Frente Unitária Antifascista reage “com estupefação” posicionamento dos 20 coletivos antirracistas

0
269

Manuel Matola

A Frente Unitária Antifascista (FAU) considerou hoje “lamentável” as declarações dos coletivos antirracistas que se demarcaram da manifestações realizadas em Lisboa e Porto no domingo, afirmando ter recebido com “com admiração e estupefação” o teor do comunicado subscrito e divulgado pelas 20 associações, incluindo o SOS Racismo, no final das concentrações contra a ameaça da extrema-direita em Portugal.

Em nota enviada ao jornal É@GORA, a FAU apresenta cópias de mensagens enviadas, sem sucesso, aos coletivos antirracistas e fala de “calúnias, mentiras e manipulações que carecem de total fundamento e não deixam de refletir certa degeneração moral de alguns dirigentes da esquerda diante da decadência da sociedade capitalista”.

“Foi com admiração e estupefação que tivemos conhecimento do comunicado subscrito por um conjunto de coletivos, divulgado nos meios de comunicação social logo no final das concentrações de ontem contra o racismo e a ameaça da extrema-direita. Enquanto centenas de pessoas e dezenas de organizações levantavam a voz e davam a cara nas ruas, estas organizações faziam uma nota a nosso ver lamentável, com acusações falsas e mesquinhas para tentar diminuir o alcance desse grito contribuindo activamente para o fortalecimento do inimigo comum”, diz a organização no comunicado.

A nota emitida na sequência da notícia publicada pelo Jornal É@AGORA“Coletivos antirracistas demarcam-se da manifestação anti-fascista, Mamadou Ba é criticado”,, a FUA garante que “fez de tudo para agregar toda a esquerda em torno do repúdio aos ataques da extrema-direita”.

No domingo, 20 organizações e coletivos antirracistas demarcaram-se da manifestação da FUA, supostamente organizada “sem consulta, nem envolvimento prévio, dos coletivos antirracistas, nem mesmo das pessoas que sofreram ameaças na última semana”.

Numa “nota de esclarecimento dos coletivos antirracistas face às ações da FUA”, as mais de duas dezenas de organizações subscritoras do documento dizem que a concentração deste domingo em Lisboa e Porto foi organizada “de forma desleal, oportunista e sectária”.

Reagindo hoje, a Frente Unitária Antifascista disse: “É totalmente incompreensível que depois de ações de rua que foram um êxito, parte do movimento que assume combater o fascismo e o racismo se vire contra a independência política da FUA e tenha tão rapidamente esquecido completamente o nosso inimigo comum, lançando na praça pública um chorrilho de acusações pessoais, calúnias, mentiras e manipulações que carecem de total fundamento e não deixam de refletir certa degeneração moral de alguns dirigentes da esquerda diante da decadência da sociedade capitalista”.

Segundo a plataforma, “a FAU recebeu o email das ameaças na noite de terça-feira dia 11, e nessa mesma noite reencaminhou-o para todas e todos os visados solicitando uma reunião de urgência, juntando ativistas ameaçados e suas organizações, para que se tomasse uma posição conjunta. Para nossa surpresa, no dia seguinte e ainda antes dessa reunião, o email circulava já na imprensa com a SOS Racismo a responder sozinha às ameaças, enquanto nós esperávamos pela reunião e continuávamos os contactos com os visados e suas organizações”.

Ameaças

Nos últimos dias, três deputadas e sete ativistas foram alvo de ameaças por uma autoproclamada “Nova Ordem de Avis – Resistência Nacional”, que reivindicou também uma ação junto à associação SOS Racismo, levando o Governo a condenar estas ações como “uma ameaça à própria democracia” que deve indignar “todos os democratas”.

Na quinta-feira, o Ministério Público instaurou um inquérito-crime ao assunto, um dia depois de o dirigente da SOS Racismo Mamadou Ba ter prestado declarações na Polícia Judiciária e ter confirmado a receção, juntamente com mais nove pessoas, de uma mensagem de correio eletrónico a estipular o prazo de 48 horas para abandonar o país, segundo a Lusa.

Em comunicado enviado hoje ao jornal É@GORA, a FAU assegurou que “o Bloco de Esquerda e as suas deputadas declinaram qualquer acção conjunta sobre a justificação de que ´confiam nas autoridades` e não querem dar palco mediático à extrema-direita`”, tendo “da parte da SOS Racismo e do Núcleo Antirracista do Porto” recebido “a mesma resposta”, a de que “apenas se predispunham a um simples comunicado conjunto que nem esse viu a luz do dia por falta de resposta da SOS Racismo”.

“Perante este cenário de inoperância de uns e a estratégia de ´não dar espaço mediático` à extrema-direita de outros, o povo português e os seus setores mais oprimidos corriam o risco de não poder demonstrar o seu repúdio aos ataques da extrema-direita, nas ruas, onde devia e acabou por ser feito. A adesão, tanto em Lisboa como no Porto, a meio de agosto, com muita gente de férias e no meio dos receios da pandemia, demonstrou que o chamado às concentrações foi um acerto e correspondeu à necessidade do movimento de combate à extrema-direita e ao racismo”, lê-se no comunicado da FUA que assegura que “endereçou o convite para a coorganização das concentrações a dezenas de organizações, incluindo grande parte das que subscreveram a nota divisionista, que manifestaram a opinião e pressionaram para que não se realizassem as concentrações”.

“Respeitamos a sua opinião mas não concordamos, pois cremos que o silêncio é cúmplice e a menorização da luta no espaço público em relação à agenda da política parlamentar é prejudicial ao combate antirracista e antifascista, tal como a sistemática tentativa de silenciar os ativistas racializados da Frente Unitária Antifascista”, conclui a plataforma. (MM)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here