“Identifico-me como um agente e soldado da cultura” que promove a literatura angolana na diáspora, diz Lopito Feijóo

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Lopito Feijóo ©

O escritor e poeta angolano, Lopito Feijóo, que acaba de lançar, em Lisboa, o livro “Doutrina com fabulações”, considera haver “uma nova abordagem da literatura angolana” em Portugal, reflexo do trabalho dos pequenos e médios editores que valorizam a atual geração de escritores que procuram espaço na diáspora.

Resultante do “público leitor que eu vou conquistando, por exemplo em Lisboa, sinto que há realmente uma nova abordagem da literatura angolana e dos seus fazedores, que vem da parte dos editores, mas não dos grandes editores. Dos editores médios e intermédios e dos pequenos, pois esses são quem comanda o mercado do livro, que é relativamente restrito no que toca o domínio dos médios e pequenos editores, mas que funciona porque tem os seus consumidores muito bem definidos e localizados”, disse Lopito Feijóo.

Falando ao jornal É@GORA, o autor do “Doutrina com fabulações” lembrou que “nos últimos dois anos” tem estado a fazer “algumas incursões por Paris, Lisboa, Porto, Braga, Maputo, Rio de Janeiro”, aliás, “de uma maneira geral, em todos os países falantes de língua portuguesa, inclusive os que estão em África”.

Incursões essas que fazem de Lopito Feijóo, hoje, o escritor angolano com cada vez maiores números de obras e ações no espaço literário lusófono se comparado ao trio Pepetela, José Eduardo Agualusa e Ondjaki, autores angolanos que outrora dominavam os lançamentos de livros e participações em colóquios em Portugal.

“O mercado é grande, o importante é cada um descobrir como deve fazer”, diz Lopito Feijóo, que tem vindo a saber “paulina e progressivamente como fazer para chegar onde outros autores angolanos chegaram”.

“Tenho consciência de que não tenho padrinhos na cozinha e, muitas vezes, é preciso ter um padrinho na cozinha que nos dá um empurrão. Nós estamos a vir simplesmente com a força da nossa realidade e da nossa literatura. Com a força e a qualidade do nosso texto literário, estamos a conquistar esses espaços”, mas é algo que se faz “com consciência do dever e com espírito de missão, com muito sacrifício, entregando o corpo e a alma”, acrescenta.

Até porque, reconhece, “não é fácil atravessar o oceano Atlântico de um lado para outro para falar sobre poesia e literatura. Dói um bocadinho, não só na massa financeira, mas também o próprio corpo. Portanto, o que nós fizemos é: entregamo-nos ao sacrifício”.

“Mas é preciso dar conta de uma coisa”, prossegue Lopito Feijóo: “há autores angolanos que provavelmente têm uma propensão para o mercado, até porque a própria dinâmica da vida literária os leva para aí”.

Recusando o rótulo de autor comercial na área da escrita, Lopito Feijóo resume a sua entrega à literatura ao papel de “um soldado da cultura”, cuja tarefa é ser “um escritor cultural, um escritor de promoção de uma certa identidade” que lhe diz respeito.

“Eu escrevo em função de um espaço concreto e em função de uma realidade geo-históricas com a qual me identifico muito bem, o que não significa que eu não possa fazer incursões literárias por outras áreas. Mas a minha preocupação é fundamentalmente de divulgação de valores culturais da minha realidade sociocultural, político, económica e geográfica. Portanto, eu me defino fundamentalmente como um agente cultural, um soldado da cultura”, afirma Lopito Feijóo.


Doutrina com fabulações

O novo livro “Doutrina com fabulações” que o considerado maior poeta vivo da angolanidade apresentou há dias na capital portuguesa, Lisboa, com a chancela da Editora Perfil Criativo, um ato que foi testemunhado por políticos, escritores e académicos, entre professores e estudantes.

O ato de apresentação da obra literária, durante a 2ª edição da tertúlia denominada “Angola: o papel do escritor”, foi concebido e elaborado na sequência do doutrinário projeto artístico-literário do autor, cujo livro conta com cerca de 70 páginas, tendo sido reproduzidos trezentos exemplares em primeira edição.

“O que nós acabamos de assistir aqui, as intervenções que foram feitas vieram dar razão a todo um trabalho que há cerca de 40 anos, nós temos vindo a levar a cabo, em torno do martelar da palavra, da poesia, em torno do trabalho com harmonia e o ritmo na palavra. Depois disso posso mesmo estar confiante que eu já tenho conquistado uma boa franja de leitores que me permite prosseguir essa marcha até ao destino final”, disse Lopito Feijóo, que nos tem vindo a se transformar no escritor angolano que mais divulga o seu trabalho em países como Moçambique, Cabo-Verde e Portugal, fazendo valer todo um investimento na busca do reconhecimento do público amante da literatura e com destaque para a poesia.

Tertúlia

No decorrer da tertúlia, o académico português, Manuel Rodrigues Vaz, destacou as qualidades do escritor angolano chegando mesmo a considera-lo o maior poeta vivo da literatura em Angola. Como nota de agradecimento, Lopito Feijó, enfatizou que o segredo do seu trabalho é o resultado de muitas horas dedicadas a poesia.

“A opinião critica diz publicamente que eu sou o maior poeta vivo de Angola. Eu sou mais um poeta que tem trabalhado, trabalho intensamente 25 horas por dia, tenho a poesia 25 horas por dia, vi-me obrigado a acrescer mais uma hora ao dia normal, para pensar e fazer poesia. Pois o trabalho oficinal da palavra implica acutilância, insistência e persistência. É isso que nós temos feito para puder dar esses resultados que nós agora estamos aqui a colher. Mais uma vez, uma reação extremamente positiva e isso dá-me confiança no trabalho e no futuro e dá-me uma esperança. Tal como se dizia do nosso petróleo, a nossa poesia vai muito longe e pode chegar até muito mais longe do que imaginamos”, disse.

Entre os convidados destacou-se também a escritora angolana, Sandra Poulson, que mostrou ter um profundo conhecimento sobre a obra do poeta, Lopito Feijó.

“O Lopito Feijó é realmente um autor que já fez obra. Há anos que escreve sobre nós, que escreve sobre Angola, sobre a juventude. Começou naqueles movimentos literários nos anos 80, costumamos dizer que ele é o autor dos anos 80 e este ritmo e a cadência da sua poesia é realmente fascinante. Como ele diz, nós quando lemos estamos a sentir o batuque. Eu diria que sentíamos o dedilhar do kissange juntamente com o batuque e com rêco-rêco. É a poesia do Lopito”, rematou.

Tal como no passado, nos dias que correm a literatura angolana tem vindo a ser bastante consumida pelos amantes da cultura dentro das comunidades lusófonas. A afirmação é de Luandino Carvalho, Adido Cultural da embaixada de Angola, em declarações ao nosso jornal.

“A comunidade angolana e afeta a Angola é muito vasta, desde os nacionais, os duplos nacionais e também aqueles que vieram naquela altura de 1975. Têm uma afinidade que se comprova não só na cultura de uma forma geral, mas particularmente nalgumas disciplinas e entre elas a literatura.

“Poderíamos incluir também Cabo-Verde, além de Moçambique e Portugal. Tivemos agora recentemente mais dois prémios, só para dar um exemplo. E essa enchente que temos hoje do Lopito é a prova também disso. Acho que a nossa literatura respira um fôlego bastante bom desde a altura dos anos 60 de Luandino Vieira, até a esta data”, disse Luandino.

Perfil

Nascido em Malanje a 29 de Setembro de 1963, João André da Silva Feijó, assume-se, segundo disse no evento, como “deputado reformado” da Assembleia Nacional que enveredou pela poesia depois de recusar vários cargos de responsabilidade no aparelho de Estado.

Exerceu já o cargo de Secretário de Relações Internacionais da União dos Escritores Angolanos e é membro da Associação Portuguesa de Poetas e presidente da Sociedade Angolana do Direito de Autor. É, também, membro fundador da Academia de Artes, Letras e Ciências do Estado brasileiro de Rio Grande do Sul, onde ocupa a cadeira número 1 para estrangeiros.

Também é membro da Academia Brasileira de Poesia, da Internation Poetry, nos EUA, e Maison Internationale de la Poesie, de Bruxelas.
Tem livros traduzidos para francês, inglês e italiano e publicação dispersas por jornais e revistas em Angola, Portugal, França Espanha, Brasil, Estados Unidos da América, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Nigéria. (MM e JM)

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