Legislativas2019: As três afrodescendentes eleitas deputadas que serão “uma voz desconfortável” no Parlamento

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Manuel Matola 

A eleição das afrodescendentes Romualda Fernandes, Beatriz Dias e Joacine Katar Moreira “é um sinal” de que a imigração “conseguiu influenciar a agenda política” em Portugal, onde as três deputadas eleitas serão “uma voz desconfortável” no Parlamento na próxima legislatura.

Em entrevista exclusiva ao jornal É@GORA na noite eleitoral, Beatriz Dias considerou que a sua eleição ao cargo de deputada pelo Bloco de Esquerda (BE) “é um sinal de que o combate ao racismo, à discriminação racial e à luta pelos direitos dos imigrantes têm prioridade política, ou seja, conseguiu influenciar a agenda política” em Portugal.

“Essa eleição é para todos e todas que têm lutado para combater a discriminação racial, para tornar a discriminação racial uma prioridade política e para poder ter propostas de igualdade”, disse Beatriz Dias, que ocupou a terceira posição na lista do BE pelo círculo eleitoral de Lisboa.

Beatriz Dias, fundadora e presidente da Associação de Afrodescendentes em Portugal, afirmou ser “relevante ter deputadas negras no Parlamento”, mas lembrou que “a luta na rua é fundamental para garantir essa transformação e para permitir esse movimento emancipatório que se inicia” agora com a eleição de três mulheres afrodescendentes.

“Foi a luta na rua que também criou esse espaço que foi ocupada por mim, pela Romualda Fernandes e Joacine Katar Moreira. É a luta das pessoas afrodescendentes para garantir os seus direitos que fez com que nós pudéssemos ocupar esse espaço. E a nossa luta também internamente dentro dos partidos e a nossa capacidade de protagonizar essas reivindicações traduziu-se nesse resultado. Portanto, é preciso continuar a influenciar as decisões políticas”, disse.

Questionada sobre as suas prioridades, Beatriz Dias apontou os direitos das pessoas racializadas, dos afrodescendentes e dos ciganos como sendo as que “têm uma agenda clara” que vai ser representada naquele órgão legislativo português.

“O meu compromisso é com uma defesa intransigente dos direitos das pessoas racializadas e dos migrantes. Portanto, fazer um combate sem tréguas ao racismo e à discriminação racial, combater o racismo institucional e todas as suas manifestações e garantir os direitos dos migrantes”, disse Beatriz Dias, resumindo aquilo que é também a agenda defendida por Romualda Fernandes e Joacine Katar Moreira.

“É uma reivindicação que tem mais força hoje quando nós vamos protagoniza-la no Parlamento”, frisou Beatriz Dias.

Embora militem por forças políticas diferentes, as três candidatas de origem africana eleitas ao Parlamento português pelo círculo eleitoral de Lisboa, este domingo, têm algo em comum: são de origem guineense, sendo que Beatriz Dias nasceu no Senegal.

E essa convergência entre as três mulheres não só as uniu no passado como as unirá no futuro, segundo garantiu ao jornal É@GORA Romualda Fernandes, atual vogal do Conselho Diretivo do Alto Comissariado para as Migrações, que estava na 19ª posição na lista do Partido Socialista.

“Isso é óbvio: teremos que trabalhar em conjunto quando convergirmos e, quando também divergirmos, é a democracia e é a liberdade. Não haverá problema nenhum. Mas no essencial, de certeza, que estaremos juntas”, assegurou Romualda Fernandes, para quem a presença dos negros portugueses na Assembleia da República “dá um relevo simbólico”.

“Eu estarei atenta a todas as questões relacionadas com a exclusão social, não só relativamente às pessoas de ascendência africana, os afrodescendentes, mas de todas as pessoas que se encontram em situação de exclusão social e privações, carência e, sobretudo, que veem sua dignidade beliscada”, afirmou a deputada eleita pelo PS.

A noite eleitoral foi descomunal para Joacine Katar Moreira, que apesar de ser cabeça de lista do LIVRE em Lisboa em oposição a Beatriz Dias e Romualda Fernandes, que ocupam a terceira e 19ª posições nas listas, viveu um momento de tensão por ter sido a última das três mulheres afrodescendentes a saber que entrou para o Parlamento.

Durante a noite eleitoral, os militantes do LIVRE ficaram a saber da eleição de Joacine Katar Moreira através do secretário geral do PS, António Costa, quando no seu discurso de vitória apresentou a solução governativa à Esquerda e citou o partido LIVRE como um dos futuros aliados, garantindo que essa força política elegera um deputado.

As declarações de António Costa causaram surpresa e espantou aos que acompanhavam o anúncio dos resultados eleitorais pelas televisões.

E foi no decurso das declarações do líder do PS que a seguir se confirmou a eleição para o Parlamento da primeira e única mulher negra a encabeçar a lista de um partido político na História da democracia portuguesa.

Reagindo, Joacine Katar Moreira disse que o partido LIVRE estava “ansioso, sedento de contribuir de uma forma efetiva para uma mudança nacional”, mas avisou: “seremos uma voz desconfortável. Nós não viemos confortar ninguém, nem maiores parlamentares, nem minorias. Não estamos para isso”

O PS venceu sem maioria absoluta e o líder socialista disse que iria tentar repetir uma solução de governo à Esquerda, numa eleição marcada pela derrota histórica da direita e pela entrada de três novas forças políticas na Assembleia da República, incluindo o partido CHEGA, liderado por André Ventura, conotado com a extrema direita.

“Nós não precisamos do (partido) CHEGA para nada”, disse António Costa, quando questionado sobre a sua atuação no Parlamento face à entrada de partidos cujos ideais advogavam a instauração de uma ideologia da supremacia branca em Portugal.

No seu discurso vitória, Joacine Katar Moreira também afirmou: “Não há lugar para a extrema direita no Parlamento português”, pelo que o LIVRE será “a Esquerda antifascista, a Esquerda antirracista não apenas na retórica, mas nas leis, nas propostas, nas medidas, na atitude e no exemplo”.

“Seremos também a Esquerda feminista radical na Assembleia da República, porque o radicalismo feminista também é um alicerce das democracias. E referir que as reivindicações das minorias quaisquer que sejam são aquelas que vão reforçar a democracia em Portugal”, disse Joacine Katar Moreira, que assinalando que o LIVRE também vai ser “a Esquerda Verde no Parlamento português, a Esquerda Ecológica que defenderá Novo Pacto Verde, o investimento necessário para proteger o planeta” para que se deixe herança às futuras gerações. (MM)

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