver com refugiados, pelo contrário. Existem posicionamentos diferentes conforme os Governos e os países. E em muitos países aproximam-se eleições. No caso da Alemanha, o que se passa é que as sondagens que aparecem nos órgãos de imprensa dão um empate entre o Partido Social Democrata e a CDU alemã. Isto não significa que o PSD alemão esteja a subir nas sondagens, mas sim que a CDU alemã está a descer. Ou seja, isso significa que os partidos à direita da CDU estão a ganhar posicionamento. E esses partidos são partidos xenófobos e anti-imigração. A situação na Alemanha é diferente. Não seria a primeira vez nem a segunda que o PSD e a CDU chegariam a um acordo para formar um Governo conjunto para conseguir a maioria. Se considerarem que isso é fundamental para a estabilidade alemã pode ser que seja mais uma das vezes em que isso venha a acontecer.

Que implicação esta situação pode ter sobre Portugal, olhando para as sondagens e o posicionamento do partido anti-imigração nacional que é o Chega?

Não creio [que essa situação no Afeganistão e a questão dos refugiados tenham quaisquer implicaçõessobre Portugal]. Em primeiro lugar, os refugiados, sejam afegãos ou outros, normalmente não querem vir para Portugal. Quando muito ficam satisfeitos por passarem por Portugal, mas depois para irem ter com as redes existentes de imigrantes nacionais dos seus países que estão em Portugal. As quotas que Portugal coloca à disposição acabam por nunca serem preenchidas e pouco tempo depois de serem preenchidas os refugiados vão pela Europa ter com as suas famílias [até porque] não temos uma rede afegã em Portugal. Não creio que a discussão da questão afegã vá ter uma consequência nas eleições municipais, nem numa subida ou descida do PS ou do Chega. Infelizmente, a população portuguesa e os órgãos de comunicação portugueses estão demasiadamente focadas em questões nacionais e domésticas e pouco atentos à consequências daquilo que se passa lá fora. Por exemplo, o principal problema que neste momento Portugal enfrenta chama-se ‘mudanças climáticas’, que está a atingir em termos muito concretos as zonas do Algarve e do Alentejo. Mas nós não vemos uma discussão sobre isso em termos públicos. De vez em quando vê-se alguém a falar sobre o assunto e depois voltamos a ‘discutir sobre o calhau que caiu em cima do carro’. O que quero dizer com isto é que Portugal continua a ser um país demasiadamente provinciano, com peso muito pequeno em questões internacionais e que não tem uma comunidade de imigrantes grande. A nossa comunidade emigrante ultrapassa por pouco os 5% da população total do país. E quando vêm novos imigrantes para Portugal, estes são contratados para empresas de trabalho precário para fazerem trabalhos ligados com a agricultura ou construção civil. Sabemos disso e é uma situação que não é nova em Portugal, e não creio que vá mudar nos próximos tempos. O que tira, do meu ponto de vista, um posicionamento político importante de Portugal no meio desta questão afegã.

O que é que pode fazer com que este tema seja central?

É o facto de pessoas como eu, você e outros fazermos o possível para trazer as questões internacionais que se passam no nosso tempo para a agenda. Por um lado, acho que é isso. Por outro lado, é a juventude assumir o seu papel e começar, de facto, a fazer força para que as questões internacionais que têm a ver com a transição energética, evolução tecnológica, políticas de imigrações, mudanças climáticas sejam cada vez mais um foco de discussão da agenda política portuguesa e não meramente questões que são geríveis a nível local. (MM)

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