Manu Dibango: Calou-se o saxofone da imigração africana – perfil

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Rei do afro Jazz
Rei do afro Jazz
Nilza Rodrigues

Michael Jackson plagiou-o. Rihanna pagou direitos. E o afro-jazz nunca mais foi o mesmo desde Soul Makossa, o seu maior hit. Esta é a história de um imigrante camaronês em França.

Wanna be starting something. A frase chama logo a atenção dos ouvidos mais atentos. É a música de Michael Jackson que nos faz bater o pé e abanar o corpo. Mas o que poucos sabem é que a melodia foi plagiada de Soul Makossa, o som que catapultou Manu Dibango para o universo dos ícones mundiais do afro-jazz.

O plágio foi abafado por um acordo financeiro. E Rihanna que também deu voz ao ritmo do camaronês já não cometeu o mesmo erro. Pois ele que criou esse ritmo inesquecível e que esteve sempre no aconchego da sua música, sem se dar a grandes holofotes, é hoje anunciado como a primeira personalidade do mundo a ser vítima do Covid-19.

E a música perde um gigante

Manu Dibango, a primeira personalidade africana vítima de Covid-19

“O mundo da música perde uma das suas lendas”, lamentou nas redes sociais o ministro da Cultura francês, Franck Riester. Uma lenda ou um “construtor de pontes entre o Ocidente e a África”, como se autointitulava, entre uma e outra gargalhada sonora.

Manu Dibango era assim. Simples. Nasceu em Douala, Camarões, há 86 anos com o nome de Emmanuel N’Djoké Dibango no seio de uma família protestante. O pai, funcionário público, tinha grandes ambições para o filho. Queria que fosse engenheiro ou médico e, por isso, mandou-o para França com uma mochila com três quilos de café e de…sonhos. Assim ficaria paga a família de acolhimento. Começou a estudar. Mas o bichinho da música estava lá. Bandolim e piano foram as suas primeiras descobertas. O saxofone só surgiu mais tarde, num acampamento de Verão, mas foi determinante para começar a falhar nos estudos e o pai, irredutível, cortou na mesada. Não desistiu. Segue para Bruxelas.

“Na minha época, tinha que tocar em cabarés, bailes, circos. Tocar com um acordeonista como André Verchuren garantia algumas datas”, conta na sua biografia Trois kilos de café.

E por aí que conhece Marie-Josée, a sua primeira mulher e Joseph Kabasélé, maestro do jazz que reacendeu o seu ADN africano. Segue-o. Abre um bar em Camarões e lança a moda do twist, estávamos em 1962. Regressa a França três anos mais tarde e em 1972 é convidado a compor o hino para o Campeonato Africano das Nações anfitriado pela sua terra natal. Ironia do destino. No lado b grava Soul Makossa. E nunca mais a sua vida foi a mesma.

Eliades Ochoa, Youssou N´Dour, Peter Gabriel e Sinead O’Connor passaram pela sua carreira e levaram a sua marca. Sempre mantendo-se em França onde, em 2013, assinou o seu último álbum, Balade en Saxo. Explica.

“Lido com a cultura ocidental e a africana desde sempre. Como colonizado, sempre tive acesso à cultura ocidental. Mas nunca deixei de tocar a música com que nasci. Só que toquei diferente, toquei o que quis”. Deixa-nos de forma súbita, apesar dos seus 86 anos. Deixa-nos com um legado gigante e, por isso, merece uma derradeira homenagem que não será para já.

“As cerimónias fúnebres vão decorrer de forma restrita, em ambiente familiar, mas vai ser realizada uma homenagem assim que seja possível”, lê-se na página oficial do saxofonista no Facebook. (NR)

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