Jogador do FC Porto abandona jogo após ser alvo de racismo, Portugal reage da política ao desporto

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Moussa Marega, futebolista francês naturalizado maliano Fotografia: Pedro Correia/Global Imagens

O jogador maliano do FC Porto Moussa Marega foi este domingo alvo que cânticos racistas dos adeptos do Vitória de Guimarães, acabando por abandonar o jogo num caso inédito em Portugal que mereceu fortes críticas de duas entidades governativas, desportivas, políticas e ativistas antirracistas.

São várias as reações ao caso do futebolista francês naturalizado maliano que pediu para ser substituído do campo enquanto nas bancadas se ouviam assobios e insultos contra si.

“Este não é o pais que queremos e estes comportamentos dão visibilidade às situações de Discriminação racial que tantas e tantas pessoas vivem nos seus quotidianos. Manifestemos a nossa solidariedade a Marega, mas que as instituições responsáveis aos vários níveis retirem as devidas consequências”, considerou a Secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Rosa Monteiro, numa reação no Facebook.

O secretário de Estado da Juventude e Desporto, João Paulo Rebelo, também comentou o caso, descrevendo-o como “absolutamente intolerável” e “inaceitável”.

“Os insultos dirigidos ao jogador Marega envergonham todos quantos pugnam por uma sociedade inclusiva. Os valores do desporto nada têm que ver com estas atitudes racistas, xenófobas e ignóbeis”, afirmou João Paulo Rebelo em declarações à agência Lusa.

O treinador do FC Porto, Sérgio Conceição, mostrou-se “indignado” e qualificou de “lamentável” o tratamento que Marega teve no jogo que permitiu a equipa portista posicionar-se a um ponto do Benfica, que está na primeira posição na I Liga de futebol.

“O Jogo passa para segundo plano, quando acontece algo do género. Estamos completamente indignados com o que aconteceu. Sei da paixão dos adeptos do Vitória, mas penso que esses adeptos não se revêm na atitude de algumas pessoas que estavam a insular desde o aquecimento o Marega”, disse o treinador portista.

Para Sérgio Conceição, “somos uma família, independentemente da nacionalidade, da cor de pele, da altura ou do que seja”.

“Somos humanos, merecemos respeito. O que se passou aqui é lamentável”, disse o técnico dos dragões que mais tarde se recusou a responder a perguntas dos jornalistas evitando responder sobre o caso, num dia em que o FC Porto não permitiu que os seus jogadores dessem entrevista no fim da partida.

No entanto, numa mensagem nas redes sociais, o jogador Marega reagiu aos comentários racistas de que foi alvo descrevendo os protagonistas de “idiotas” e criticou a atitude do árbitro.

“Gostaria apenas de dizer a esses idiotas que vêm ao estádio fazer gritos racistas … vá se f… E também agradeço aos árbitros por não me defenderem e por terem me dado um cartão amarelo porque defendo minha cor da pele. Espero nunca mais encontrá-lo em um campo de futebol! VOCÊ É UMA VERGONHA !!!!”, escreveu Marega no Instagram.

Instando a comentar, o treinador do Vitória de Guimarães, Ivo Vieira, disse não se ter apercebido do que aconteceu no Estádio D. Afonso Henriques, este domingo, no jogo que opôs o FC do Porto à sua equipa.

“Muito sinceramente, não me apercebi dessa gravidade”, disse o treinador do Vitória de Guimarães, numa alusão à situação de racismo que, garantiu, a ter acontecido condena.

“Não concordo com isso”, pois “as coisas a acontecer eu condeno”, disse Ivo Vieira reagindo ao incidente com o avançado maliano do FC Porto Marega, em Guimarães.

O dirigente do SOS Racismo em Portugal, Mamadou Ba, afirmou que o jogador teve “atitude e dignidade” e exigiu que os adeptos sejam sancionados.

“Num país decente, o jogo era interrompido, a vitória atribuída ao FCPorto, o Vitória de Guimarães sancionado e as abéculas racistas banidas dos estádios”, disse o ativista antirrascista.

A Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) também lamentou em nota que atitudes racistas “envergonham o futebol e a dignidade humana”, pelo que defendeu a punição dos adeptos que terão protagonizado o ato.

“Os valores do futebol não são compatíveis com o que se passou na noite de hoje no estádio do Vitória Sport Clube em que um atleta não suportou mais os insultos que estava a ser alvo e optou por abandonar o jogo. Estes atos envergonham o futebol e a dignidade humana”, refere a Liga Portuguesa de Futebol Profissional.

Já o comentador televisivo Luís Marques Mendes descreveu a atitude dos adeptos como “inaceitável e censurável”, apelando para o seu banimento dos estádios.

“São energúmenos. Essa gente tem que ser banida dos estádios”, disse Marques Mendes, que foi líder do Partido Social Democrata.
A deputada Catarina Marcelino, do Partido Socialista, força política no poder,afirmou que “não há espaço para esta gente racista no desporto em Portugal”.

“Só há uma maneira de combater o racismo, tolerância zero e intransigência absoluta. É dessa intransigência que fico à espera, da Liga, da Federação e dos organismos públicos. Que não fiquem só pelas palavras, mas que os atos sejam consequentes. Não há espaço para esta gente racista no desporto em Portugal, que fique muitíssimo claro”, disse a parlamentar.

No entanto, o deputado André Ventura, líder do Chega, partido da extrema-direita em Portugal, qualificou os críticos de “megalómanos”, argumentando que “é o síndrome Joacine que começa a invadir as mentalidades”.

“País de hipocrisia em que tudo é racismo e tudo merece imediatamente uma chuva de lamentos e de análises histórico – megalómanas”, escreveu o deputado André Ventura, acrescentando: o “nosso problema não é o racismo”, mas a “hipocrisia”, disse André Ventura, que há dias anunciou a candidatura à Presidência da República. (MM)

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