Músicos guineenses na diáspora propõem o “gumbé” a património mundial da Humanidade

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Músicos guineenses Atanásio Hatchuén e Rui Sangará

Rui Sangará instalou-se em Portugal em 1990 mas vai fazendo a ponte com o seu país natal, na condição de imigrante. Atanásio Hatchuén lançou-se como músico desde 1985. Ambos deram um concerto na passada sexta-feira, em Lisboa, oportunidade que o Jornal É@GORA aproveitou para uma conversa também à volta da atualidade no país de origem, que vai a votos a 24 de Novembro para eleger um novo Presidente da República. Os músicos exortam os guineenses, incluindo a diáspora no estrangeiro, a votarem em massa por uma Guiné-Bissau melhor.

A Guiné-Bissau tem muitos desafios a enfrentar em todos os domínios da vida nacional. As reformas económicas são imperiosas, mas também no plano social, “há muito a fazer”, afirma Atanásio Hatchuén, que, entre outros setores, propõe uma forte aposta nos domínios da educação e da saúde, com vista “a melhorar as condições de vida da população”.

Esta deve ser uma das prioridades dos governantes, que poderá servir de estímulo de chamamento para os imigrantes guineenses há muito interessados em regressar e dar a sua contribuição para o desenvolvimento do país.

“Todos estamos com esperança de que um dia a Guiné-Bissau vai mudar”, afirma optimista. Atanásio Hatchuén, com uma carreira musical iniciada nos anos 80, diz que, para ele, é “uma turbulência” o ambiente de crises políticas constantes na Guiné-Bissau.

Embora ainda haja alguma incerteza quanto ao futuro, devido à postura da classe política, considera que “as coisas estão a caminhar para melhor”, depois das eleições legislativas de 10 de março deste ano, que deram vitória ao Partido Africano para a Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde (PAIGC).

O país precisa de harmonia, de tolerância e de irmandade. Houve momentos bons, mas também maus e os dois irmãos acreditam que “isso vai passar”. Admitem que o ciclo de crises políticas está no fim. A atenção dos guineenses, refere Atanásio Hatchuén, está agora centrada nas eleições presidenciais que “estão à porta”, crentes numa mudança de paradigma. “As coisas vão mudar”, acreditam.

Desejam que o ato eleitoral decorra com normalidade e que esta seja uma excelente oportunidade para fazer da Guiné-Bissau um país melhor para todos. Consideram que o ambiente de estabilidade é necessário porque irá incentivar o regresso de muitos guineenses na diáspora.
“As pessoas têm o desejo de voltar à terra natal. Só estão à espera que a situação se normalize”, adianta Atanásio Hatchuén.

Como músicos profissionais prometem usar esse instrumento para mobilizar os conterrâneos radicados em países como Portugal a irem votar em nome da mudança.

Também atentos ao que se passa em Portugal e a propósito das últimas eleições legislativas, os nossos entrevistados saúdam a escolha pelos eleitores portugueses de Romualda Fernandes (PS), Joacine Katar Moreira (LIVRE) e Beatriz Dias (BE), três mulheres de origem guineense que vão ocupar o lugar de deputadas na Assembleia da República em Portugal.

São de opinião que esta é também “uma grande vitória” para toda a comunidade africana na diáspora, não só para a Guiné-Bissau, mas de uma forma geral para todos os outros Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

Na sua opinião, isso demonstra que África tem potencialidades, tem pessoas inteligentes capazes de prestarem um bom serviço.

“Estamos de parabéns, é uma alegria”, diz Atanásio Hatchuén, elogiando a coragem destas mulheres que se afirmam na vida política portuguesa. “É um passo muito importante”, acrescenta.



“É um estilo que nós herdamos dos nossos avós, dos nossos antepassados”, – faz notar Atanásio Hatchuén

O Jornal É@GORA entrevistou Rui Sangará e Atanásio Hatchuén esta sexta-feira, no dia do concerto em Lisboa, que assinalou o reencontro dos dois irmãos. Foi uma noite brindada de “Amizade”, um dos temas conhecidos interpretado pelos dois cantores guineenses.

O reencontro “foi uma grande festa com o público”, admitiram os músicos que confirmaram com este concerto ser o “B’Leza” um espaço cultural de confraternização não só para a imigração africana.

Não é a primeira vez que estão ambos no mesmo palco. “Há dois anos cantámos juntos neste projeto, que acaba por ser um encontro de irmãos”, dá conta Atanásio Hatchuén, que revela estar nos planos do duo gravar um disco logo que possível.

Entretanto, confirma que está a preparar um novo trabalho, ainda sem agenda de lançamento, enquanto que Sangará, que gravou o seu primeiro disco em 1992, anuncia para breve o single “Cainga”. Hatchuén, que lançou o seu álbum em 1997, faz saber que o futuro disco será feito nos EUA, com o músico radicado na América, Quim Alves, produtor de “Preta di Guiné”, gravado no ano 2000.

Ao longo da conversa, os dois artistas guineenses deixaram um apelo ao ministro da Cultura da Guiné-Bissau, no sentido de tudo fazer para dotar o país de meios e equipamentos para a promoção de festivais que ajudem a promover mais a música nacional.

Não basta o Estádio “24 de Setembro”, até então o único lugar para grandes concertos. Falam de criação de uma Casa de Cultura com condições para espetáculos. Por outro lado, afirma Rui Sangará, “há muitos artistas que querem gravar mas não têm possibilidade” para tal.

“Cada um grava à sua maneira, consoante as suas possibilidades”, lamenta, sublinhando que, também neste domínio, faltam meios e infra-estruturas, incluindo medidas contra a pirataria para proteger e preservar a criação artística e musical.

Já a conversa ia próxima do fim quando o músico lançou o repto para propor ao governo da Guiné-Bissau a apresentação à UNESCO da candidatura do gumbé a Património Mundial da Humanidade.

“É um estilo que nós herdamos dos nossos avós, dos nossos antepassados”, faz notar Atanásio Hatchuén. A tina, instrumento tradicional em forma de cabaça – o chamado tambor de água – também tem potencialidades para entrar na lista.

“Quando alguém ouvir o gumbé saberá à partida que este estilo musical é da Guiné-Bissau”, exemplifica, referindo-se a um dos casos entre os vários elementos de identidade nacional que devem ser promovidos no plano nacional e internacional.

“A decisão tem de ser do Estado da Guiné-Bissau”, conclui Atanásio Hatchuén. (X)

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