Imigrantes brasileiros, incluindo crianças, ´acampados` no aeroporto de Lisboa para pedir repatriamento

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FOTO: Istoé ©

Elisabeth Almeida

Um grupo de 25 imigrantes brasileiros, incluindo crianças, estão ‘acampados’ na porta do aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, onde aguardam um posicionamento e o auxílio das autoridades de Portugal e Brasil para o repatriamento ao país de origem, devido à Covid-19.

A pandemia mundial causada pelo novo coronavírus transformou os sonhos de dezenas de brasileiros em um verdadeiro pesadelo. Neste fim de semana, um grupo composto por crianças, jovens e idosos passaram a noite no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa. Em tempos de chuva e frio no país, os imigrantes ainda se encontram ao relento, sem comida ou água, enquanto aguardam um posicionamento das autoridades dos dois países.

Ao contrário dos cidadãos que estavam na Europa como turistas e foram surpreendidos com o encerramento das fronteiras, os 25 brasileiros vivem em Portugal legalmente, trabalham, pagam seus impostos e contribuem para o país tanto quanto um português.

Mas devido à crise económica causada pela Covid-19, estão sem dinheiro para o mínimo para sobreviver e gastaram até o último cêntimo para se deslocar até a Lisboa na esperança de um voo de repatriamento.

Em declarações ao jornal É@GORA, a advogada Rilane Oliveira, coordenadora de grupos de ajuda aos brasileiros que se encontram desamparadas, disse que esta situação se deve a um comunicado emitido pelo Consulado do Brasil em Portugal.

“Uma grande parte das pessoas que agora estão ‘acampadas’ na porta do aeroporto foram recomendados, com provas de tal aviso, pelo Consulado a irem tentar vaga, caso alguém faltasse. Mas ninguém faltou e com isso ninguém pode ser encaixado no voo que saiu hoje, dia 27”, contou.

Além da incerteza e o transtorno, os imigrantes se deparam também com outros problemas.

“Hoje (domingo), as mães que estavam com crianças lá foram ameaçadas de que as crianças seriam separadas delas, seriam levadas para um abrigo e elas ficariam na rua, até que uma igreja, a Casa do Leão, chegou lá na hora e disse que levariam as mães para um abrigo para que isso não acontecesse. Outras pessoas estão vivendo de favor na casa de outros brasileiros ou alojadas em abrigos. Os que estão na porta do aeroporto são os que realmente não têm para onde ir”, disse ao jornal É@GORA Rilane Oliveira.

Além das pessoas que se dirigiram até o aeroporto, de acordo com o grupo, a confiar na recomendação do Consulado do Brasil em Portugal, outros se encontram em situação ainda pior. Nas redes sociais são várias as publicações com o desabafo dos integrantes do grupo.

“Eu sou o André, sou mais um dos brasileiros que estão sem condições financeiras de se manter e estamos aqui no aeroporto desde ontem (sábado) desde às 20 horas, hoje teve o voo (de repatriamento) e deixou quase todo mundo para trás. Nós não somos irresponsáveis por termos vindo aqui sem ter sido chamado. Nós estamos aqui porque não temos mais condição; não temos dinheiro; não temos mais casa e nem comida, estamos fazendo ‘vaquinhas’ para comer e as pessoas que estão aqui estão se ajudando pois não temos mais para onde ir”, relatou.

“O Consulado (do Brasil em Portugal) veio aqui hoje (domingo) e simplesmente saiu pela porta dos fundos, como ratos e não deram uma satisfação para nós, não disseram nada e simplesmente saíram pela porta dos fundos. Só que nós estamos aqui ao relento, no frio, deste ontem (sábado), quando fez 10ºC à noite e não por sermos irresponsáveis, mas por não termos para onde ir, não temos mais o que fazer e o Consulado tem a obrigação de nos repatriar, nós somos brasileiros, trabalhadores e pais de família. Tem crianças aqui sem leite, idosos, pessoas com remédios controlados e nós vamos para onde? Alguém me diz?”, questionou André em jeito de desabafo em que também agradeceu a todas as pessoas que foram até o aeroporto doar comida.

Foto: “Irmãos de Vaca” ©

Em contacto com o jornal É@GORA, a advogada explicou a razão deste dos imigrantes permnaecerem no aeroporto.
“Estas pessoas continuaram lá para pressionar o governo brasileiro e também para conversar sobre uma situação que existe em Portugal, pois boa parte desses brasileiros estão passando fome e necessidades no país porque não estão conseguindo ter acesso ao auxílio português”, frisou.

Os mais afetados são os trabalhadores que recebem por envio de recibos verdes que, sem trabalhar, também não recebem o ordenado e perdem também todos direitos que lhes seriam garantidos em um emprego com contrato em meio a pandemia.

“Ao emitir recibos verdes, o governo português dá-lhes o direito de usufruir de um ano de isenção de desconto para a Segurança Social e eles lançaram mão desse benefício e, agora, mesmo estando regularizados, em virtude de terem lançado mão em benefício de isenção, eles deram entrada no pedido do apoio da Segurança Social e receberam como resposta que eles não têm direitos, já que têm os três descontos mínimos para tal”, contou a jurista.

De acordo com Rilane Oliveira “estas pessoas estão desassistidas por completo, tanto pelo governo brasileiro que está repatriando o número mínimo possível e também pelo governo português, que não está enxergando a situação dos brasileiros e outros imigrantes que ficaram fora da cobertura dos auxílios criados por eles por uma série de razões burocráticas”.

Assim como o executico brasileiro, que implantou o Auxílio Emergencial de 600 e 1.200 reais para trabalhadores informais e microempreendedores com objetivo de fornecer assistência e proteção emergencial no período da crise e isolamento social exigido por conta da pandemia do novo coronavírus.

Em Portugal, o amparo destinado a quem emite recibos verdes e está sem trabalhar desde o começo de março será muito menor do que o esperado por toda a população, chegando ao valor máximo de 292 euros.

Para Rilane Oliveira, o governo português também tem a sua parcela de culpa.

“O fato de não assistir de forma devida os imigrantes e não acolher da forma devida, pois muitos deste, se tivessem apoio, se tivessem tido acesso aos auxílios do governo português não estariam pedindo o repatriamento. Basta pesquisarem o quanto os brasileiros contribuíram para a Segurança Social o ano passado (para verem que) é um valor absurdo e agora estas mesmas pessoas estão amplamente desamparadas pelo governo do Brasil e também o de Portugal” contou ao Jornal É@GORA.

“Hoje, domingo, as mães que estavam com crianças lá foram ameaçadas de que as crianças seriam separadas delas
Segundo dados divulgados em 2019 pelo Observatório das Migrações (OM), a contribuição dos imigrantes gerou a Segurança Social 651 milhões de euros e que os imigrantes nunca contribuíram tanto para as contas da Segurança Social, chegando a dobrar o valor registado em 2013.

Num artigo publicado no relatório da OM, a instituição enfatiza ainda a importância dos imigrantes para o país, pois “serão cada vez mais necessários para conduzir à sustentabilidade do sistema de Segurança Social português”.

Além disso, o relatório mostra que no ano passado 11% dos nascimentos em Portugal foram de estrangeiras, a fim de ressaltar que a importância dos imigrantes, incluindo brasileiros, a maior comunidade estrangeira em Portugal, não se limitam apenas ao âmbito financeiro. (EA)

2 COMENTÁRIOS

  1. São mais 6 mil pessoas a dormir na Rua querendo voltar para casa! O Cônsul Brasileiro em Portugal não está a ajudar… É grave muito grave esta situação.. divulguem

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