Mehrang, a criança afegã que quer asilo para estudar Psicologia em Portugal

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Embarque no aeroporto Eleftherios Venizelos (Atenas) com destino a Lisboa. FOTO: OIM/Christine Nikolaidou ©

Manuel Matola

Aos 16 anos, Mehrang apanhou avião pela primeira vez na vida e deixou para trás memórias de um conflito que há duas décadas opõe várias facções terroristas no seu país de origem, Afeganistão. Na véspera de entrar para a aeronave, o adolescente revelou o que de mais precioso transportava na bagagem: o sonho de querer ser psicólogo em Portugal.

Esta semana, o afegão viu aproximar-se deste objetivo. Mehranga é uma das 25 crianças não acompanhadas e requerentes de asilo que viajaram da Grécia para Portugal através de uma iniciativa conjunta da União Europeia e três agências das Nações Unidas.

E mesmo antes de saber os contornos da recolocação num país totalmente em paz e dos mais seguros do mundo, o afegão decidiu abandonar o mar de incertezas que a guerra civil que ficou lá longe o impôs e fixar-se apenas nos passos futuros que deve dar.

“Eu sei que aprender a língua é muito importante. Depois disso, espero ir para a Universidade”, diz Mehranga, citado numa nota conjunta divulgada pela OIM e pelo ACNUR em Lisboa, onde as duas “agências da ONU dão as boas-vindas à chegada de crianças não acompanhadas da Grécia”.

Em Portugal, Mehranga lutará para, em breve, ser oficialmente refugiado, e mesmo ainda sem saber muito da realidade do pais de acolhimento está “com um pensamento positivo para este novo começo”.

“É a primeira vez que estou a apanhar um avião e estou mesmo entusiasmado. Não sei muito sobre Portugal, mas estou com um pensamento positivo para este novo começo”, assegura Mehranga, que chegou terça-feira ao território português na companhia de outros rapazes da sua geração.

São no total 25 rapazes: 19 do Afeganistão, 4 do Egipto, 1 da Gâmbia e 1 do Irão, com idades compreendidas entre os 15 e 17 anos. Sem quaisquer laços de familiaridade chegaram sozinhos ao continente europeu fugindo de situações várias nos seus países.

FOTO: Alex Grec
A OIM e o ACNUR garantem que este é o primeiro grupo a ser recolocado em Portugal, resultado de uma iniciativa conjunta de 11 Estados-membros da União Europeia e Noruega que se comprometeram a receber 3.300 crianças da Grécia para outro estado Europeu, incluindo crianças migrantes desacompanhadas e outros requerentes de asilo vulneráveis.

Portugal comprometeu-se a recolocar 500 crianças não acompanhadas vindas da Grécia.

Mehranga é uma delas.

“Estou ansioso para chegar e ingressar na escola”, diz o adolescente, segundo o comunicado das agências humanitárias que transcrevem as declarações deste adolescente, de resto, o único que revelou o sonho de se formar longe de casa.

Na verdade, Mehrang não tem garantia nenhuma do dia em que voltará para o país que o viu nascer, mas tem um plano bem traçado. Um rumo.

“Quero tornar-me psicólogo e comunicar com outras pessoas. Tomei esta decisão ainda no meu país de origem e tenho a certeza que é o caminho que quero seguir,” afirma o afegão, que juntamente com outros colegas serão acolhidas por um período inicial de 3 a 6 meses num centro de receção da Cruz Vermelha Portuguesa e acompanhadas por uma equipa socioeducativa multidisciplinar, que inclui psicólogos, assistentes de educação e assistentes sociais.

Segundo o plano elaborado pelas autoridades portuguesas, posteriormente, as crianças vão ser encaminhadas para respostas a longo prazo de acordo com as suas necessidades e perfil.

A encarregada pelo escritório da OIM em Lisboa, Sofia Cruz, elogia “o compromisso solidário” do Governo português com a Grécia e com as crianças, “especialmente durante este período com desafios sem precedentes colocados pela COVID-19”.

“A recolocação provou mais uma vez ser um instrumento efetivo, seguro e digno para as pessoas mais vulneráveis”, considera a responsável pelo escritório da OIM em Lisboa que juntamente com o ACNUR se mostram “muito satisfeitos por ter ajudado este primeiro grupo de crianças – que viviam em condições muito precárias – a chegar a Portugal através de uma ação forte e concertada entre as agências e Portugal”.

Também o Coordenador Sénior de Relações Externas do Escritório Regional do ACNUR para a Europa, Nicolas Brass, “saúda” em nome da agência das Nações Unidas “esta demonstração de solidariedade e abertura por parte de Portugal”, lembrando que, “durante muitos anos, estas crianças passaram por jornadas e condições difíceis e agora poderão finalmente recomeçar as suas vidas”.

Nicolas Brass espera por isso que este espírito solidário “seja um incentivo” para que outros estados europeus “sigam o exemplo e contribuam para os esforços de recolocação tão necessários das ilhas gregas superlotadas”.

A OIM, o ACNUR e a UNICEF também participaram da formação da equipa técnica que irá receber e apoiar a integração das crianças em Portugal.

Segundo a nota, as três agências humanitárias, que apoiam “totalmente todo o processo”, trabalharam em conjunto para estabelecer padrões para os quais as crianças são identificadas e priorizadas para recolocação.

Este exercício foi feito em estreita colaboração com os seus principais parceiros, nomeadamente o Gabinete Europeu de Apoio ao Asilo (EASO).

O documento conjunto das agências da ONU, intitulado “Padrões Mínimos de Proteção na Infância para Identificação de Crianças não acompanhadas e separadas a serem recolocadas da Grécia para outros países da União Europeia” afirma que essas normas “devem estar firmemente enraizadas” nos marcos legais internacionais de direitos da criança, incluindo a Convenção sobre os Direitos da Criança e a Convenção sobre Refugiados de 1951, que estabelece as considerações sob as quais as necessidades de proteção internacional são estabelecidas.

No rol das atividades ficaram definidas quais as tarefas de cada uma das organizações envolvidas no processo de recolocação das 25 crianças.

O ACNUR apoiaria ativamente as autoridades gregas durante o processo de identificação das crianças desacompanhadas e separadas a serem recolocadas e a determinar os melhores interesses dos menores, inclusive levando em consideração os laços familiares existentes.

Na verdade, nesse trabalho, “é dada prioridade às crianças que vivem nas ilhas e em condições precárias no continente”, diz a nota sobre o papel do ACNUR que, a pedido das autoridades gregas, também recuperou temporariamente o programa de tutela para o exercício de recolocação com o seu parceiro METAdrasi patrocinado financeiramente pela Comissão Europeia. A ideia é garantir que as crianças sejam apoiadas e representadas durante todo o processo e acompanhadas com segurança das ilhas para o continente.

A OIM foi quem organizou os voos, sessões de orientação pré-partida e apoio psicossocial às 25 crianças que “receberam informações sobre o que esperar durante a viagem e na chegada a Portugal.

Além disso, essa entidade que é responsável pelas migrações na ONU, realizou exames médicos para detetar qualquer problema de saúde pública que possa requerer acompanhamento após a chegada, bem como testes de diagnóstico para a COVID-19, esclarece o comunicado.

E foi ainda a equipa da OIM, incluindo dois acompanhantes operacionais durante o voo, quem deu suporte à chegada e transferência segura do grupo de adolescentes e jovens às mãos das autoridades responsáveis no aeroporto de Lisboa, onde, nesta terça-feira, o afegão Mahrenga abriu um novo ciclo na vida. (MM)

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