Lucibela lamenta entraves de mobilidade na Europa

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Lucibela Foto: Mário Pires
FMM2019-Lucibela Foto: Mário Pires

A cantora cabo-verdiana Lucibela considera que “é preciso fazer mais para melhorar a livre circulação de pessoas, não só dos artistas” no espaço lusófono, reforçando o desafio lançado por Cabo Verde a favor da promoção de melhores medidas visando uma maior mobilidade entre os países de língua portuguesa, de que faz parte Portugal.

Os entraves são mais notórios na Europa, que se rege pelas regras de um rígido controlo fronteiriço no âmbito da Convenção de Schengen.

“Por sermos artistas sentimos menos isso na pele”, diz a artista cabo-verdiana, que, entretanto, lembra ter enfrentado duas situações embaraçosas para viajar, uma das quais no aeroporto de Istambul, na Turquia.

Até 2020, a CPLP deverá aprovar a livre circulação de bens e pessoas nos nove países que falam o português, um dos objetivos de Cabo Verde, no âmbito dos esforços que vem travando na presidência da CPLP.

“Criaram-me muitos problemas com o meu passaporte. Toda a gente já se encontrava no avião e eu estava ali por nada”, revela, lamentando as dificuldades que ainda se sente para entrada e circulação nalguns países europeus ao abrigo das convenções internacionais.

Para Lucibela, a medida impeditiva de circulação de cidadãos no espaço lusófono “é um bocadinho constrangedor”.
“Desde que a pessoa esteja legal não vejo motivos para criarem este tipo de problemas. Não sei se tem a ver com o racismo ou por desconhecimento dos outros países por parte dos agentes que controlam as fronteiras aeroportuárias”, explica.

“Não sei de onde é que vem o problema”, diz em resposta a uma pergunta do Jornal É@GORA em conferência de imprensa.

A cantora cabo-verdiana, nascida em 1986 na ilha de São Nicolau, falou aos jornalistas no final do seu primeiro concerto, esta sexta-feira, dia 25, no Festival Músicas do Mundo de Sines (FMM), onde apresentou temas do seu novo CD “Laço Umbelical”, lançado em 2018, que inclui um dueto com o músico angolano Bonga.

A artista tem um novo trabalho na forja para 2020, mas por enquanto está centrada numa maior divulgação do seu disco na digressão que realiza por vários países ao longo deste ano. Depois da Austrália, Bélgica, França, Moçambique, tem espetáculos nos próximos meses em vários países, entre os quais Áustria, Espanha, Espanha, Canadá, EUA e Polónia.

Sines, um dos maiores palcos globais da música

África destaca-se entre as Músicas do Mundo

O Festival de Sines, evento da autoria da Câmara Municipal, já vai na sua vigésima primeira edição. Este ano, o festival conseguiu oferecer mais de 50 concertos de 31 países, com África uma vez mais a ocupar um lugar de destaque entre os grupos e músicos convidados pela produção coordenada por Carlos Seixas.
Porque é impossível falar de todos, o Jornal É@GORA assinala a exibição de Lucibela, cuja “música remete para os ambientes clássicos da morna e da coladeira”, como que a enaltecer “a força de ser mulher”. Têtê & Sara Alhinho, mãe e filha – ambas inscritas na história da música de Cabo Verde – foram outra revelação.

Outra sonoridade pela voz da gambiana Sona Jobarteh evocou, com a força do kora, os progressos sociais dos povos mandinga da África Ocidental. Reafirmara também a pujança da música africana que, através da emigração/imigração, chegou a outras paragens e se misturou com outras culturas.

Ao refugiar-se no País de Gales aos 16 anos por causa da guerra civil no Burundi, Jean Patrick Bimenyimana Serukamba, nascido em Bujumbura, fundou a banda JP Bimeni & The Black Belts. Da Nigéria, Keziah Jones impôs-se na Europa e é hoje um dos mais proeminentes músicos do blues-rock desde os anos 90, tendo fundido o blue e o funk com as influências soul e raízes ioruba. Dobet Gnahorá, da Costa do Marfim, descobre o potencial da sua voz crítica e criativa em França, para onde emigrou em 1999. Gravou quatro álbuns e tornou-se viajante.

Ao longo destes anos, Sines acaba por ser a montra dos muitos projetos de fusão proporcionados pelas migrações, juntando vários estilos musicais, do hard-bop ao afrobeat, do deep-funk ao hip-hop.

O Ethno Portugal, um projeto mundial, apresentou um espetáculo único, constituído por 50 músicos e 10 bailarinos de vários países. Cada um trouxe uma peça representativa da sua cultura, inspirados na tradição oral. Branko apostou nos novos sons eletrónicos de Lisboa recorrendo ao diálogo com a herança africana da capital portuguesa, considerada uma cidade multicultural, que congrega gentes de várias culturas e origens. Isso mesmo abordou Dino D’ Santiago quando retratou a nova Lisboa no seu concerto acompanhado pelo coro do público.

É exatamente o ambiente multicultural de Londres que deu força ao projeto Kokoroko no Reino Unido, exibido no cartaz da última quinta-feira, 25. A maioria dos músicos que subiram o palco do Castelo de Sines tem raízes na África Ocidental. Radicados na Europa, os músicos que compõem a banda integrada por três mulheres recorreram ao afrobeat como elemento de união.

Inspirado na tradição, António Marcos – natural de Xai Xai, em Moçambique –, prometeu defender a marrabenta de raiz, passando às novas gerações os valores desta dança de ritmo genuíno. É uma das vozes de craveira nacional e internacional que encerra o FMM Sines este sábado, 27, na mesma noite em que sobe ao palco a Ladysmith Black Mambazo, da África do Sul, assim como o Batida que apresenta Okoqwe, uma simbiose de Angola e Portugal a que dá corpo o seu diretor artístico e ativista luso-angolano, Pedro Coquenão.

Presidente da Câmara Municipal de Sines, Nuno Mascarenhas

Os impactos do FMM Sines

Já com duas décadas de existência, o festival que tem lugar todos os anos na costa alentejana já atingiu a idade adulta e vai continuar com o perfil que sempre o definiu, apostando nas músicas do mundo. A garantia é dada pelo presidente da Câmara Municipal de Sines (CMS), tutora do projeto criado em 1999, e que, tendo ganho maturidade, sempre primou pela qualidade e a diversidade cultural.
O autarca refere-se à sensibilidade do produtor e diretor artístico, Carlos Seixas, que tem sempre a preocupação de diversificar os grupos e os artistas que vêm a Sines. «Naturalmente que África, berço das músicas do mundo, é sempre um ponto forte daquilo que é a seleção feita ano após ano», precisa.
Os ganhos do FMM são de natureza cultural, económico e social, segundo admite Nuno Mascarenhas. Acima de tudo, o impacto é de natureza económica sempre com a preocupação ao longo dos últimos anos em ter algum equilíbrio financeiro.
“O objetivo é sempre aumentar as receitas e diminuir as despesas», explica o autarca socialista, elucidando que «isso só é possível com parcerias”, diz. Nos últimos anos, a CMS tem conseguido “parcerias importantes” que têm permitido em Porto Covo e em Sines alavancar o festival, obtendo uma redução das despesas.(X)

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