“Já é tempo de a Guiné-Bissau virar a página”, defende o músico Zé Manel

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Músico guineense Zé Manel

“A música é alma”, confessa José Manuel Fortes, conhecido por Zé Manel no universo musical. O baterista e um dos fundadores da conceituada banda guineense, Super Mama Djombo, acaba de lançar em Lisboa o seu novo CD, “Nha Alma” (Minha Alma), num concerto único, esta sexta-feira, que mobilizou muitos admiradores entre a comunidade guineense residente em Portugal. Em entrevista ao Jornal É@GORA, o músico fala da imigração para França e os Estados Unidos, e faz uma avaliação crítica do seu país natal para onde regressou em 2010, acompanhado de um estúdio de gravação.

“Nha Alma” (2019), todo ele composto e gravado na Guiné-Bissau, é o novo trabalho de Zé Manel, apresentado no dia 23 deste mês no espaço cultural B.Leza Clube. O título, revela o músico guineense, é da autoria do seu conterrâneo e ativista, Miguel de Barros, cuja produção durou praticamente um ano intensivo.

O novo disco teve “muito bom acolhimento” junto do público, segundo revela o artista, entrevistado pelo Jornal É@GORA, pouco antes do concerto desta última sexta-feira.

“Acho que é um trabalho muito lindo, um álbum maravilhoso, que as pessoas gostam”. Diz com orgulho que “o novo disco foi bem recebido”. Nele está patente a diversidade étnica e retrata bem o mosaico cultural guineense. Também é notória alguma crítica social “no bom sentido”, assume. Zé Manel afirma que em democracia é preciso falar quando algo não está bem. “Cada cidadão é livre de expressar o seu sentimento”, desabafa. “E eu expresso o meu através da música, que é aquilo que eu sei fazer”.

Zé Manel, que regressou ao seu país natal há cerca de oito anos, continua a ser aquela figura crítica que marcou o período pós independência. Não receia dizer que a Guiné-Bissau, “um país muito rico e lindo”, ficou parado no tempo com as turbulências políticas que se registaram durante as últimas décadas.

Acha que “já é tempo da Guiné-Bissau virar a página e começar a trabalhar a sério para mudar o país”. Diz com convicção que é preciso “acabar com a bagunça” e aponta o dedo àqueles que usam o Governo para resolver os problemas pessoais. A propósito do funcionamento das estruturas do Estado, critica a corrupção, o roubo, a falta de controlo e de prestação de contas. A isso acrescenta a fuga ao fisco. “A maioria das pessoas que têm negócios em Bissau não paga impostos. Temos que arrumar a casa”, aconselha.

Os ensinamentos de Cabral

“Temos que começar a colocar a Guiné-Bissau em primeiro plano”, afirma. “O país primeiro”. Adianta que já é tempo de dar um passo em frente.

Não só os músicos – corrige –, mas todos os artistas, todos os guineenses, no geral, têm que se concentrar e saber o que querem para o país. Porque, argumenta, os outros países da comunidade lusófona que têm relações de irmandade com a Guiné-Bissau vão continuar a sofrer as consequências das crises e, consequentemente, da desorganização.

No entanto, mais de quarenta anos depois da independência, é de opinião que os guineenses não se mostram frustrados com o rumo que o país tomou, apesar de, praticamente, se terem esquecido os ensinamentos de Amílcar Cabral, pai da Nação guineense que conduziu a luta pela libertação do jugo colonial. “Acho que se esqueceram”, concorda.

“Felizmente os guineenses não são um povo frustrado; é um povo amável e humilde que sabe acolher as pessoas e ultrapassar as intempéries. Acima de tudo, importa o desenvolvimento socio-económico. “É um pequeno país com muitas potencialidades”, acrescenta o músico otimista que, através das palavras, expressa esperança quanto ao futuro.

Desse potencial, realça a importância da cultura como factor de união entre os guineenses, apesar da Guiné-Bissau ser um país constituído por várias etnias. Os guineenses, apesar das várias crises que abalaram a vida nacional, têm sabido preservar os seus valores culturais. “Cada povo tem a sua cultura, a sua maneira de ser, de estar e de viver. E os guineenses não podem perder esta sua forma de estar”, afirma. “É a única coisa que deixa os guineenses com muito orgulho”.

Mas, reforça, todos têm que se empenhar mais para a preservação destes valores e a sua transmissão de uma geração para a outra. “Porque senão, geração após geração, tais valores perdem-se”, avisa Zé Manel em tom de alerta.

O turismo é outro potencial, mas importa haver paz e tranquilidade, como reconhece o nosso entrevistado. “Se o país não for reorganizado ninguém vai lá visitar”. Zé Manel fala com conhecimento da realidade, lamentando o facto da Guiné-Bissau não ser ainda um país atrativo. «Todas as instituições governamentais estão fora do controlo. Há uma corrupção enraizada», constata, considerando serem estes alguns dos fatores que levam o turista a não procurar a Guiné-Bissau

Crise obrigou guineenses a emigrarem

Ao meio da conversa, o músico lembra-se dos muitos guineenses que, por força das várias crises políticas, optaram em viver fora da Guiné-Bissau. “A Guiné-Bissau não funciona como um país civilizado”, indica.

Se o país estivesse bem – constata –, muitos não teriam emigrado. “Uma pessoa sai de casa para ir à busca de vida melhor porque lá em casa não está bem”, exemplifica. A miséria, em consequência da situação política, social e económica, obrigou muita gente a deixar o país.

Com o novo cenário político e governativo, Zé Manel quer acreditar que muitos concidadãos radicados no estrangeiro gostariam de regressar ao país de origem. Alguns desistiram desse projeto por falta de confiança nas lideranças. Para ele, “a única coisa é estabilizar o país, trazer a paz e a tranquilidade”, acompanhado de medidas que visam assegurar trabalho, melhor saúde e escola para os cidadãos.

“A Guiné-Bissau é agora um país de jovens. Esses jovens vão estudar e serão formados. Depois voltam para a Guiné mas não há trabalho. Não dá! Não é assim que se constrói um país», recomenda. Atribui responsabilidades ao Governo, que deve «criar as condições e garantias para as gerações futuras. E, sublinha nesta linha de pensamento: «Há que melhorar a condição de vida dos guineenses», insistindo que a classe política deve colocar o país no topo das prioridades.


“Há qualquer coisa que eu vejo e que me desagrada, digo, retrato, dramatizo. Faço aquilo que eu sinto”

Será que, como músico de intervenção, pode ajudar a mudar de rumo? Zé Manel responde que não gosta muito do rótulo de “músico de intervenção” que muitas vezes lhe é atribuído. Assume que é apenas músico que retrata sempre o dia a dia da sociedade guineense. “ Há um problema na sociedade, há qualquer coisa que eu vejo e que me desagrada, digo, retrato, dramatizo. Faço aquilo que eu sinto”, reage com esperança de que “as coisas vão melhorar”.

Afirma que cabe aos guineenses resolverem todos os seus problemas. “Não é a comunidade internacional”, garante. “Se o país continuar assim nesse rumo e se os guineenses não forem capazes de resolver os problemas um dia a Guiné-Bissau deixará de existir”, acrescenta, “porque será invadido pelos países vizinhos”.

Acredita, entretanto, que entre a classe política, há dirigentes e governantes capazes de mudar este cenário.

Imigrante nos EUA e França

Zé Manel viveu 20 anos da Califórnia (EUA). Como imigrante enfrentou muitos desafios. Mesmo distante, procurava sempre notícias do país natal. Conta, entretanto, que saiu da Guiné-Bissau não naquela condição. Veio para Portugal num grupo de seis guineenses para estudar na Academia Amadora de Música, em Lisboa, por intermédio de uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian.

Terminados os estudos, decidiu ir para Paris. Não foi em França que descobriu o que procurava. Partiu então para os Estados Unidos. Dois dias depois, concluiu que estava no país dos seus sonhos. “Senti que estava no sítio certo”, explica. “É um país lindo, onde fazes aquilo que gostas de fazer».

Detesta a estagnação. O seu desejo de expansão, o gosto pelos desafios e a sede de descoberta de “coisas novas” determinaram a escolha pelo então “El Dourado”. Encontrou tudo isso nos Estados Unidos, onde conheceu músicos profissionais cuja experiência contribuiu para a sua formação.

“É um país de muitas oportunidades”, diz, confirmando depois que aprendeu muito com a cultura americana. Tocou com os músicos que encontrou e lá formou uma banda. É toda esta experiência que acabou por levar à Guiné-Bissau em 2010.

Zé Manel revela ser um homem aberto. Trabalha com todos, sobretudo com os jovens aos quais transmite os seus conhecimentos. Para ser mais objetivo diz que trabalha com todas as gerações em Bissau. Lembra que foi assim que começou no Super Mama Djombo quando tinha apenas oito anos. “Foi aí que tudo começou”, recorda.

A conversa já ia longa e já na ponta final, Zé Manel revela a sua agenda para os próximos meses. Depois do concerto em Lisboa, volta para Bissau onde tem compromissos no âmbito da campanha eleitoral para as presidenciais de 24 de Novembro deste ano.

Após este período, está previsto o seu regresso a Lisboa e, possivelmente, em finais de janeiro de 2020 deve deslocar-se a França, numa viagem que incluirá a Dinamarca, Alemanha e Espanha, também com o objetivo de apresentar o álbum “Nha Alma”. No próximo ano, o músico tem já na sua agenda a preparação de um novo trabalho, ainda sem título, a ser lançado em 2021 ou 2022. (X)

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