Nasir Ahmadi: “Por que a minha família não está na lista” dos afegãos acolhidos em Portugal?

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Portugal acolheu 80 afegãos no âmbito de emergência humanitária no Afeganistão. FOTO: AP ©

Manuel Matola

O imigrante Nasir Ahmadi diz ter ficado “muito desapontado” quando viu os 80 afegãos aterrarem no aeroporto de Lisboa, no domingo, sem que no grupo estivessem duas das mais importantes mulheres da sua vida: a mãe e a irmã, uma ativista dos direitos humanos em Cabul, que o jovem afegão anseia receber a qualquer momento em Portugal.

Em declarações ao jornal É@GORA, Nasir Ahmadi apelou ao governo português para que coloque a família “no próximo avião”, questionando a suposta inação mesmo depois de o imigrante ter feito de tudo um pouco, a partir da cidade do Porto, onde reside desde 2016, para que o executivo de Lisboa imprimisse esforço diplomático no sentido de trazer a mãe e a irmã do Afeganistão, onde continuam a tentar atravessar a fronteira para o Paquistão até que um dia consigam chegar a Portugal.

A luta do jovem afegão ganhou dimensão internacional na véspera da tomada de Cabul pelos talibã e, sobretudo, quando decidiu fazer greve de fome de quase 24 horas para chamar atenção para os últimos desenvolvimentos da política interna naquele país da Ásia Meridional.

No dia 30 de agosto, o afegão iniciou uma greve de fome para apelar o governo português para retirar a família da capital afegã, mas no dia seguinte o imigrante decidiu interromper o protesto por ter recebido garantias diretas do ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Augusto Santos Silva, de que a mãe e irmã terão visto de residência quando ambas estiverem “em território português”.

No domingo, os ministérios da Defesa Nacional, dos Negócios Estrangeiros, da Presidência e da Administração Interna anunciaram, em comunicado conjunto, a chegada de mais um grupo de refugiados afegãos, que integrava maioritariamente atletas da equipa de futebol feminino e seus agregados familiares.

Após a emergência humanitária no Afeganistão, pelo menos 178 cidadãos afegãos foram acolhidos em Portugal no âmbito de uma operação conjunta que envolveu as autoridades portuguesas e norte-americanas. No domingo chegou mais um grupo de 80 afegãos, mas Nazir Ahmadi não viu a sua família a sair do avião.

“Foi uma triste notícia quando o avião veio de Cabul e a minha família não estava na lista”, lamentou Nazir Ahmadi, que nos últimos dias vive dias de agonia por não saber quando vai vencer a batalha diária para conseguir reagrupamento familiar.

“Fiquei muito desapontado com isso e peço ao governo português que coloque a minha família no próximo avião também”, exorta Nasir Ahmadi.

Falando à imprensa portuguesa em Bruxelas, no final de uma reunião dos ministros do Interior da União Europeia (UE) sobre o Afeganistão, o ministro da Administração Interna de Portugal, Eduardo Cabrita, assinalou, no domingo, ser “uma questão de gestão de recursos”, notando que “as prioridades de Portugal estão definidas” e assentam em receber pessoas dos grupos mais vulneráveis, isto é, “mulheres, designadamente mulheres magistradas, crianças, ativistas de direitos humanos e jornalistas”.

Nazir Ahmadi. FOTO: Observador ©
“Bem, sabemos que a operação não é feita por militares americanos, mas uma vez que estão a vir para Portugal por que a minha família não está na lista?”, questiona Nasir Ahmadi, ao comentar ao jornal É@GORA “a triste notícia” que foi o anúncio de acolhimento provisório na Grande Lisboa das famílias afegãs que, posteriormente, serão albergadas em habitações autónomas de norte a sul de Portugal.

E no dia em que arrancou a Assembleia das Nações Unidas em Nova Iorque com discursos de alguns líderes mundiais centrado na necessidade de a comunidade internacional ajudar o novo governo talibã, Nazir Ahmadi lembra que do Afeganistão ainda chegam notícias de mais restrições às mulheres, incluindo ativistas cuja situação se torna todos os dias cada vez mais difícil.

“Eu sugiro fortemente que falem sobre a situação do Afeganistão e especificamente sobre os direitos das mulheres e espero que eles (os líderes mundiais) falem sobre as meninas e lhes permitam trabalhar e estudar. E uma segurança permanente”, contrapõe Nazir Ahmadi em declarações ao jornal É@GORA sobre qual deve ser a centralidade da questão afegã na Cimeira da ONU.

Fora o apelo diplomático, Nazir Ahmadi decidiu encetar contactos com o grupo IntellCorp que monitora a base de dados biométricos de “situações operacionais extremamente graves” de afegãos ex-colaboradores das forças Ocidentais.

O novo governo do Afeganistão, formalmente constituído pelos talibã, apoderou-se de Equipamentos Portáteis de Deteção de Identidade Interagências (HIIDE, sigla em inglês) que contém dados de reconhecimento facial e dispositivos de impressão digital dos que trabalharam em parceria com os aliados norte-americanos e a NATO.

Nasir Ahmadi receia que essas ferramentas permitam que os talibã cheguem facilmente a sua irmã, uma ativista dos direitos humanos que tal como a mãe “ainda não podem sair” do país porque as fronteiras permanecem encerradas, embora para a comunidade internacional o risco maior seja o de os talibã usarem a base de dados de impressões digitais dos estrangeiros que trabalharam no Afeganistão.

Em declarações anteriores ao jornal É@GORA, o jovem afegão revelou que, a partir de Portugal, há uma empresa de intelligence que “está a tentar” ajudar “a ver” se consegue retira-las de Cabul. No entanto, remeteu mais detalhes sobre o assunto à empresa IntellCorp.

Contactado pelo jornal É@GORA, o fundador da IntellCorp, Ruben Ribeiro, disse qual é o propósito da missão: “Trazer para casa elementos e famílias que se encontrem no Afeganistão”, resume o analista, esclarecendo, de seguida, quem são os tais elementos a resgatar.

“São familiares ou os próprios que estiveram a trabalhar com ex-militares portugueses ou com ex-militares dos aliados, dando prioridade aos portugueses e à União Europeia. Mas, ao contrário do que outros estados fizeram, não vamos discriminar. Não fica ninguém para trás, seja norte-americano, canadiano ou britânico”, explicou.

E em relação ao caso de Nasir Ahmadi, que pretende trazer a mãe e a irmã para Portugal, Ruben Ribeiro garantiu: “O processo da família do Nasir é feito como todos os que me estão a chegar”.

Questionado esta terça-feira pelo jornal É@GORA se continua acreditar que a mãe e a irmã vão conseguir sair do Afeganistão para Portugal, Nazir Ahmadi respondeu: “Isso é que não sei”. (MM)

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