KASSAV: banda de luxo que há 40 anos emigrou com o zouk

0
195

Era inquestionável a alegria do público. O pavilhão do Campo Pequeno, em Lisboa, esteve praticamente repleto. Os fãs, na sua maioria imigrantes africanos radicados em Portugal, vibraram com emoção cada momento e a cada canção que os Kassav – banda pioneira do zouk – apresentaram ininterruptamente no concerto deste sábado, no âmbito da tournée mundial para assinalar os seus 40 anos de carreira musical.

Faltava cerca de duas horas para o início do concerto e já eram longas as filas de acesso ao recinto do Campo Pequeno, que este sábado (02/11) recebeu o concerto de comemoração dos 40 anos de carreira do Kassav, a mítica banda francesa criada em 1979 que, por força da emigração, trouxe para a Europa o ritmo contagiante e dançante do zouk originário das Antilhas, hoje apreciado a nível mundial.

Para Carlos Pedro, autor do programa “Zouk 80.90”, da RDP-África, “os Kassav estão a celebrar os 40 anos de uma carreira musical coroada de vários sucessos”. Diz ainda que o “zouk, sob a batuta de Pierre-Édouard Décimus, invadiu África, em especial os países africanos de língua portuguesa, influenciando a forma de se fazer música a partir de 1984”.

Foi Pierre Décimus, conjuntamente com Freddy Marshal, que decidiu transformar a música de carnaval de Martinica e Guadalupe num estilo mais moderno.

Rigorosamente às 21 horas, começara o espetáculo com animação por um disco jóquei, que cumpriu a missão de congregar o público para compor a sala. Uma hora depois, precisamente às 22 horas, entravam em cena os elementos do tão esperado agrupamento, que uma vez mais atuou em Portugal. Na linha da frente, Jacob Desvarieux, Jocelyne Béroard, Jean-Phillipe Marthély, Georges Décimus e Jean-Claude Naïmro, que tinham à retaguarda os bailarinos e os músicos que sustentam o grupo.

Com o recinto praticamente composto de gente de gerações diferentes, foi com forte aplauso que o público recebeu os primeiros acordes de uma maratona musical que rebuscou o vasto leque de canções do repertório dos Kassav, todas elas ainda bem presentes na memória dos fãs. Foram duas horas de música non stop e de momentos alternados de delírio.

Dizer “boa noite” é ritual. Entre uma canção e outra, Jocelyne e Jean-Phillipe lá iam agradecendo o público com um “obrigado” em português emprestado a rivalizar com a vantagem do inglês e do francês. Ninguém se importou com isso, até porque a noite era mais para música do que para palavras. E porque era preciso subir de nível para contagiar ainda mais os presentes, a banda foi apostando nos temas mais emblemáticos, entre muitos outros, como “Rété”, “Oh Madiana” e “Yélélé”, álbum com o qual o grupo se tornou mais popular, atingindo o auge em 1985.

Já na ponta final, porque fazia falta uma pausa e ganhar fôlego para o grande desfecho, a maioria dos músicos saiu temporariamente do palco, deixando apenas em exibição o baterista e o percussionista, que demonstraram com elevação quanta energia ainda tinham para fazer dessa noite um momento memorável.

Quando o grupo se junta de novo, minutos depois, para as últimas exibições, já se adivinhava um desfecho em grande. Jacob Desvarieux assumiu as rédeas, partilhadas com os companheiros da linha da frente. Interpretaram, entre muitos, os temas “Kolé Séré”, “Ou Lé” e “Mwen Malade Aw”. A dado momento, no fim de uma das canções, ouvia-se: «Jolie, si belle», dizia Jean Phillipe, enquanto da plateia o público seguia as deixas das bailarinas que pediam coro e braços no ar para movimentos da direita para a esquerda em uníssono.

Passavam oito minutos da meia noite, depois daquela que parecia ser a última interpretação da noite, os músicos simularam sair do palco para terem de voltar logo de seguida ante o chamamento ensurdecedor do público, que assobia e pedia por mais um tema. Como é praxe em concertos como este, os Kassav voltaram a pegar nos instrumentos com Jocelyne Béroard à cabeça, como uma autêntica líder, a não deixar a parte final do show em mãos alheias.

Era também momento para se apresentar os elementos da banda e fazer desta reta final um momento inesquecível. E assim foi. Para fechar em definitivo, o último tema ficou a cargo de Jacob Desvarieux, que fez o público vibrar ainda mais quando cantou o esperado “Zouk La Se Sel Medikaman Nou Ni” (2009), que compôs com Evariste Décimus. Entretanto, por mais que os fãs não quisessem, as luzes do palco tinham de se apagar com os últimos acordes de bateria.

Músicas que contagiam e que espalham alegria

Jacob Desvarieeux

Tal como descreveu Carlos Pedro para o Jornal É@GORA, esta canção “é sem sombras de dúvidas o cartão de visita dos Kassav”, considerada por ele “um património mundial”. De acordo com o produtor e promotor de eventos, “a batida 4 por 4, que vem de África influenciou muitos músicos espalhados pelo mundo, que viam nesta fórmula a melhor maneira de se expressar musicalmente”. Como se confirma do concerto no Campo Pequeno, as músicas dos Kassav “convidam à dança e espalham alegria por onde passam”, como refere Carlos Pedro.

Pelas redes sociais, são vários os registos sobre o concerto da última noite no Campo Pequeno. No Facebook, lêem-se muitas reações: “Os Kassav serão inesquecíveis para muitos de nós”; “Eles são grandes. São 40 anos de luxo”; “Foi mais uma noite memorável com a banda da nossa adolescência”; “os Kassav continuam em grande forma”. De facto, “o grupo marcou toda uma geração e perpetuou-se no tempo”, como refere outro internauta.

Alguns adeptos ouvidos pelo nosso jornal mostraram-se igualmente radiantes com o espetáculo. É a primeira vez que José Carlos Landim assistiu a um concerto do grupo. O imigrante cabo-verdiano de 36 anos de idade, diz que os Kassav são para ele uma referência.

“Desde miúdo que eu oiço as músicas da banda antilhana, gosto muito e, por isso, não podia perder este espetáculo”. Para ele, esta é uma forma “de viver a vida”.

E, como cabo-verdiano, frisa que sente «a música a ferver no sangue». Explica que normalmente vai ao Youtube e encontra mix de uma a duas horas que ouve sempre no dia a dia. Os Kassav – reconhece – acabam por ser fruto da emigração/imigração.
O grupo marcou toda uma geração dos anos 80 e 90.

“Lembro quando ainda era criança, em Cabo Verde, não podíamos sair para os festivais como fazem os adultos. Mas já sabíamos, conhecíamos o Jacob”, afirma Ana Lita, 37 anos. Para esta jovem, “agora, esta é uma oportunidade de estar aqui perto, a ver [a banda] ao vivo”.

Edson Cravid, músico mais conhecido por Rei Congo, 34 anos, é filho de pais são-tomenses. Revela que foi com eles que começou a ouvir os Kassav, em festas e aniversários. Na sua opinião, o grupo também já faz parte da cultura dos PALOP. “Acho que os Kassav tiveram uma grande influência na nossa cultura musical”, e “também trouxeram referências para a Europa”.

De referir ainda que o concerto em Lisboa acabou por ser também ocasião para homenagear Patrick Saint-Éloi, ex-vocalista e um dos pioneiros da música zouk, falecido na ilha de Guadalupe, em 2010, aos 51 anos. (X)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here