Gungunhana visto por vários prismas*

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Carlos Enes é um dos historiadores portugueses que mais estuda o exílio de Gungunhana

No primeiro dos dois dias de um ciclo de eventos evocativos lançados este sábado para relembrar a chegada de Gungunhana e seus companheiros aos Açores, há mais de um século, o jornal É@GORA publica a entrevista do Historiador português Carlos Enes concedida ao Diário Insular dos Açores.

O texto foi-nos facultado gentilmente pelo académico, um dos autores com mais obras sobre a História da Câmara Municipal da Angra do Heroísmo e sobre o Imperador de Gaza que se exilou, há 123 anos, naquela cidade açoriana, tornando-se no mais importante imigrante e preso político do espaço lusófono.
  1. As diferentes perspetivas (local, nacional e moçambicana) do exílio de Gungunhana e os seus companheiros vão ser analisadas numa iniciativa que decorre a 27 e 28 de julho em Angra do Heroísmo, que inclui a estreia de um flime. O que há ainda por conhecer sobre o imperador de Gaza?

A bibliografia sobre o “Leão de Gaza” já é bastante vasta. Logo após a sua prisão, da parte portuguesa surgiram alguns livros denegrindo os comportamentos brutais para com o seu povo, como forma de justificar a intervenção dos portugueses, como agentes civilizadores. Algumas denúncias seriam justificadas, mas outras viviam também de uma forte imaginação. O então capitão Gomes da Costa, escreveu um livro acusando-o de canibalismo, o que levou Gungunhana, já em Angra, a ripostar através do jornal A União.

Os estudos mais importantes surgiram com historiadores anglo-saxónicos que procuraram com as suas análises compreender a complicada correlação de forças no sul do continente africano, onde Gungunhana teve um papel importante.

Para o caso português, no pós “25 de abril”, a historiografia moderna também agarrou o tema e destaco aqui os trabalhos de Maria da Conceição Vilhena, professora na Universidade dos Açores, que o estudo seu reino e no exílio.

Se já muito se escreveu sobre Gungunhana, ainda há terreno por explorar.

2. A história de Gungunhana voltou a ser um tema recorrente nos últimos anos através da literatura e não só. A que se deve esse despertar sobre uma figura que viveu os seus últimos dez anos de vida exilado em Angra do Heroísmo?

Há figuras históricas que, pelo seu carisma, despertam a tendência para uma forte expansão do imaginário popular. Umas porque se cria o perfil de bondosas, outras por serem travestidas de corajosas, vilãs ou heroínas. No caso de Gungunhana, o papel de mau da fita assentou-lhe quase sempre, no imaginário popular português do continente, com uma tónica negativa de malandragem, crueldade, eivada de um toque racista.

Estas personagens atraem o imaginário dos escritores, que as vão recriando a seu gosto, principalmente os moçambicanos, que pretendem consolidar os alicerces do passado, ainda muito tremidos. Procuram dar corpo e alma a esses heróis, construindo ou desconstruindo mitos que suportam a memória coletiva.

3 – Pode-se dizer que hoje a questão de Gungunhana pode ser encarada em Portugal e em Moçambique sem ressentimentos nem nacionalismos exacerbados, uma vez que já se passou mais de um século?

Não é fácil ultrapassar ressentimentos, quando a presença colonial foi muito marcante. A experiência que vivi em Moçambique, entre 1981-84, enquanto professor cooperante na Universidade, arreigou-me a convicção de que vai ser necessário passar algumas gerações para que muitos traumas se possam ir diluindo. Mas se uma parte da população ficou muito marcada negativamente, encontrei também um afeto muito grande por Portugal, e uma capacidade de diálogo que promete boas relações no futuro. Contudo, é preciso muita diplomacia para não se cometerem gafes que comprometam os passos que têm sido dados. Nas conjunturas difíceis, o nacionalismo arranja sempre um bode expiatório, ressuscitando muito facilmente o fantasma do colonialismo. (X)

Titulo atribuído pelo Diário Insular dos Açores

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