Historiador destaca dignidade com que Gungunhana foi tratado em Angra do Heroísmo

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O último imperador de Gaza, Gungunhana, foi tratado com dignidade em Angra do Heroísmo, nos Açores, onde esteve exilado nos últimos dez anos de vida, salientou hoje o historiador açoriano Jorge Forjaz, citado pela Lusa.

“A palavra humilhação terminou, não no cais, porque eles [Gungunhana e outros três prisioneiros] são entregues no castelo, mas a partir do momento em que são entregues no castelo são prisioneiros de guerra conforme as regras da civilidade mandam”, afirmou, em declarações à Lusa, à margem de uma conferência promovida pelo município de Angra do Heroísmo, que assinalou o 123.º aniversário da chegada de Gungunhana à ilha Terceira.

O imperador de Gaza (atualmente Moçambique) foi capturado por Mouzinho de Albuquerque, por resistir à ocupação colonial portuguesa, em 1895, e esteve três meses preso em Monsanto, até ser enviado para a Fortaleza de São João Baptista, em Angra do Heroísmo, com o filho Godide, o tio e conselheiro Molungo e Zixaxa, um chefe de uma tribo que tinha atacado Lourenço Marques (atual Maputo) e que ainda hoje tem descendentes na ilha.

Segundo o curador do Forte de Maputo, Moisés Timba, Gungunhana foi “amarrado e arrastado” até à embarcação que o levaria para Lisboa, mas este não foi o único momento de humilhação a que foi sujeito.

Apresentado como um “troféu de guerra”, foi obrigado a separar-se das sete mulheres (de mais de 300) que o acompanharam até Lisboa, quando foi transferido para a ilha Terceira.

Jorge Forjaz salientou que, segundo os jornais da época, os quatro prisioneiros de Gaza percorreram as principais ruas de Angra do Heroísmo, entre o cais da cidade e a Fortaleza de São João Baptista, no dia 27 de junho de 1896, descalços e com roupas velhas.

“A palavra humilhação termina na hora em que eles passam da alçada do poder nacional para o poder local”, apontou.

Em Lisboa, os jornais criticavam o Governo pelo tratamento dado aos prisioneiros e em Angra do Heroísmo apelaram para que fossem recebidos “com compaixão”, o que acabou por acontecer.

“Não há notícia de um desacato ou de um protesto. Isso para nós terceirenses é agradável de ouvir. Recebemo-los com caridade, que era o que era preciso”, sublinhou o historiador.

Segundo Jorge Forjaz, pouco se sabe sobre o dia-a-dia de Gungunhana, mas entre as ocupações dos quatro prisioneiros estavam, por exemplo, a caça ao coelho e a construção de cestas de bambu, algumas das quais ainda conservadas em Angra do Heroísmo.

“Eles nem sequer estavam presos. Andavam em liberdade lá dentro. À noite é que recolhiam ao calabouço para dormir. Andavam pela fortaleza e pelo Monte Brasil, vinham à cidade… Também não tinham para onde fugir”, apontou.

Três anos depois de chegarem à ilha Terceira, Gungunhana, Godide, Molungo e Zixaxa foram batizados na Sé de Angra, com padrinhos e testemunhas ligados às mais altas instituições de Angra do Heroísmo (câmara municipal, Junta Geral, Governo Civil, liceu, capitania).

“Tiveram uma cerimónia que em Portugal só acontecia com os filhos dos reis. Não conheço nenhuma cerimónia de um batismo de um particular que tivesse sido com esta grandeza”, salientou Jorge Forjaz, cujo bisavô foi padrinho do então batizado Reinaldo Frederico Gungunhana.

O último imperador de Gaza acabou por morrer dez anos depois de chegar a Angra do Heroísmo, mas Zixaxa, batizado como Roberto Frederico Zixaxa, teve dois filhos (um dos quais morreu em criança) e vivem ainda na ilha Terceira três bisnetos seus. (X)
FONTE: Lusa

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