Imigrantes resgatados em contentores em Moçambique voltam à Etiópia, ONU fala em “tragédia”

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Manuel Matola

A Organização Internacional para as Migrações (OIM) garante que os 11 imigrantes etíopes resgatados em contentores em Moçambique já regressaram à Etiópia, após a “trágica” morte de 64 colegas trancados num camião perto de Tete, no centro do país, um caso “que abalou o continente africano”.

A 24 de março, corpos de 64 dos 78 imigrantes ilegais foram encontrados num camião cavalo que atravessava a fronteira de Malaui em direção ao território moçambicano. Na altura, a polícia moçambicana disse que, do total, 14 sobreviveram e foram submetidos ao rastreio do novo coronavírus, de acordo com autoridades moçambicanas de saúde.

Um mês depois, a OIM fala de “11 jovens sobreviventes”, assegurando que regressaram na passada sexta-feira, dia 01 de maio, à Etiópia, “graças à coordenação dos governos da Etiópia e de Moçambique, assistidos pela OIM e pela Iniciativa Conjunta UE-OIM para a Protecção e Reintegração dos Migrantes no Corno de África”.

O caso é, de resto, “uma tragédia que abalou o continente africano”, diz a agência das Nações Unidas para as Migrações em nota enviada ao jornal É@GORA, na qual assegura que “os jovens concordaram que foi um milagre terem sobrevivido”.

“Desde que foram resgatados”, refere, “a magnitude da sua experiência de risco de vida e da sua perigosa viagem está agora a despertar” a atenção dos vários governos africanos e não só.
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A OIM estima que os imigrantes que saem da Etiópia “pagam aos contrabandistas entre 2.500 e 6.000 dólares americanos” com a promessa de viajar em segurança até ao seu destino: África do Sul, a maior economia do continente africano.

“Contudo, depois de atravessarem a fronteira etíope, a situação muda normalmente – e a viagem torna-se assustadora. Os contrabandistas confiscam documentos de viagem e forçam frequentemente caminhadas de longa distância sob o manto da escuridão, com pouca comida e água. Alguns migrantes morrem ao tentarem fugir aos postos de controlo de segurança nas fronteiras, enquanto muitos outros definham em detenção em países estrangeiros”, lê-se no comunicado que descreve a rota percorrida por grupos de imigrantes.

Anualmente, milhares de pessoas do sul da Etiópia fazem a viagem do Corno de África para a região África Austral, seguindo a chamada Rota do Sul, que passa pelo Quénia, Tanzânia, Malawi e Moçambique antes de chegarem à África do Sul, assinala a OIM.

Citado na nota, um dos jovens imigrantes contou como foi o trajeto entre Etiópia e Moçambique onde os 78 etíopes foram descobertos num camião apinhado.

“Toda a viagem foi difícil e eu sofri muito”, diz o jovem, recordando: “Eu sofri a tortura dos contrabandistas. Caminhei durante dias nas florestas. Mal tinha comida e água. Mas o pior de tudo foi a viagem no contentor: num espaço que mal conseguia conter 20 pessoas, carregaram 78 de nós, um em cima do outro. Gritávamos por ar, implorando-lhes que abrissem a porta. No último posto de controlo, batemos no contentor, gritando pelas nossas vidas. Foi aí que a polícia nos ouviu”.

Um dos sobreviventes explicou por que razão tentou fazer a jornada:

“Na Etiópia, eu estava a trabalhar ao acaso, sem um rendimento estável. Optei por ir à África do Sul em busca de melhores oportunidades económicas”, daí que “eu queria trabalhar lá, poupar dinheiro e voltar para viver melhor. Já sofri o suficiente nesta viagem. Pensei que podia melhorar a minha vida, mas preferia morrer no meu próprio país” explicou.

Outro dos migrantes sobreviventes disse à OIM: “Estou contente por finalmente regressar a casa em breve. Passei por uma viagem muito difícil, foi terrível. Tenho saudades da minha mãe e do meu pai. Principalmente, tenho saudades do meu irmão mais novo, Mamush. Vou contar a ele e a muitos dos meus amigos de volta para casa sobre o perigo da viagem. É melhor tentar trabalhar após regresso à casa. Até começar como engraxador de sapatos é melhor do que tentar tal viagem”, afirmou.

O Embaixador da Etiópia na África do Sul, Shiferaw Teklemariam, expressou o seu apreço pela assistência prestada aos imigrantes.

“Saúdo e aprecio os agentes da polícia que interceptaram o crime às 02:00 horas da manhã de 24 de março na fronteira do Malaui e de Moçambique”, cujas “ações no posto de controlo fronteiriço salvaram os 14 sobreviventes desta tragédia que ceifou a vida a 64 etíopes”, disse Shiferaw Teklemariam, destacando o trabalho dos agentes da migração em Tete que “foram fundamentais para o posterior tratamento integral dos sobreviventes”.

O diplomata apelou “profundamente a todos para que se unam contra o tráfico de seres humanos e o contrabando de migrantes” e louvou a iniciativa de organizações humanitárias como a OIM que trabalham em estreita cooperação com várias entidades nessa ação que abrange um total de 26 países africanos.

A assistência aos imigrantes faz parte da Iniciativa Conjunta UE-OIM para a Protecção e Reintegração dos Migrantes, que facilita uma gestão ordenada, segura, regular e responsável da migração através do desenvolvimento de políticas e processos de protecção e reintegração sustentáveis baseados nos direitos e centrados no desenvolvimento. (MM)

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