Jacqueline Monteiro, a violinista que quer retribuir o que a música lhe deu

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Jacqueline Monteiro

Rodrigo Lourenço

Hoje falamos de uma jovem talentosa: Jacqueline Monteiro. Mas, antes de irmos direto ao assunto, recuemos no tempo e percorramos o percurso feito por esta jovem.

Nasceu em Cabo Verde, terra onde as águas quentes que rodeiam o arquipélago acompanham a sonoridade do funaná ou da morna. Ainda com uns tenros 3 meses de idade, a palavra “emigrar” entrou para a sua vida e atravessou o Oceano Atlântico em direção a Portugal, terra do fado. Mas não é nem no funaná, na morna ou no fado que Jacqueline se destaca atualmente.

Comecemos por explicar o trajeto de Jacqueline. Hoje, com 22 anos, é um valor emergente do violino. O primeiro capítulo desta história pautada por cordas começou a ser ensaiada no 1º ano de escolaridade quando a escola onde andava passou a receber aulas desse instrumento.

Ao saber da hipótese de aprender violino Jacqueline pensou, “Ok, porque não?”. E relembra o sentimento quando viu o violino pela primeira vez.

“É como se fosse uma coisa nova. Por exemplo, quando compro um livro há sempre aquela expetativa se a história vai ser boa. Quando peguei no violino foi tão diferente ao que estava acostumada até então que fiquei logo ‘uau’! Lembro-me que nas primeiras aulas a nossa professora tocou ‘O Balão do João’ e ter ficado ‘uau, consigo fazer isto no violino’. O que é que posso fazer mais? Foi a curiosidade e o que poderia esperar mais do violino que me fez ficar”, diz em declarações ao jornal É@GORA.

Com o violino presente na maior da vida de Jacqueline, a luso-cabo-verdiana confessa que as 4 cordas do instrumento verbalizam melhor os pensamentos do que as próprias palavras e língua portuguesa.

“Muitas vezes é difícil expressarmo-nos por palavras, às vezes parece que faltam palavras para dizeres o que realmente sentes. Com o violino consigo dizer tudo sem dizer uma palavra. Acho que é o que tenho de mais incrível neste momento: conseguir expressar-me da maneira que quero através da música”, conta.

Nos primeiros anos, o violino serviu de passatempo que foi sendo aperfeiçoado durante os períodos passados na Orquestra Geração. Mas o que antes era um hobby rapidamente ganhou contornos de algo sério. Aquando da passagem do 9º para o 10º ano, o violino tornou-se a principal ocupação o que lhe colocou algumas dificuldades.

“Aí comecei a estudar várias horas por dia, foi mesmo um choque. Até aí estudava música, mas abdicava de coisas do meu dia-a-dia para fazê-lo. Desde que fui para o ensino profissional foi muito difícil ter uma vida social para além da música. Lembro-me dos meus amigos marcarem de sair e eu dizia: ‘epá, não dá’”, conta.

Este “choque”, como Jacqueline lhe chama, deu origem a um momento de hesitação por parte da violinista de 22 anos. O facto de ter mais pressão do que tinha sido até ali fez com que ponderasse se devia continuar a apostar no violino a nível profissional.

“Nesse ano do 9º para o 10º eu pensei em desistir da escola de música por estar a ser demasiado. Eu andava na Orquestra, mas tinha aulas ‘normais’. Até falei com o meu professor e disse ‘Professor, desculpe mas não estou a conseguir gerir isto.’ Mas depois ele e a minha mãe convenceram-me a ficar. Não desisti pelo facto deles [professor e família] confiarem em mim. Se o meu professor me dissesse: ‘Olha, se calhar esse não é o caminho…’, eu desistia porque nesse aspeto era muito sincero. Ele tem plena consciência do que é preciso para ser músico e do que é preciso abdicar. Dizia sempre se valia a pena ou não. O nível era muito exigente e via que não estava a conseguir avançar. Ver que não avançava deixou-me frustrada como é obvio, mas depois consegui ultrapassar isso”, refere.

Passaram-se os 3 anos do ensino secundário, licenciou-se em instrumentista na Academia Nacional Superior de Orquestra e chegou a altura de continuar os estudos para o nível seguinte, o mestrado. Desde muito cedo, Jacqueline tinha definido qual seria a escola superior para onde queria entrar.

De Lisboa diretamente para Londres, mais precisamente para a Guildhall School of Music and Drama, um conservatório com as portas abertas desde 1880 e com especial reconhecimento na música clássica e jazz. Em novembro do ano passado voou para Inglaterra para fazer provas com o objetivo de ficar na universidade que desejava. Cerca de um mês depois de ter prestado provas, recebeu a confirmação de que o sonho se ia realizar.

“A prova foi a 16 de novembro e depois no início de dezembro tive a confirmação que tinha entrado. Fiquei sem reação. Lembro-me que foi de manhã e recebi a notificação e li o mail 10 vezes só para não hipótese de estar a ler mal [risos]. Pedi à minha irmã para ler o mail porque não estava mesmo a acreditar. Eu estava nesse ponto porque a escola era muito cara e era muito difícil de entrar”, diz.

Por isso já tendo outras escolas em mente, Jacqueline encarou a prova para a Guildhall como uma preparação pelo que decidiu.

“Vou fazer esta prova e depois vou analisar para ver o que posso fazer melhor nas outras. Ainda fiquei uns dias a pensar se era verdade. Isso aconteceu, se calhar, por não acreditar nas minhas capacidades. Não toco mal, mas também não sou incrível [risos]. Eu já tinha feito provas, mas foram na escola, na minha zona de conforto, mas mesmo assim ficava nervosa. Espero sair de lá com ideias novas e uma forma diferente de olhar para a música”, afirma.

Mas porque “a escola era muito cara”, Jacqueline encontra formas de contornar as dificuldades financeiras e a procura por bolsas passou a ser um hábito constante no quotidiano da jovem violinista.

“Em janeiro, quando decidi que ia para esta escola comecei a procurar bolsas em Portugal e no estrangeiro. Só que lá fora é muito difícil porque Portugal é um país desenvolvido. Tentei inscrever-me em vários sites e em bolsas, mas não era elegível para mais de 80%. Também tentei a bolsa da Fundação Sara Carreira, mas a idade limite é 21 anos”, enumera.

Campanha de crowdfunding

Perante a falta de bolsas para apoiar jovens que vão estudar para o estrangeiro a luso-caboverdiana demonstrou o desagrado pela falta de apoios do Estado nas áreas da cultura e das artes.

“É super frustrante porque no fim de contas é para Portugal que estou a trabalhar. Ver que quero seguir um sonho e não tenho a ajuda daqueles que supostamente são o meu pilar é muito difícil. No mundo das artes e da cultura o apoio não existe. E isso viu-se na altura da pandemia”, comenta.

Falhada a possibilidade de conseguir uma bolsa, Jacqueline viu-se obrigada a recorrer à última opção que tinha: uma campanha de crowdfunding. Mas antes de lançar essa campanha, pensou se era a atitude correta.

“No início ainda estive a pensar muito se iria lançar isto [a campanha de crowdfunding], mas depois de falar com uma amiga avancei. E ela disse-me ‘Ninguém vai dar senão puder’. Isto [a campanha de crowdfunding] era o meu último recurso. Não queria fazer isto, não que tenha algo de mal, mas pela situação que todos estamos a passar agora. Muita gente ficou desempregada e a Covid-19 não tem sido nada fácil. Não queria estar a fazer isto para dificultar a vida das pessoas”, afirma.

Em maio lançou a campanha com o objetivo de angariar um total de 10 mil euros. A poucos dias de embarcar no sonho inglês, o crowdfunding já arrecadou mais de 6 mil e 700 euros. Com o trabalho de professora na Orquestra Geração e com a campanha, Jacqueline tem assegurada a ida para Londres.

“Com o trabalho como professora e com o que já angariei na campanha consigo manter-me durante uns meses, mas depois é trabalhar. Vou fazer o possível para que isso aconteça. Não posso estar dependente da boa-vontade das outras pessoas e tenho de fazer por mim. Mesmo que depois seja difícil conciliar o trabalho com a música terei sempre o apoio da minha família. Vou fazer com que as coisas resultem porque o sonho não pode morrer aqui”, diz.

Jacqueline Monteiro, jovem violinista de 22 anos cujos estilos favoritos de música clássica são o barroco e o romântico, viaja para Inglaterra a 18 de agosto com a certeza de querer retribuir o que a música lhe deu.

“Às vezes penso na minha história como algo completamente normal, mas não é. Podia ter tido um desfecho completamente diferente. Podia nem ter entrado na Orquestra Geração. O meu maior objetivo é ser uma grande professora e uma grande violinista. O meu objetivo como violinista não é ser conhecida, é sim conseguir transmitir tudo o que a música me transmite e tudo o que tem para dar. Ser professora é uma capacidade de mudar vidas, e a
Orquestra Geração fez isso comigo. É a profissão em que posso retribuir o que já me deram”, conclui. (RL)

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