Integração de afrodescendentes na política portuguesa requer organização “à margem dos partidos” convencionais, diz jurista guineense

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Por, Manuel Matola

O jurista guineense e deputado municipal socialista, Carlos Ramos, apelou aos afro-descendentes a organizarem-se “à margem dos partidos” convencionais para conseguirem integrar-se facilmente na política em Portugal, o que, defende, requer também substituir a CPLP por uma nova organização.

Falando numa conferência sobre a “Participação Cívica e Política de Afrodescendentes em Portugal e na Europa”, Carlos Ramos revelou a estratégia que a sua associação cívica denominada Lusofonia dos Afetos adotou para o elegerem deputado à Câmara Municipal de Sintra, representando o Partido Social.

Pensamos: “se nós organizarmos cabo-verdianos, são-tomenses e escolhermos (um potencial candidato), eles têm que se se assustar com o que escolhermos. Mas temos que nos organizar dentro da máquina (partidária), porque a associação (Lusofonia dos Afetos) é outra parte da moeda. Temos que ter essa noção de nos juntarmos e fazermos uma coisa. Mas se chegarmos ao ponto de percebermos que nem toda a gente quer ter estatuto partidário o que fazemos?”, questionou Carlos Ramos, para de seguida dar resposta à sua própria pergunta.

“Chamamos um conjunto de quadros cabo-verdianos, angolanos, e fundamos um movimento chamado Lusofonia dos Afetos e metemos dentro de um partido cerca de 50 quadros superiores para eles perceberem que a máquina está aqui agora, uma coisa à margem do partido”, afirmou.

De acordo com o jurista de origem guineense, a razão de existência de um deputado são as pessoas.

“O deputado o que é? É o eleitorado. Se não tiver eleitoral, acabou. Nós no conselho de Sintra estamos a aproximarmos a 52 mil lusófonos neste momento para avançarmos para frente (e isso) é uma questão de organização”, disse.

No debate centrado na questão da integração dos imigrantes na política portuguesa e europeia, Carlos Ramos apontou os estivadores e motoristas de material perigoso como exemplo de grupos sociais que recentemente demonstraram união para reivindicar os seus direitos, e criticou a alegada falta de organização tanto dos africanos em Portugal quanto da própria Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), com sede em Lisboa.

Para Carlos Ramos, a solução passa pela criação de uma organização que seja alternativa à CPLP, porque “a CPLP é uma organização que não funciona e funciona mal”, para tratar também da questão de integração dos afrodescendentes, disse.

Exemplificando, assinalou a ausência no debate quer de representantes daquela organização lusófona quer de “jovens afrodescendentes intelectuais, de reconhecida competência e mérito” que residem em Portugal.

“Onde estão jovens afrodescendentes intelectuais, de reconhecida competência e mérito? Zero na organização, porque essa organização CPLP merece um chapadão, uma coisa de força para mudar o destino das coisas”, afirmou.

Para Carlos Ramos, a fraca participação dos afrodescendentes deve-se igualmente ao medo que estes “têm de enfrentar barões (da política portuguesa)” e é por isso que “fogem da realidade” que lhes diz respeito.

“Os estivadores põem o país quase a ir ao fundo por causa da exportação e nós que estamos aqui a contribuir para o crescimento da natalidade, para a segurança social com cerca de 350 milhões de euros e o resto, o que estamos aqui a fazer?”, questionou o deputado municipal.

“O agravante disso é que abandonamos a educação”, acrescentou.

Virando-se à CPLP, Carlos Ramos avisou: “na próxima etapa (da Lusofonia dos Afetos), cuja sede vai ser a embaixada de Angola, nós temos que atacar a CPLP, porque é uma máquina que funciona muito mal, (porque só) olha para o topo e não olha para a franja, e a franja precisa de ser revista. É essa guerra, esse combate que temos que fazer” proximamente.

Angola, que a partir de julho de 2020 vai assumir a presidência da organização lusófona, anunciou recentemente que iria encerrar a embaixada junto da sede da CPLP, em Lisboa, devido aos constrangimentos económicos provocados pela crise que o país enfrenta. (MM)

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