Manifestação anti-racista 6ªfeira quer Ventura fora do Parlamento, deputado reage: “o CHEGA não é racista”

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Lisboa será fim de semana palco de eventos contra o racismo e de negação à existência do fenómeno

Manuel Matola

Uma manifestação anti-racista vai realizar-se esta sexta-feira em frente à Assembleia da República para exigir a retirada do Parlamento do deputado e líder do CHEGA André Ventura que, entretanto, agendou para o dia seguinte, sábado, um protesto com 1500 pessoas para defender que “Portugal não é racista”.

Quase uma dezena de organizações anunciou que se vai concentrar “na sexta-feira, dia 26 de junho, às 16:00” diante do Parlamento para exigir “que os guardiões institucionais da Constituição de Abril saiam da sua letargia e excluam, pelo seu manifesto racismo e fascismo, o CHEGA e o deputado André Ventura da Assembleia da República”.

Mas em reação ao jornal É@GORA, o líder do CHEGA, o único partido da extrema direita e anti-imigração em Portugal, contestou a realização de uma manifestação “contra partidos legitimamente eleitos”.

“Não compreendemos, nem aceitamos uma manifestação que seja contra partidos legitimamente eleitos”, disse André Ventura numa nota enviada ao jornal É@GORA pela assessoria de imprensa.

Os organizadores da manifestação de sexta-feira, que se realiza sob lema “Acordai! O Racismo e o Fascismo estão na Assembleia!” consideram que “a chegada do partido CHEGA e do deputado André Ventura à Assembleia da República é um sinal do avanço do racismo e fascismo na sociedade portuguesa, ao qual os partidos políticos e instituições democráticas não têm dado cobro”.

Na nota justificativa, as sete organizações, incluindo o Sindicato de Estudantes, se identifica como “uma organização estudantil revolucionária e anti-capitalista que defende a educação pública, gratuita, laica e democrática”, acusam André Ventura de estar envolvido em várias ações pró-racistas, juntamente com Mário Machado, líder do grupo de extrema-direita ´Nova Ordem Social`, indiciado no “assassinato, há precisamente 25 anos, de Alcindo Monteiro por um grupo neonazi”.

“São inúmeras e públicas as evidências de que o CHEGA, o seu deputado e vários dos seus dirigentes têm ligações à extrema-direita (grupos e movimentos neonazis e salazaristas)”, referem as organizações.

E exemplificam com ações que partem desde a “manifesta e sistemática perseguição à comunidade cigana desde a sua campanha nas autárquicas em Loures 2017 até, já como deputado na AR, no quadro da pandemia COVID-19”, ao “incitamento ao ódio racial contra esta, assim como o seu desprezo por outros portugueses racializados (como quando defendeu que uma deputada negra deveria ir “para a sua terra”)”, numa alusão à Joacine Katar Moreira.

“É conhecida a sua estratégia de instrumentalização e manipulação de sectores e associações sindicais das Forças de Segurança, contribuindo para a constituição do Movimento Zero e para a infiltração de elementos racistas e fascistas na polícia. Tem também na mira outros sectores do Estado, apregoando defendê-los, para deles retirar votos e apoio, ao mesmo tempo que no seu programa propõe a privatização dos serviços públicos, o despedimentos de funcionários públicos e, no fundo, a precarização das condições de vida de todos os trabalhadores”, acusam na carta divulgada nas redes sociais.

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Os organizadores do evento de sexta-feira consideram ainda que “o CHEGA e André Ventura utilizam a Assembleia da República para fazer propostas inconstitucionais e de incitamento ao ódio (castração química, confinamento específico das comunidades ciganas, o fim do combate à discriminação racial, etc.), chegando mesmo a propor uma IV república, numa afronta expressa à Constituição e ao regime democrático”.

“Por tudo isto”, os protestantes assumem uma posição: “Exigimos que os partidos políticos confrontem directa e activamente o CHEGA”.

Segundo os organizadores, as forças políticas com assento parlamentar “não podem continuar a seguir uma estratégia de relativização leviana do seu poder, assim como de negação total do racismo ou a sua redução a casos pontuais”.

Por isso, insistem: “Exigimos que os guardiões institucionais da Constituição de Abril saiam da sua letargia e excluam, pelo seu manifesto racismo e fascismo, o CHEGA e o deputado André Ventura da Assembleia da República”.

E mais: “exigimos uma ação consequente e célere na proibição e extinção de organizações racistas e fascistas, sobretudo num momento em que por cá e noutras partes do mundo estas estão em ascensão”, dizem, apelando para o respeito da Lei Fundamente do país.

“Cumpra-se o artigo 46º (alínea 4) da CRP: ‘Não são consentidas (…) organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista’. Cumpra-se o artigo 160.º (alínea d) ‘Perdem o mandato os Deputados (…) por participação em organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista'”, lê-se na nota dos sete organizadores do evento, designadamente: Núcleo Antirracista de Coimbra, Associação Cavaleiros São Brás, Consciência Negra, Núcleo Anti-Racista do Porto, Instituto da Mulher Negra em Portugal, Femafro e o Sindicato de Estudantes.

Em reação ao jornal É@GORA, o deputado e líder do CHEGA refuta as acusações de que o seu partido paute pela discriminação dos portugueses ou minorias étnicas.
 
“Para que fique claro: o CHEGA não é racista. Nunca foi racista, nem nunca será e não será um grupo de manifestantes mal-informados e, acima de tudo, mal-intencionados que o vai fazer parecer”, lê-se na mensagem enviada ao jornal É@GORA.
 
E acrescenta: “Nós somos a expressão dos portugueses comuns que se sentem obrigados a permanecer em casa, porque a esquerda tomou conta das ruas e isso tem de acabar. É tempo de a direita poder sair à rua sem medo e, essencialmente, sem vergonha de ser de direita e tenho a certeza que os portugueses de bem estarão connosco no sábado para mostrar que o nosso país não é racista”.

“Portugal é um país racista”, mas “existe na sociedade um problema de racismo estrutural” – Ventura

Citado pela Lusa, o líder do CHEGA diz que o partido vai manter a manifestação agendada para sábado e estima que poderá juntar cerca de 1.500 pessoas que defendem que Portugal não é racista, ainda que em Lisboa tenham sido decretadas restrições a ajuntamentos devido à pandemia do novo coronavírus.

O presidente do Chega, André Ventura, endereçou na terça-feira duas cartas à Câmara Municipal de Lisboa e ao Ministério da Administração Interna, nas quais manifesta a “intenção de realizar uma manifestação em Lisboa, no próximo sábado dia 27 de junho, organizada, calma e pacífica, cumprindo ao máximo as regras do distanciamento social e outras que o bom senso dite, de forma a assegurar a segurança máxima de todos os participantes”.

O protesto, cujo objetivo é contrariar a ideia de que “Portugal é um país racista e de que existe na sociedade um problema de racismo estrutural”, está marcada para as 14:00 e sairá do Marquês de Pombal em direção ao Terreiro do Paço.

“Nós, portugueses, orgulhosos do nosso país e da nossa história – com todos os seus defeitos e qualidades; nós, portugueses, que não somos racistas e que defendemos a sociedade multicultural com todos os seus direitos e deveres, temos de sair à rua e mostrar que recusamos todos os epítetos pejorativos que nos querem colar”, lê-se na missiva endereçada a Fernando Medina e Eduardo Cabrita, à qual a Lusa teve acesso.

Segundo a Lusa, o grupo coordenador da manifestação teve esta quarta-feira uma “reunião preparatória” com a PSP, e fonte do Chega disse à Lusa que são esperadas cerca de “1.500 pessoas no total”. (MM)

1 COMENTÁRIO

  1. “PORTUGAL É UM PAÍS RACISTA”, MAS “EXISTE NA SOCIEDADE UM PROBLEMA DE RACISMO ESTRUTURAL” – VENTURA

    O Dr André Ventura disse isto???
    A SÉRIO? É PARA RIR???
    “PORTUGAL É UM PAÍS RACISTA” ???????

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