Mulheres imigrantes querem equidade e apoios para criar negócios

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Zilca Paiva Gonçalves na abertura do workshop “Santd-Up for Gender Equality in Tourism”

A atividade turística, que representa 10 por cento da riqueza mundial, pode gerar empregos dignos e contribuir para oferecer mais oportunidades às mulheres, incluindo as imigrantes, desde que cumprida a equidade de género recomendada pelas Nações Unidas. O turismo, pela sua transversalidade económica e repercussão social, é um claro aliado para se atingir as metas propostas até 2030. Esta é uma das conclusões de um encontro realizado nos arredores de Lisboa no qual os participantes, na sua maioria mulheres africanas na diáspora, discutiram a problemática do género e a sua relação com aquele setor.

As mulheres querem ocupar o seu devido lugar na sociedade, ao lado dos homens, conforme emanam os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável do Milénio (ODS), traçados pelas Nações Unidas. “Estamos a viver uma geração de equidade e a procurar todos os dias defender esse equilíbrio, embora haja ainda muito mito à volta desta questão, de que as mulheres querem ocupar o lugar dos homens”, afirma Zilca Paiva Gonçalves, fundadora da Gender Tourism Cabo Verde, uma organização sem fins lucrativos nascida há cerca de três anos no Arquipélago cabo-verdiano e que agora atua na diáspora.

“A ideia é não só concentrar a atividade dirigida à comunidade cabo-verdiana”, explica em declarações ao Jornal É@GORA no dia em que teve lugar em Carcavelos, arredores de Lisboa, o workshop “Santd-Up for Gender Equality in Tourism”. O evento, realizado na última sexta-feira, no espaço da CRIARTE-Cascais Jovem, centrou a sua abordagem na problemática da igualdade de género, que é hoje um desafio mundial.

“Nós queremos ocupar os nossos lugares de forma equilibrada porque nós só conseguiremos atingir as Metas de Desenvolvimento do Milénio com o apoio dos homens”, manifesta a dirigente associativa cabo-verdiana ao lembrar que a equidade do género é o quinto entre os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

A Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres, um dos parceiros da iniciativa, trouxe para o debate os desafios globais da paridade, por intermédio da sua vice-presidente, Ilidiacolina Vera Cruz. Esta ativista são-tomense, licenciada em Planeamento e Desenvolvimento Turístico, considera que a propósito da paridade deve ser reconhecido, de modo igual, o valor das pessoas de ambos os sexos, assim como deve ser dada visibilidade e dignidade igual aos homens e às mulheres. Também é preciso renovar a organização social de modo a que as mulheres e os homens partilhem direitos e responsabilidades.

O exemplo de Portugal

Deu o exemplo de Portugal, onde 58 por cento das mulheres trabalham na área do turismo e hotelaria. A sua contribuição neste setor para a economia corresponde a 13 por cento da riqueza nacional (Produto Interno Bruto). No entanto, a sua remuneração é inferior à dos homens. “Uma mulher no setor da hotelaria ganha 666,06 euros enquanto que um homem é capaz de ganhar cerca de 776 euros. Isto é uma diferença de pelo menos 100 euros”, precisa, para situar o grau de desigualdade salarial entre homens e mulheres.

Neste setor, acrescenta, as mulheres também são alvo de discriminação e de ´bullying` na gravidez, para além de outras práticas discriminatórias diretas e indiretas referenciadas numa investigação da Universidade de Aveiro sobre “Governança, Competitividade e Políticas Públicas” (2018).

Vera Cruz adianta que, para se atingir a igualdade plena e liberdade de participação de todos ao mesmo nível e à mesma dimensão, é necessário olhar para as políticas da igualdade e da paridade. Falando da questão das quotas, lembra que as mulheres, que não são consideradas um grupo, representam mais de metade da população mundial.

“Sendo as mulheres mais do que a metade da população, a sua representação tem que se situar a um nível correspondente”, propõe. “Isto quer dizer que as mulheres têm que ter igual valor aos homens na sociedade”.

De recordar que os ODS preconizam políticas que visam acabar com todas as formas de discriminação contra as mulheres e meninas em todas as partes do mundo. Outro dos objetivos é garantir a participação plena das mulheres e a igualdade de oportunidade, a liderança em todos os níveis de tomada de decisão a nível político, económico e social.

Emprego pleno até 2030

No que toca ao acesso ao trabalho digno e crescimento económico, os ODS preveem até 2030 alcançar o emprego pleno e produtivo e um trabalho decente para todas as mulheres e homens, incluindo os jovens e as pessoas com deficiência. A ativista cita ainda os ODS, referindo-se à implementação de políticas para promover o turismo sustentável, que criem emprego e promovam a cultura e o desenvolvimento dos produtos locais.

Segundo a Organização Mundial do Turismo (OMT), este setor deverá ser um importante aliado no alcance dos 17 ODS, devendo promover um maior engajamento das atividades turísticas com as metas da Agenda Global do Desenvolvimento Sustentável. O setor é apontado como importante pela sua relevância económica, uma vez que representa 10% do PIB e do emprego do mundo e tem um forte impacto nas políticas sociais.

“Tudo conseguimos desde que tenhamos força de vontade”

Outra das oradoras é Leila Portela, especialista cabo-verdiana na área do turismo e igualdade de género que, recorrendo à sua experiência de quase dez anos, explanou sobre como fortalecer a imagem na carreira e nos negócios.

Neste âmbito, dos quatro pontos essenciais na construção da imagem enquanto profissional realça os meios indispensáveis para transformar competências em negócios. “Eu agarrei nas minhas competências e transformei-as em negócio. Fui buscar as paixões que eu tenho [nas áreas do turismo e do género] e aliada a essas paixões tenho as competências, as ferramentas académicas e a experiência profissional”, exemplifica esta consultora licenciada em turismo.

“Cada vez mais queremos ter um papel mais ativo dentro desta temática”, sublinha a também presidente da Assembleia Geral da Associação de Mulheres Cabo-verdianas na Diáspora em Portugal, que também faz parte da Plataforma Portuguesa dos Direitos da Mulher. A associação trabalha com a comunidade imigrante, essencialmente com mulheres, sobre a igualdade de género com enfoque também no anti-racismo.

“Tudo conseguimos desde que tenhamos força de vontade e, sobretudo, se tivermos pessoas que nos apoiem e nos ajudam a impulsionar os nossos sonhos”, garante a empreendedora.

Acredita que todas as mulheres imigrantes em Portugal, mesmo as mais desfavorecidas, têm um potencial dentro de si. “E esse potencial tem que ser explorado. Isso tem que ser feito com formação e, principalmente, com recurso ao auto-conhecimento”, assegura. “Se eu souber quais é que são as minhas valências, os meus pontos positivos e os menos positivos, eu vou agarrar nesses pontos positivos, procurar formação, para os enaltecer e vou agarrar nos pontos menos positivos e vou transformá-los em oportunidades para eu trabalhar”, adianta. “Mas, para isso, é preciso que haja condições sociais e económicas e que as pessoas tenham essa vontade, sem desistir”.

Leila Portela diz que a mulher africana luta todos os dias. Ela “está constantemente a cair. Cai e levanta-se” face às dificuldades. “Existem oportunidades e elas estão sempre ao nosso redor. Nós é que temos que estar atentas e explorar essas oportunidades”, aconselha.

“As mulheres são capazes de tudo”, afirma otimista esta mãe, esposa e mentora, que diz conseguir conciliar estas várias responsabilidades com o suporte da família, acompanhado de um plano de ação e estratégia bem definidos para alcançar os objetivos propostos.

O lugar da moda

Através da estilista/designer Zeza, a moda também subiu ao palco para demonstrar como este setor pode servir de fator de empoderamento das mulheres, sobretudo das mulheres africanas que se destacam nessa vertente. O workshop avaliou todas as outras atividades económicas de suporte que podem colocar o género feminino em posição de destaque e contribuir para a sua integração plena.

A liderança das mulheres também esteve em cima da mesa. “Entendemos que, estando as mulheres em lugar de destaque na tomada de decisão, elas podem alavancar outras mulheres”, precisa Zilca Gonçalves.

A organização, enquanto sociedade civil, vai produzir recomendações a sair desta iniciativa que, segundo aquela dirigente associativa, serão apresentadas aos decisores no sentido de se mobilizar apoios para a tomada de decisão. A ideia é também levar propostas sobre a questão da equidade às instituições, sejam elas públicas ou privadas.

Em conclusão, o workshop visou não só incentivar a discussão, a partilha e a reflexão sobre aquelas temáticas, mas também entender em que medida é possível aliar as atividades turísticas para se conseguir os 17 Objetivos do Desenvolvimento do Sustentável. (X)

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