Memórias coloniais: Imigrantes africanos e afrodescendentes querem mais visibilidade em Portugal

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A diáspora africana tem mais um espaço, criado por académicos, para o relato das suas histórias de vida como imigrantes desde o período colonial. Através de entrevistas em vídeo, o grupo dos projetos AFRO-PORT ouviu os testemunhos de africanos, afrodescendentes e afro-diaspórios em Portugal, marcados de forma intensa pela negação da queda do império colonial após o 25 de abril de 1974. Trata-se de mais um instrumento contra a invisibilidade dos imigrantes africanos e dos negros nascidos em território português.

O auditório da Culturgest foi pequeno para o número de interessados na apresentação, esta quinta-feira, dos projetos AFRO-PORT – Afrodescendentes em Portugal e Discursos Memoralistas e a Construção da História, que resultam da parceria entre o Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) e a Faculdade de Letras Universidade de Lisboa.

O objetivo é o de registar as memórias orais sobre a história do colonialismo e sublinhar a sua importância na história africana e portuguesa.

Para trazer a público as “Memórias Africanas em Portugal”, os académicos Inocência Mata, Iolanda Évora e Julião Soares de Sousa, bem como a jornalista Carla Fernandes deram voz a um debate considerado interessante e sublinhado como um contributo para a redução do défice de conhecimento da participação de africanos e afrodescendentes na sociedade portuguesa.

O projeto, apresentado no âmbito do ciclo sobre “Memórias Coloniais”, que decorre entre 19 de Setembro e 5 de outubro em Lisboa, tem o condão de valorizar as respetivas narrativas orais e trazê-las para a escrita da história da presença africana e da história de Portugal, incluindo as memórias de europeus sobre África e as suas experiências no continente.

Através da fala e da imagem, o projeto exibe as vivências migratórias dos principais protagonistas, alguns dos quais estiveram presentes no pequeno auditório da Culturgest. São histórias de vida, factuais e emocionantes, vividas na antiga metrópole colonial, que mereceram muitos aplausos do público.

Uma das curadoras do projeto, Inocência Mata (do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa) – contextualizou a amplitude da iniciativa.

“Nós quisemos dar importância, relevar, as memórias de africanos que viveram a Metrópole colonial. O que nós quisemos foi também tornar visível a presença de africanos em Portugal”, precisou.

“Todos nós já lemos memórias de europeus que estiveram em África”, afirmou a académica de origem são-tomense, adiantando que o objetivo é dar a conhecer também o acervo de memórias, por enquanto orais, existentes na sociedade portuguesa.

“É um projeto em que pretendemos entrevistar pelo menos dezena e meia de africanos”, informou, tendo recordado de seguida o nome do médico e nacionalista são-tomense, Tomás Medeiros, falecido recentemente em Lisboa e que seria uma das vozes a registar no âmbito deste programa.

Entre os testemunhos é de destacar o de Nha Zita, cabo-verdiana a viver há mais de quatro décadas em Portugal, que revelou ter sofrido a escravatura nas roças de São Tomé.
“Passei muito mal, a trabalhar com sacrifício, com machim na mão e tina na cabeça para quebrar o cacau, a sol e chuva”, conta no vídeo.

Com o seu depoimento, a cidadã desmistifica a ideia de um colonialismo brando ou benevolente e confirma que o cabo-verdiano foi usado como escravo nas roças de cacau e café daquelas paragens de África. Vítima da exploração colonial, Nha Zita traz à tona no seu testemunho a discriminação racial de que foi vítima já em Portugal, para onde emigrou depois de São Tomé. Disse que ficou por cá, forçosamente, por causa dos filhos, mas o seu desejo era regressar a Cabo Verde.

A “vida era barata, mas agora não; é complicada», relata a mulher que apenas depende da reforma do marido já falecido. “Esse dinheiro não dá para nada”, desabafou. “Então, tenho que aguentar”, disse conformada com a ajuda dos filhos.


“Somos um grupo que não é considerado para a história dita oficial”

A jornalista Carla Fernandes criou, em 2014, o áudio blogue Rádio AfroLis com a ambição de contribuir para a história da presença negra em Portugal, reunindo até então horas de relatos orais como parte essencial para a valorização dos negros afrodescendentes.

“Somos um grupo que não é considerado para a história dita oficial”, afirmou. São recolhas de testemunhos pessoais que, segundo a ativista de origem angolana, acabam por fazer parte da história coletiva.

Identificou nos três relatos expressos nos vídeos exibidos na Culturgest, entre os quais de Nha Zita e da Dona Ilda, pontos de convergência com o trabalho que vem desenvolvendo no sentido de dar voz aos africanos negros. Fez alusão nomeadamente à questão do racismo, bem como da problemática dos bairros de barracas e a forma como as pessoas foram desalojadas e distribuídas para outros espaços urbanos no âmbito dos programas de realojamento camarários.

Neste encadeamento, Carla Fernandes considerou precioso o trabalho do grupo de investigadores para o registo destas memórias, que também “seriam” úteis como protagonistas para integrar a chamada história oficial.

“Nós, os não protagonistas, os que não têm voz, os que não têm espaço, muitas vezes só podemos recorrer mesmo a relatos orais, que são complementares ao que nós gostaríamos de ver partilhados”, concluiu a jornalista.

O professor Julião Soares de Sousa (do Centro de Estudos Interdisciplinares do século XX, Universidade de Coimbra) destacou a presença histórica dos negros em vários quadrantes da vida social portuguesa (nas artes, na música, na dança, na pintura, na toponímia, etc.), a qual “foi absolutamente silenciada” ao longo do tempo. Tal silenciamento, explicou, teve a ver com o próprio processo histórico.

E, dando exemplos de imagens depreciativas de representações dos negros nas sociedades europeias ao longo de décadas, o historiador precisou que até hoje a sua “presença em Portugal [ainda] é invisível e silenciada”. Porque – reforçou – “havia interesse em marginalizá-los”.

No final da sua intervenção, questionou: é possível produzir conhecimento com base nas memórias? Pergunta a que o académico, natural da Guiné-Bissau, respondeu com várias outras recomendações em nome da objetividade que, para isso, “é [também] necessário validar e legitimar a história oral”.

Não são narrativas vazias

Inocência Mata e Iolanda Évora

Na sua comunicação, Iolanda Évora, (do Centro de Estudos sobre África, Ásia e América Latina, ISEG, Universidade de Lisboa) afirmou que “as narrativas destas pessoas não são vozes que despencam do vazio”. A investigadora de origem cabo-verdiana constatou que, “ao contrário, tudo o que dizem é importante, conta e merece ser contado, pois não foram desarmadas. Despejadas, talvez. Mas não despojadas nem banidas”.

A narração feita pelas mulheres, referiu mais adiante, demonstra o grau do sofrimento vivido no passado colonial.

“E esta é a voz destas pessoas que se identificam como segmento da população subjugado pela dependência, a opressão, a desigualdade e a discriminação, mas que desafiando a face pela qual são mais reconhecidas em Portugal, constroem memórias, saudades, afetos e resistências com os pés bem fincados neste lugar no qual foram vivendo e foram vendo transformar-se”. A transformação a que se refere de Portugal – reforçou –, contou substancialmente com a participaram das mulheres imigrantes oriundas de África.

“Sei o que elas passaram durante aqueles anos”, reconheceu um jovem afrodescendente a partir da plateia, filho de uma das imigrantes convidadas.

“Como elas houve milhares de mulheres vítimas de racismo e do sistema colonial”, pelo que – acrescentou –, “a sociedade tem que reconhecer que há falhas, levantar a voz” e unir-se para a mudança de mentalidade.

Os afrodescendentes vão continuar a lutar para que “os negros tenham visibilidade”

Com estes registos em vídeo, como referiu Iolanda Évora, “podemos estabelecer um roteiro seguro para que se possa entrever nas memórias colhidas um retrato de Portugal, especificamente da cidade de Lisboa”. E, aconselhou: “cabe-nos então, e sem pressas talvez, reconhecer a contribuição destas pessoas nos níveis da composição mais profunda do retrato de Portugal”. E assinalou: “porque se trata de um trabalho de esforço e de luta para derrotar a ação mais sinistra que tenta sufocar a lembrança”.

Para Iolanda Évora, tudo o que foi contado pelos entrevistados, no âmbito deste projeto, tem a ver com a história de todos os imigrantes que, nos anos 50 a 70, saíram dos seus países de origem em busca de uma vida melhor.

Ansiosa pelo estímulo que provocou o momento, já na reta final do debate, uma jovem assistente de origem africana assegurou: os afrodescendentes vão continuar a lutar para que “os negros tenham visibilidade na sociedade portuguesa”.

Dos testemunhos das mulheres entrevistadas pela equipa de investigadores do AFRO-PORT, espelham relatos de sofrimento, mas deixam ao mesmo tempo uma mensagem de esperança de dias melhores, distantes da forma como a comunidade africana imigrante viveu o passado colonial e a segregação racial evidenciados nos bairros sociais ou nas barracas erradicadas pelo tempo.

De acordo com o grupo organizador, o projeto AFRO-PORT será divulgado e debatido noutros espaços, estando previsto para o dia 2 de outubro outro encontro do género sobre afrodescendência, na Casa Ninja, em Lisboa. (X)

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